CUMPRA SEU DEVER!

Fazer o que é necessário que se faça é muito raro, nos tempos modernos

Por ÉRIKA FIGUEIREDO 16/11/2020 - 21:44 hs

Como todos vocês já sabem, sou viciada em acompanhar séries. Começou a quarta temporada de The Crown, na Netflix, e lá fui eu assisti-la. E como sempre acontece comigo (encontro inspiração em tudo que vejo, leio, escuto...), o primeiro capítulo foi o embrião desta coluna.

A temporada se inicia no ano de 1979, com Margaret Thatcher apresentando-se à Rainha Elizabeth, para o cumprimento de seu dever como Primeira-Ministra, eleita pelo Partido Conservador, e com Lorde Mountbatten, tio-avô do Príncipe Charles, escrevendo-lhe uma carta, na qual diz,ao sobrinho-neto, que este não está cumprindo seus deveres como príncipe, adequadamente.

Lorde Mountbatten vai mais além, e diz a Charles, na carta, que este tem uma função a desempenhar, da qual foi imbuído por Deus, como futuro rei da Inglaterra, e que ele precisa compreender e exercer essa sua vocação. Logo em seguida, o tio-avô morre, em um atentado promovido pelo IRA (exército da libertação irlandês).

Passei, então, a refletir sobre algo que norteou a minha vida toda, e que me fez ser firme e resignada em muitas decisões: o senso de dever.

Fazer o que é necessário que se faça é muito raro, nos tempos modernos. Cercados de facilidades por todos os lados, vamos nos perdendo em pequenos prazeres, e esquecendo dos nossos deveres, e do quanto precisamos realiza-los, de forma positiva e plena. 

Vou explicar melhor: a vida nos oferece uma série de opções, todos os dias. Desde a hora em que acordamos, até o momento em que vamos dormir, tomamos cerca de três mil decisões por dia. Podemos, até mesmo, delegar algumas obrigações, mas isso não deixa de ser a tomada de uma decisão!

Ocorre que, muitas das vezes, nos perdemos nas escolhas menores, esquecendo-nos do todo. E pior: fazemos pequenas escolhas ruins, que influenciarão no cumprimento ou não do nosso dever principal. Era isso que o tio dizia ao sobrinho, na carta – que escolhas infelizes que este vinha fazendo, comprometeriam sua capacidade de ser rei.

E nós, fazemos boas escolhas? Essa análise precisa ser feita dentro de um contexto mais amplo, e para que a façamos, precisamos, primeiro, saber quais são os nossos deveres essenciais, nesta vida. Se não soubermos quais são nossas obrigações, e qual é nossa vocação, bem como qual é o dom que nos foi concedido por Deus, não conseguiremos avançar.

Assim, após identificarmos qual é o sentido de nossa existência (que não precisa ser salvar a humanidade, ser rei ou rainha, ou pisar em Marte), é imperioso que façamos um exercício de projeção do futuro, avaliando se as nossas atitudes de hoje, nos levarão à realização desse objetivo lá na frente, ou se elas nos afastam do nosso caminho.

“Eu sou eu e minhas circunstâncias”. A famosa frase de Ortega Y Garcez nos dá uma boa pista sobre as decisões que devemos tomar. Se sua decisão afasta você completamente da sua estrutura de vida, da sua família, da sua religião, do seu trabalho, e do que você construiu de bom até aqui, essa não é uma escolha sábia. 

Do mesmo modo, se sua decisão te anestesia da realidade, te afasta do que você deve fazer por você e pelos seus, esta também não é uma escolha acertada. Ao jogar fora tudo que você conquistou com trabalho árduo, amor e fé, você se esquece , de que cada passo importa, no seu caminho.

Vivemos em um mundo em que as pessoas se afastam, o tempo inteiro, de sua vocação. Elas se deixam levar por pequenos gozos, se entorpecem com facilidades momentâneas, e perdem o foco de sua existência. Não à toa, constatamos o quanto o ser humano está perdido, desorientado, deprimido e sem rumo. 

A fim de que possamos tomar posse de nossas vidas e de nossos destinos, e de que nos sintamos preenchidos, precisamos encarar os desafios e os problemas de frente, buscar soluções eficazes, sem paliativos.

Precisamos sair do hedonismo, desse papo de carpe diem (aproveite o dia), e entender que não vai dar pra ter prazer em tudo, o tempo todo. Não vai dar pra ser feliz todo dia. Não vai dar pra comemorar vitórias sempre, não há como não experimentar contratempos, imprevistos, frustrações. A frustração está no mundo dos homens, desde que Eva comeu a maçã, no Éden.

O que é possível exercitar é o entendimento de que, ao final, se você realizar o seu propósito de vida, e puder enfrentar a hora da sua morte, seu memento mori em paz, com a sensação de dever cumprido, tudo valeu a pena. 

            Perder uma batalha não é perder a guerra. E não será justo com você mesmo, caso venha a se comparar com os outros: não se compare com ninguém, a não ser com quem você mesmo foi, no passado. Com essa a regrinha de ouro  que Jordan Peterson nos ensina, em seu livro Doze Regras para a Vida, fica mais facil avaliar se você evoluiu, e se está indo ao encontro do que Deus te reservou!

“Quem quer passar além do Bojador, tem que passar além da dor” Fernando Pessoa