O CONSERVADORISMO

É preciso resgatar a essência de nossa sociedade.

Por ÉRIKA FIGUEIREDO 13/10/2020 - 00:24 hs

O direito romano, a filosofia grega e a moral cristã são os três pilares sobre os quais se sustenta a educação ocidental. Foi por meio dos ensinamentos da cultura grega, das normas do direito romano e da moral judaico-cristã que a civilização do ocidente se orientou e conduziu, até a atualidade.

Na Grécia antiga, os cidadãos eram educados com vistas ao seu aprimoramento pessoal, a fim de que dessem sentido às suas vidas, exercitando suas virtudes. Desde muito jovens, os que recebiam educação formal, eram introduzidos na arte da guerra, na filosofia, nas ciências e nos idiomas, para aperfeiçoarem seu caráter e seus talentos, e desempenharem suas funções com honradez.

            Séculos depois, os romanos, baseando-se na tradição, nos costumes  e no direito natural (que é aquele que precede o homem, é anterior ao seu nascimento), compilaram um conjunto de diretrizes para a convivência em sociedade, com as punições correspondentes, para aqueles que as desrespeitassem.

            Do mesmo modo, a Igreja teve papel fundamental na formação intelectual do clero, bem como nos ensinamentos passados aos cristãos. Após o fim da era grega e a queda do império romano, sucessivamente, o que restou, à humanidade, como fonte de saber e formação moral, foi a orientação advinda da Igreja, durante muitos séculos.

----------------------------------------------------------------------------------

  ( Clique aqui e se inscreva!)

-------------------------------------------------------------------------------

O saber intelectual e moral, perpassado de geração em geração, os ensinamentos do cristianismo e a cópia e reprodução dos grandes clássicos, para que pudessem ser usufruídos pelos homens, somente foram possíveis graças à abnegação e à dedicação de muitos homens, e à convicção da essencialidade do conhecimento, para a perpetuação da civilização.

            As lições de história, filosofia, mitologia e religião eram um porto seguro para a humanidade, e a base da formação dos cidadãos, perpassadas de geração a geração, como forma de difusão do conhecimento, por parte dos membros das classes mais abastadas, os quais sabiam ler e escrever, e preservavam-no.

            Nunca houve, na História da civilização, acesso a tanta informação, por tantas pessoas, como hoje. Todo tipo de saber está disponível, sob a forma de livros, aulas, palestras, vídeos, áudios, mídias, redes sociais, escolas, universidades, e tantas outras fontes. Ao mesmo tempo, jamais se viu tamanha crise de valores morais e éticos, e tantas pessoas vazias, alienadas, com desprezo pela cultura e pelos livros. Onde foi que erramos?

            Creio que a resposta para essa pergunta está no tipo de valores que se tornaram importantes, para a sociedade. No mundo ocidental, que conforme visto acima, foi o mais beneficiado por fontes de saber infinitas, houve, por outro giro, a perda do sentido da vida.

            O que, na Grécia antiga, era ensinado e perseguido como objetivo- o saber como fonte de autoconhecimento e de descoberta do propósito de vida- foi absolutamente banalizado pelas gerações modernas, talvez em virtude da facilidade da vida nos novos tempos.

            Se até meados do século vinte, não havia garantias de vida longa e próspera para nenhum ser humano, em decorrência de sucessivas guerras, da fome, da escassez e das vicissitudes do cotidiano, com o fim da segunda guerra mundial, o que se passou a buscar foi estabilidade, segurança, poder e  prazer.

            O conhecimento, como ferramenta para melhor sobrevivência no mundo, tornou-se despiciendo, uma vez que sobreviver tornou-se algo natural, tendo deixado, a tragédia e a fatalidade, de integrar a cena moderna. Se tempos difíceis formam homens fortes, tempos de facilidades extremas tornam as pessoas fracas, superficiais. E foi isso que começou a se delinear, a partir da década de 60, do século XX.

            Os movimentos pela liberação das drogas, em defesa do feminismo, em prol do sexo livre, contra o conservadorismo, e tantos outros, que despontaram no mundo ocidental, traziam em sua essência, não apenas o combate a regras sociais, mas uma aniquilação da própria sociedade pré-estabelecida.

            Se a sociedade passou a ser vista como uma farsa a ser combatida, posto que engessava seus membros e não permitia que as pessoas tivessem liberdade de escolha, no âmago dessa desconstrução surgia algo muito destrutivo e pernicioso: a falta de valores sólidos.

            Se não há valores a serem preservados, e o que se deseja é criar uma nova era, as instituições precisam ser destruídas, para que o fruto das novas gerações seja algo novo, inédito. E onde não há o que preservar, não podem existir cultura e história a se valorizar, porque são a tradição e os costumes que fazem com que sejam valorizadas, respeitadas e preservadas a família, a moral, a religião e as regras sociais.

            Com a desconstrução dos valores essenciais norteadores da civilização, emergiram gerações de indivíduos desconectados das tradições e da história, do que é justo, bom, correto, virtuoso. Os propósitos de vida foram substituídos pelo imediatismo. Os valores morais foram substituídos por desejos efêmeros. A luta pelos ideais foi trocada pelo prazer.

Os indivíduos não sabem quem são, não encontram seu lugar no mundo. O ser humano está perdido, confuso, deprimido e sem objetivos. É preciso resgatar a essência de nossa sociedade. Isso só pode se dar através da história e da cultura, dos grandes exemplos, dos heróis e dos sábios do passado.

Ser conservador não significa querer que as coisas nunca mudem, mas sim  preservar as coisas boas que a humanidade nos deu. É buscar nas três fontes primárias, que nos foram reveladas pelos gregos, pelos romanos e pela Igreja, a razão de ser da civilização. Não existe povo sem memória. A tradição é um farol, que guia os passos dos homens em sentido ao aprimoramento moral e cultural.

            “O conservadorismo advém de um sentimento que toda pessoa madura compartilha com facilidade: a consciência de que as coisas admiráveis são facilmente destruídas, mas não são facilmente criadas. Isso é verdade, sobretudo, em relação às boas coisas que nos chegam como bens coletivos...” Sir Roger Scruton – Como ser um Conservador.