ENTRE A GROTA E O BOTECO – PARTE II

“Não há nada de novo debaixo do céu e da terra desde os tempos de Adão meu amigo”

Por DARTAGNAN ZANELA 18/10/2020 - 15:33 hs

A luz da manhã adentra o interior da velha bodega, sem pedir licença, tocando levemente as prateleiras de madeira com as mercadorias dispostas com simplicidade, num ambiente ornado com as réstias que acariciam a poeira fina carregada pelo ar, num sutil bailar entre os rodopios do pó em contraste com as sombras no interior da venda.

 

Era um ambiente aconchegante, tanto nas primeiras horas do dia, quando no cair da tarde, que sempre mantinha as tramelas abertas para os amigos e estranhos que estivessem de passagem.

 

Tibúrcio entra, junto com Belmiro, sem, é claro, deixar de bater suas botas dentro dum caixote ao lado da porta para tirar o barro que estivesse preso junto a sola de seu calçado. Ambos vão diretamente para o anexo ao lado, onde ficava a mesa de sinuca, duas mesinhas de canto e um balcão rústico feito com grossas tábuas de angico.

 

O balcão era uma obra feita pelo próprio Belmiro para sua proteção, tendo em vista que, na aurora dos seus dias, de vez enquanto rolava uns tiros por aquelas bandas. Hoje, não mais. Dizia ele que era sua trincheira - e de fato era – para ele e sem revolver se aquartelar, caso houvesse um entrevero feio na rua ou dentro da sua bodega.

 

“Quais são as novidades índio velho?”, perguntou Tibúrcio. “Não há nada de novo debaixo do céu e da terra desde os tempos de Adão meu amigo”, respondeu Belmiro, já com os tacos nas mãos para iniciar a partida.

 

“Claro que não há índio velho. Sempre há. Desde que o mundo é mundo que nós estamos errando pelos caminhos da vida, aqui e acolá, na tentativa de acertar; e se erramos feio é porque tentamos inventar moda, por teimosia e metidez, quando bastaria que nos esforçássemos para minimamente ser gente. Bem, de mais a mais, não é disso que estou falando seu exibido. Me diga: quais são as velhas novas gauchadas que estão sendo contadas e tramadas pelo povo na praça”?

 

“Hahahaha. Sim, sim, tenho muita coisa pra assuntar contigo, muita mesmo, mas, sacumé: gosto sempre de me lembrar disso, de que não passamos de coco de mosquito metido a besta nesse mundão de meu Deus”.

 

“E está certo em fazê-lo seu abestado. Está certíssimo. Se a indiada se lembrasse, todo santo dia, de que a gente não passa de pó, que a gente não passa dum saco de couro e carne cheinho de tripa e bosta, parariam de fazer tanta malvadeza sem sentido e, quem sabe, deixariam de ser tão metidos e vaidosos”.

 

“Verdade. Quer dar a primeira tacada”? “Que nada. Você é o dono da casa. Faça as honras”. “Que assim seja, mas depois não venha de fricote”.

 

Após dar a primeira tacada, fazendo o esparramo das bolas na mesa, Belmiro vai até o freezer para pegar aquela cerveja trincando de gelada e dois copos para molhar a palavra enquanto eles jogam e proseiam.

 

“Pois é meu velho amigo, em se falando de vaidade, você viu quem são os candidatos a prefeito de Lalalândia?”

 

“Não vi não, mas posso até imaginar quais serão as figuras que vão se atirar na peleja”.

 

“Dizem que nessa até os cachorros irão se candidatar”.

 

Tibúrcio para, mira a bola cinco na caçapa do canto esquerdo; acerta-a. Muda de lado e, agora, mira a dois para acertar na caçapa do meio, do lado direito, errando-a e então, diz: “Sabe Belmiro, pra ser bem franco com você, esse circo todo não me impressiona não. É sempre assim. Sempre. Antes de começar as eleições os caciques políticos, grandes ou pequenos, se lançam candidatos, fazem aquele fervo; uns para sentir a temperatura do momento e ver a lonjura de seu bote; outros o fazem pra se mostrar, se exibir feito pavão fresco, perante os outros chefes políticos para poder vender o apoio de seu partido. Isso me dá nojo”.

 

“Em troca de cargos, de dinheiro, isso sem contar que muitos, inclusive, vendem o próprio partido. E não duvido que existam aqueles que vendem a própria alma pra esse diabedo para obter alguma vantagem”.

 

“Isso mesmo. Por isso que eu não coloco muita fé nesse trem fuçado de eleição. Os partidos políticos são apresentados como um troço para representar os anseios e interesses da gente, dos cidadãos como falam os bundinhas diplomados, apresentando um projeto de sociedade e coisa e tal, mas, no fundo, essas tranqueiras acabam sendo similares a títulos de terras. Enfim, índio velho, nesses pagos em que vivemos, Partido tem dono, têm sócios, mas não têm princípios nem projetos”.

 

Belmiro ouve atentamente a palestra do amigo enquanto mira a bola nove a caçapa do canto direito, matando-a, e então diz: “Verdade meu amigo. Pura verdade. Estava ontem mesmo falando sobre isso com minha senhora enquanto a gente mateava. O jeito que o jogo político é organizado em nosso país dá a impressão de que as pessoas se filiam nesses ditos cujos pra fazer volume ou pra ficar mais perto do fervo, não para fazer valer a suas convicções”.

 

“Desculpe-me interromper teu raciocínio Belmiro”. “Diga”. “Mas me conte quais são os candidatos a prefeito de Lalalândia dessa vez?”

 

“Ah! Sim, já estava me esquecendo. Será o Pedro Caturrita, o Janjão Garganta, o Clodoaldo das Couves, o Lerguino Pinto e o Jacinto Bráulio”.

 

“Me! Até o Jacinto Bráulio se atirou como pré-candidato”. “Até ele”. O Janjão Garganta!” “É, isso mesmo”. “Homem de Deus, o que leva esses caboclos se lançarem candidatos meu Deus do Céu. É muita falta de noção ou de caráter”.

 

“Como assim Tibúrcio? Não fale desse jeito homem de Deus”. “E vou falar como Belmiro! Venhamos e convenhamos se o caboclo não consegue ligar lé com crê, se ele não administra nem a própria vida com lisura, se sempre viveu em torno de cargos públicos e se apresenta como candidato pra governar nossa cidade, das duas uma: ou o infeliz é um perdido sem noção, se a achando o gás da coca, ou então está se fazendo de João sem braço, querendo tirar alguma vantagem, você não acha isso?”

 

“É. É mesmo. Como disse meu irmão uma vez pra mim: os caboclos gastam dois, três, quatro milhões de pilas numa campanha e, gastam tudo isso e muito mais, simplesmente por amor ao povo lalalense e para zelar do bem comum”.

 

Ambos se olham, sérios, comprimem os lábios, estufam as bochechas entre os bigodes fartos enquanto franzem a testa e, num rompante só, se partem de tanto rir indo até o balcão para molhar a palavra com aquela cervejinha pra lá de gelada.

 

Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela

--------------------------------------------------------------------------------------


 (Clique aqui e se inscreva!)

--------------------------------------------------------------------------------------