Soluções brasileiras e outros riscos

Sempre que penso em ato de fé, me vem à cabeça a urna eletrônica que, em todo o Brasil, foi a solução do problema...

Por ADRIANO MARREIROS 16/11/2020 - 19:39 hs

Pessoas que são boas em arrumar desculpas, raramente são boas em

qualquer outra coisa..

Benjamin Franklin


 

Sem ânimo para escrever de verdade, farei apenas breves comentários descompromissados.  Lembra das “Mensagens de otimismo” que a gente lê aqui e ali?  Pois é: estas não são assim...

 

Soluções

Lembro que o Brasil vinha com uma inflação imensa. Ano após ano, mês após mês, tudo aumentava: até dia após dia.  As máquinas de remarcação funcionavam sem parar.  De repente veio o Plano Cruzado que congelou tudo, proibindo aumentos, e foi a solução do problema...

Ainda no Brasil, nos anos 80 e 90, a gente vivia ouvindo notícias de fraude a cada eleição.  Na apuração era comum, por exemplo, dezenas de cédulas com a mesma caligrafia descobertas numa urna.  Nesses casos, havia perícia e todas eram anuladas.  É verdade que era impossível descobrir todas as fraudes, mas muitas eram...Aí veio a urna eletrônica e... pronto: a conferência dos votos em cada urna passou a ser secreta, já não havia mais cédulas com a mesma caligrafia para serem descobertas e foi a solução do problema...

 

Ato de fé

Lembro muito de quando morei em Brasília. O Código de Trânsito sempre previu que a preferência era de quem estava na rotatória, mas só em Brasília isso era respeitado, não em todo o Brasil.

Quando eu estava na rotatória e vinha um caminhão, um ônibus, um Porsche, sempre considerei um ato de fé prosseguir sem parar.  Sei lá: vai que era alguém novo que não respeitava a rotatória e me atingisse.  Morrer ou pagar o Porsche (dizem que a preferência é sempre dele e tem muitos na produtiva Brasília), seria algo grave, nem sei qual o pior...  Mas nunca ocorreu nenhum acidente.

Sempre que penso em ato de fé, me vem à cabeça a urna eletrônica que, em todo o Brasil, foi a solução do problema. E nunca ocorreu nenhum acidente...

 

Sexto sentido (sem spoilers)

Há muitos anos, assisti aquele fabuloso filme do menino que via pessoas mortas (I see dead people) e fiquei surpreso e chocado com o final.

Deve ser assustador perceber pessoas mortas fazendo coisas que só pessoas vivas deviam fazer.  Qualquer um com a mente normal, lógica e sensata também vai ficar surpreso e chocado com o final...

 

Minority Report

Muitas vezes, quando vou a um evento e faço pergunta ao palestrante por meio daquele papelzinho meio ridículo enviado ao presidente da mesa, vejo minha pergunta ser censurada total (vetada) ou parcialmente.  Sempre fico pensando se é por medo da resposta e suas consequências...

Meu amigo e xará Adriano Alves postou numa rede uma pergunta, sem qualquer comentário, sem qualquer ilação, sobre quais assuntos jurídicos estariam sendo discutidos na Comissão que visa a alterar a lei de lavagem de dinheiro instituída na Câmara.  Nesses termos.  Os “checadores” de flatos, digo, de fatos colocaram uma tarja no post da pergunta dizendo que aquilo era falso.  Uma pergunta sobre um fato efetivamente existente poderia ser considerado algo falso a ponto de gerar a já tradicional “censura do bem”?  Lembro do filme Minority Report e fico pensando se é por medo da resposta e suas consequências...

 

De Chopin a Odorico

Por fim, e quebrando a sequência, devo dizer que hoje não vou parafrasear nenhuma música: estes tempos só me trazem à cabeça aquela que é bela e melancólica no piano de Chopin e piegas e cômica na versão da banda de Sucupira.  Ela ficava eternamente treinando a famosa marcha Fúnebre para estar sempre pronta para a inauguração do faraônico e desnecessário cemitério que Odorico fizera e cuja inauguração só se deu quando ele se fez defunto pelas mãos do “ressocializado” Zeca Diabo[1].  “Deixando de entretantos e passando aos finalmentes”, é justo dizer que Paraguassu era matreiro, desonesto e ímprobo, mas jamais chegou a privar o povo Sucupirense de suas liberdades.  Quanto à Liberdade, pensar nela só me faz pensar em Mozart, no seu Réquiem inacabado e terrível...


Dies irae, dies illa
Solvet saeclum in favilla
Teste David cum Sibylla (...)

Quantus tremor est futurus
Dies irae, dies illa
Quantus tremor est futurus
Dies irae, dies illa[2]

(Dia da ira, aquele dia

Em que o mundo se dissolverá em cinzas

Como predito por Davi com Sibila

Como é grande o terror que está por vir
Dia da ira, aquele dia
Como é grande o terror que está por vir
Dia da ira, aquele dia)

Crux Sacra Sit Mihi Lux / Non Draco Sit Mihi Dux 
Vade Retro Satana / Nunquam Suade Mihi Vana 
Sunt Mala Quae Libas / Ipse Venena Bibas

(Oração de São Bento cuja proteção eu suplico)

 

*Adriano Alves-Marreiros

Cronista, pessimista, Mestre em Direito, membro do MCI e MP Pró-Sociedade e

autor da obra Hierarquia e Disciplina são Garantias Constitucionais,

da Editora E.D.A.



[1] Na novela.  Na série houve esta inauguração com defunto “contrabandeado”: < https://www.youtube.com/watch?v=lDjEa2WtOTI >

[2] O Réquiem inacabado de Mozart: <https://www.youtube.com/watch?v=GAYedV3MbqQ>