A CORRIDA

As pessoas correram na praia para amparar o senhor que havia parado de correr e se ajoelhado, olhando para o céu. Mas ele já não estava lá.

Por Eduardo Vieira 22/11/2020 - 15:34 hs


A chuva batia quente no rosto de Oleg enquanto ele corria. Achava que seria impossível mas lá estava ele, sem cambalear, sem titubear. Correndo como se não sentisse os 75 anos, como se não tivesse acabado de se levantar da cama do hospital. Seu nome de fato era Olegário mas gostava do apelido Oleg, desde que soube se referir ao imperador Alexandre da Macedônia. Conseguiu aos vinte anos achar um pouco de charme para seu nome tão curioso e ultrapassado.

Sua mente o levou para aquele início de vida, quando todas as portas estão abertas e a vida parece gratuita e infinita. Havia passado as últimas semanas na cama do hospital amargando os seus erros, lembrando das oportunidades perdidas, da valorização de tantas tolices e do abandono de quase tudo que era realmente precioso.

E precioso era o seu neto João, a razão dessa mágica corrida. Um garoto tranquilo, sereno, brincalhão e feliz, viveu sua infância meio abandonado pelo pai, tão idiota quanto ele mesmo o havia ensinado a ser, perseguindo mulheres e dinheiro, enquanto um milagre brilhante era ignorado enquanto lhe puxava a barra da calça pedindo atenção.

Mas João nunca se deu por vencido e não saiu do seu caminho. Seguiu reto e firme, até aquela primeira visita no hospital. A partir dali o avô o considerou um santo. Como aquele meninote de vinte e poucos anos conseguiu consertar seu velho e amargo coração e enchê-lo de esperança?

Oleg tinha a sensação de ter queimado sua vida como um imenso cigarro, cheio de fumaça e alcatrão. O jovem João o fez ver o que de bom tinha feito, seus filhos e ele mesmo, seu neto. As pessoas que havia ajudado, seus amigos fiéis que ainda o procuravam. João levava consigo a Bíblia e lia-lhe trechos do evangelho. E seu coração foi se remendando, se suavizando e se enchendo de algo que há anos não experimentava.

Oleg corria, rindo. Não viu o casal que se abrigava na barraca do quiosque na orla. Não viu a surpresa com que observavam aquela cena. Ele corria, mas corria muito rápido. Ria e corria como se nenhuma velocidade fosse impossível.

Quando chegou o seu diagnóstico e a previsão de um curto, debilitante e inútil tratamento, Oleg já tinha feito as pazes com o mundo. Já tinha se desculpado e beijado o seu filho, pai do João. Já o tinha também perdoado.

Já tinha se confessado e já amava a Deus como se fosse criança de novo. E, melhor ainda, sentia o Seu amor como uma força poderosíssima, tremenda!

E corria! A chuva tinha terminado e os transeuntes que voltavam a circular paravam, assombrados com aquele espetáculo. Pois o velho Oleg corria como um tornado, o Sol brilhante fazendo sua pele ficar dourada. Acelerou ainda mais e seus pés já quase não tocavam o chão. Olhando sempre para o alto, Oleg viu a belíssima luz do Reino que o esperava. Com um pulo parou de correr e começou a voar, tão rápido como um foguete, rumo àquela belíssima visão.

As pessoas correram na praia para amparar o senhor que havia parado de correr e se ajoelhado, olhando para o céu. Mas ele já não estava lá.

Enquanto voava como um raio pelo céu, Oleg pensou ainda que poderia ter feito mais. Mas sem culpa, sem tristeza. O mundo tinha João. E sorriu ainda mais, abrindo os braços para a Luz.


colunista Eduardo Vieira para o Tribuna Diária