A Quinta Camada

o “mala sem alça”...

Por Márcio Freyesleben 20/10/2020 - 15:09 hs

Segundo o Prof. Olavo de Carvalho, a personalidade humana não nasce pronta e acaba. Ao contrário, desenvolve-se alçando em camadas de acordo com o interesse predominante em cada etapa da vida.

         Um garoto na fase inicial da adolescência é tipicamente um quarta camada. É a fase em que inicia seu ciclo de convivência fora do núcleo familiar. A necessidade de ser aceito por seu novo grupo de referência é determinante. Buscar a aceitação dos colegas, ainda que contrariando os costumes da família, é um fator imperativo da nova camada. A respeito do quarta camada, o Prof. Olavo de Carvalho escreveu  O Imbecil Juvenil: um adolescente que, apesar de parecer um rebelde para a família, é um ser dócil às expectativas do grupo, pronto a assimilar gírias, modos de vestir e pensar dos colegas. É um rebelde para a família, mas submisso às expectativas de sua nova “tribo”.

Que um garoto no início da adolescência proceda assim, vá lá! Difícil mesmo é quando um adulto permanece na quarta camada. Torna-se um indivíduo carente, ávido pela aprovação de todos, incapaz de assumir postura individual. É um eterno escravo da aprovação do grupo, sem a qual se  sente rejeitado e, por isso mesmo,  infeliz.

Além disso, o quarta camada, seja o garoto  recém-entrado na adolescência ou o adulto imaturo, é um buscador de felicidade. A razão de sua vida é a procura pela diversão. As redes sociais são pródigas em exibir adultos postando fotos de suas viajens, de suas aventuras, de suas reuniões ebrifestivas e de seus convescotes. São adultos infantilizados tentando provar para os outros o quão felizes são.

Mas muitos superam está fase e, já no fim da adolescência, sobem de camada, mudam o centro de seus interesses: são os quinta camada.

A palavra-chave para o quinta camada é a auto-afirmação. A busca da felicidade deixa de ser um objetivo em si. Ele precisa provar  que é capaz de fazer algo por si mesmo.   Não se trata de provar algo aos outros. Pode até haver algum exibicionismo, mas o importante para o quinta camada é provar para si mesmo  que ele é capaz de realizar algo.

Para o quinta camada, o importante é auto-afirmar-se como alguém dotado de alguma competência, seja no esporte, nos estudos, nas relações socias. Pouco importa! O importante é provar para si mesmo que ele é capaz de produzir a própria satisfação, sem depender do meio social.

A quinta camada é necessária, mas apenas como um caminho de passagem. Um  adulto que  estaciona nesta camada é sempre uma pessoa problemática. A necessidade de eterna auto-afirmação torna-se um problema para o convívio. Em seu círculo de convivência, os atritos são inevitáveis porque a necessidade de auto-afirmar-se o trona  avesso à discordância.

Se a realização do quinta camada é a sua afirmação, sua extrema frustração é a contrariedade. Isso é a suprema prova de sua fraqueza. Suas idéias, suas opiniões, seus pareceres precisam ser acolhidos pelo grupo, pois do contrário ele se ressente. A derrota para o quinta camada é a prova definitiva de sua fraqueza, e como ele precisa auto-afirmar-se, sempre reagirá inconformado. 

Um quita camada no ambiente de trabalho ou de um grupo qualquer é sempre um elemento desagregador. Para ele, toda contrariedade é mostra de sua fraqueza; e então ele reage insistindo, persistindo, batendo na mesma tecla. Nunca desiste de fazer valer as suas “doutas”  opiniões. Ele nunca se equivoca, nunca transige. Ele toma a divergência como prova cabal de sua derrota: e  para um quinta camada isso é insuportável. Então  ele volta à carga...  Não recua... É propriamente o que se denomina de “um chato”, é o famoso “mala”. Ele desagrega, cria conflitos, divide e gera intrigas. Nenhum grupo sobrevive a um “mala” por muito tempo.

Nenhuma sociedade sobrevive sem que seus membros se tornem homens maduros, ou seja, homens que tenham alcançado, no mínimo, a sétima camada (homens centrados em seu papel social).

Infelizmente, parte de nossa sociedade não é formada de adultos maduros. Aqui, lá  e acolá, pululam indivíduos auto-referentes para quem o sistema solar gira em torno de seus conspícuos umbigos. Vaidosos e prepotentes, crêem-se senhores de uma “verdade” que, para um homem que não conseguiu sair da adolescência, é um enigma inacessível à sua imaginação.

Um quinta camada é  um imbecil juvenil. Segue sua sina cônscio de que os  chatos são os outros. Ele é sempre prefeito. Sim, é  um perfeito “mala sem alça”.

 

Márcio Chila Freyesleben - Marceneiro Livre  

------------------------------------------------------------------


  ( Clique aqui e se inscreva!)

------------------------------------------------------------------