Nunca cresceremos assim

O carácter ou as circunstâncias da pessoa nada tem a ver com a verdade ou falsidade...

Por FERNANDO RAZENTE 18/10/2020 - 15:50 hs

Nesta semana recebi um exemplar do tão esperado livrinho Três Dias, do jornalista Rogério Silva Araújo, publicado pela Editora Armada. Não se enganem com o meu uso do diminutivo, pois apesar de me encontrar ainda na primeira parte do escrito, a leitura já valeu - estimo - mais que 40% da minha licenciatura de 4 anos em História. Isso também tem seu lado trágico. 

 

Falando em História, é notório que as Ciências Humanas no Brasil não andam nada bem (há muito tempo, é verdade); a culpa, certamente, não é da ciência. Quando falo em “ciência” estou me referindo simplesmente aos dados axiomáticos ou às hipóteses devidamente testadas e verificadas pelos cientistas como verdadeiras. Portanto, ciência e verdade devem sempre andar de mãos dadas - creio.  

 

A cisão entre ciência e verdade (ἀλήθεια), nos mais diversos ramos do conhecimento, acontece quando 1) não se pressupõe mais a realidade da verdade objetiva ou 2) quando o caráter individual do ser humano coloca-se acima - ou como regulador - do  caminho científico. Daí se segue, desde os períodos da Filosofia Grega Clássica, as conclusões sofistas, o humanismo, e o profetizado (pelo anglicano do séc. XX C. S. Lewis) relativismo aliado ao moderno subjetivismo radical. Falando em relativismo, não posso perder o momento para uma citação de homenagem. Como escreveu Sir Roger Scruton (1944–2020), o relativismo moral é o primeiro refúgio dos canalhas.”

 

Qual o resultado da adoção do segundo ponto? Ora, é que o conteúdo - o produto bruto - de qualquer “ciência” (aqui já utilizo o termo como meramente um sinônimo para curso) pouco importa. Na verdade, o que importa mesmo agora é quem produziu o conteúdo. Ocorre, então, o trágico divórcio entre Ciência e Verdade e emerge o novo relacionamento - que direciona o caminho do conhecimento na presente Era - entre o tirânico e egocêntrico Homem e a mera informação (ou a verdade das muitas verdades).  

 

E caros, ninguém está imune a esse maldito Zeitgeist! Por exemplo, um tempo atrás fiquei tão cansado dos incontáveis e imprestáveis delírios marxistas sobre a história econômica europeia, que fiz um compromisso radicalista comigo mesmo de nunca mais tocar num livro que fosse de autor marxista. Nem tocar! Coitado de mim. Ali estava eu, sem perceber, prestando votos solenes ao novo “casal do conhecimento” - Homem e Informação. Precisamos ter alguns cuidados. A Direita, principalmente, precisa ter esse cuidado para não fazer ad hominem às avessas. 

 

Agora é o momento de voltarmos ao livro do Rogério. Lá pela página 29 encontrei - no que diz respeito ao método científico no jornalismo - o ponto nevrálgico de toda essa discussão em torno da relação entre informante/informação ou cientista/ciência. Ele escreveu: "A característica principal do produto informativo é a objetividade, porque o que importa é a narração fiel dos fatos noticiados, sendo irrelevante saber quem compôs a matéria." Na mosca! Touché! 

 

Rogério, em poucas linhas, sintetizou o que considero ser o caminho de redenção para as ciências humanas (digo, para os cientistas) - e todos os outros ramos do conhecimento -  isto é, a objetividade do conteúdo indiferentemente da sua relação com o compositor. Ao ler essas palavras, me lembrei de forma instantânea do que escreveu o consagrado medievalista conservador Ricardo da Costa, também autor da Armada

 

Para denunciar os hábitos intelectuais da Esquerda - e da nossa ainda infante Direita - Ricardo da Costa retomou a história da piedade intelectiva tomista. “No distante séc. XIII, o professor (e católico) Tomás de Aquino (1224-1274) adotou em sua obra ideias de judeus e muçulmanos. A Escolástica comentava ideias e chegava a conclusões não de acordo com a ‘importância’ da pessoa que emitiu a ideia. ‘Não importa quem diz, mas o que diz’, máxima dessa tradição que forjou a Universidade. Da esquerda à direita, em pleno séc. XXI, o Brasil ainda não aprendeu a discutir ideias. Seus intelectuais se aferram a grupos, a quem diz o que diz. Estigmatizam quem pensa diferente, ou quem apresenta uma questão em seu grupelho que não seja o consenso ditado por seus líderes. Nunca cresceremos assim…”


Nunca cresceremos assim. Enquanto nossos historiadores e jornalistas, leitores e espectadores se preocuparem mais com a pessoa que apresentou um argumento do que o argumento que apresentou… não cresceremos. Enquanto atacarmos o carácter, a nacionalidade, a raça ou a religião da pessoa em vez da objetividade da questão… nunca cresceremos. Enquanto nos preocuparmos com os interesses, da posição, das associações, das companhias do indivíduo mais que sua relação direta com a verdade… jamais cresceremos. 


O carácter ou as circunstâncias da pessoa nada tem a ver com a verdade ou falsidade da proposição defendida. Elas podem até sugerir certas tendências, mas nada que possa dar a ela o definitivo caráter verdadeiro ou falso. Se quisermos crescer como pesquisadores, informantes, leitores e internautas, precisamos colocar em prática a orientação do Doutor Angélico: “Não consideres de quem ouves as coisas, mas tudo o que se disser de bom, confia-o à tua memória."

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