AS DIFICULDADES

Por ÉRIKA FIGUEIREDO 02/11/2020 - 21:31 hs

            A vida nos exige coragem. Ela nos desafia, forja nosso caráter, testa nossa resistência e nos apresenta todo tipo de obstáculos. Como se diz por aí, viver é para os fortes. Diante das vicissitudes da vida, as pessoas desenvolvem dois tipos de comportamento: ou se apossam de seu destino, tomando as rédeas das situações, ou se vitimizam, colocando-se como reféns desse mesmo destino.

            Todos já devem ter ouvido falar que a palavra crise, para os orientais, é sinônimo de oportunidade. É nos momentos de crise que podemos nos reinventar, descobrir novos caminhos, corrigir o percurso, reescrever nossa história. As crises podem nos tornar mais fortes, nos aproximar de Deus, nos dar uma nova perspectiva. Elas podem, enfim, ser a chance de ouro para uma mudança radical.

            Mas por que, então, os problemas são sempre superdimensionados, e as dificuldades não são bem-vindas? Bem, isso é fácil de compreender. O ser humano não gosta de estar em estado de alerta permanente. Viver em uma zona de conforto é algo extremamente almejado pelos homens, desde o início da Humanidade.

            Enquanto os animais permanecem em vigilância constante, com seu instinto de sobrevivência ativado, os seres humanos se cercaram de confortos dos quais não desejam abrir mão, e aos quais se apegam, afastando-se de sua essência.

            Por conta da imprevisibilidade da vida, almejar o paraíso e acreditar na imortalidade da alma, tendo uma religião à qual se agarrar nos momentos de dificuldades, salvou a Humanidade, durante as diversas eras da civilização, da desesperança, servindo como um grande consolo: o grande prêmio somente seria concedido, a cada um, conforme o modo pelo qual gozara sua vida na Terra, e o sujeito só poderia se entender com Deus, lá do outro lado, se conseguisse fitar-lhe a face, sem arrependimentos.  

            Com as facilidades dos tempos modernos, bem como com o aumento da expectativa de vida, para as pessoas, os imprevistos e os infortúnios deixaram de ter papel preponderante, na trajetória dos homens. A zona de confortos materiais, na qual todos se instalaram com alegria e prazer, fez com que nos esquecêssemos das tragédias, das fatalidades, das limitações e das crises.

            Isso trouxe consigo problemas gigantescos, que são, basicamente: a falta de capacidade para lidar com adversidades, a falta de resiliência, a falta de coragem e a falta de fé. Diante da calmaria, as pessoas não precisam mais desenvolver virtudes essenciais à sobrevivência, ou à superação de dificuldades. Isso as torna acuadas, fracas, preguiçosas e ingratas.

            Tudo que temos nos foi dado por Deus. Ele é o criador do Universo, e somos pequenos grãos de areia diante dEle.  Ter a exata dimensão de que tudo que possuímos, aqui, agora, nos foi dado por Ele, sem que nem sejamos merecedores, e procurar honrar nossa trajetória com dignidade, fé, gratidão, amor e caridade, preparando-nos para os momentos difíceis com altivez, nobreza e dignidade, é algo que precisamos cultivar, diariamente.

            O caminho da plenitude pessoal vem da aceitação da vida como ela é, com os obstáculos, as perdas e os momentos difíceis, que inevitavelmente se apresentam, para todos. É desenvolvendo presença em todas as situações que vivenciamos, estando inteiros dentro do cenário que surge, que nos conectamos com a nossa gratidão a Deus.

            E por favor, não me venham os filósofos de instagram falar em gratidão pelo por do sol, pela lua, pela árvore, e outras maluquices. Esse não é o tipo de gratidão que precisamos desenvolver, dentro de nós: essas coisas já estão aí, na natureza, e não representam presentes, em nossas vidas, não foram destinadas a nós. Dizer GRATIDÃO, a torto e a direito, por aí, desmerece as verdadeiras dádivas que recebemos.

            A gratidão que nos leva à plenitude é algo íntimo, pessoal, baseado em nossa existência, em cada coisa que se pode observar como única, como um presente que nos foi concedido: a saúde, a comida à mesa, os filhos, a casa onde vivemos, o trabalho que temos a benção de realizar, os pais idosos ainda vivos... Essas são graças efetivas, que lhe foram dadas sem que você merecesse mais do que os demais mortais, e é por elas que você deve se ajoelhar e orar.

Prendemo-nos a vários aspectos que nos engessam, nessa busca por evolução. O passado? Ora, todos podemos nos modificar. Siga em frente. Todos temos erros a corrigir, atitudes a transformar. Não se vitimize. Problemas?  Lamento informar, eles continuarão existindo. Não espere por situações excepcionais, super favoráveis para se sentir feliz. Elas podem nunca chegar... Seja feliz hoje, dentro das circunstâncias que você tem.

Desenvolva esse olhar sobre a vida de modo amplo, avaliando o quanto você tem, ainda que sequer mereça. Se alegre com as pequenas coisas do seu cotidiano, e logo você se sentirá alegre, com maior frequência. Se arrumar por dentro, mudando atitudes, revendo comportamentos, desenvolvendo essa gratidão real, fazendo-se presente em tudo que te acontece, é um bom começo.

Não tente mudar os outros. Modifique-se você. Use suas limitações como incentivo para a mudança. Foque nos seus objetivos. Agradeça a Deus por tudo. Seja presença. Seja fortaleza. Seja exemplo. Arrume sua casa, antes de querer mudar o mundo. E de repente, você verá, como que num passe de mágica, tudo começará a melhorar...

As dificuldades são grandes conselheiras. É preciso escutar as mensagens que carregam.

“A verdadeira medida de um homem não se vê na forma como ele se comporta em momentos de conforto e conveniência, mas em como se mantém em tempos de controvérsia e desafio”. Martin Luther King.