SÓCRATES E NÓS

É preciso que cada um de nós resgate, dentro de si, o que há de precioso, único e especial

Por ÉRIKA FIGUEIREDO 23/11/2020 - 22:39 hs

Sócrates nasceu em Atenas, e há 2500 anos, inaugurou o que hoje conhecemos por filosofia. O período abarcado por sua obra é conhecido como período socrático, e o período anterior a esta filosofia, tornou-se o período pré-socrático.

Filho de um escultor e de uma parteira,  participou de três campanhas militares e integrou o conselho legislativo de sua cidade natal. Retirou-se da carreira política por recusar-se a participar de manobras, arquitetadas pelos seus companheiros do governo.

Sua figura causava estranheza. Baixo, atarracado, olhos saltados, andava pelas ruas de Atenas descalço e com roupas rasgadas, passando horas mergulhado em profundo silêncio, ou conversando com seus discípulos. Inaugurou a era do pensamento existencialista, baseado em sua frase mais famosa: “conhece-te a ti mesmo”, a qual encontra-se inscrita e imortalizada no templo de Apolo, em Delfos.

A filosofia que precedeu o período socrático, limitava-se a estudar o Universo e seus fenômenos, tendo sido esse grande homem um divisor de águas para o estudo do ser, uma vez que focava no autoconhecimento e na realização da vocação, por cada indivíduo, para a identificação do propósito de vida e a melhor organização da sociedade.

Seguido por jovens atenienses por toda parte,  pregava mudanças na estrutura de governo e se considerava um benfeitor da Humanidade, defendendo que a política deveria ser exercida por aqueles que possuíssem maior conhecimento e elevação moral (os sábios, no sistema de castas por ele fundado).

Ensinava por meio da formulação de perguntas, e não possuía propriamente uma escola, encontrando-se com seus familiares e discípulos no ginásio do Liceu. Por ter desempenhado diversas funções ao longo da vida, discorria com facilidade sobre política e moral, virtude e vício, coragem, sabedoria e ignorância. Criticava o sistema político da época e o modo como a religião era difundida e praticada.

Sócrates não deixou nada escrito, preferia o intercâmbio pessoal de ideias. Um de seus maiores discípulos, Platão, foi o responsável por condensar seus ensinamentos em suas obras “Diálogos”, “Apologia de Sócrates” e “Fedon”, através das quais a filosofia socrática ganhou o mundo.

Os políticos de Atenas detestavam Sócrates, tinham-no como um homem perigoso, corruptor de jovens, fabricante de tiranos e idealizador de novos deuses gregos. Decidiram, então, livrar-se dele, julgando-o e sentenciando-o. Deram-lhe, entretanto, a oportunidade de se retratar publicamente e ser perdoado, caso o fizesse.

Sócrates optou pela morte, ingerindo veneno após trinta dias de prisão, negando-se a contrariar o que pensava e havia disseminado durante toda a sua vida. Seu legado atravessou os séculos, e é a base da filosofia moderna. Muito além das palavras por ele proferidas, perdura seu exemplo. Foi reconhecido, pelos deuses, como o homem mais sábio de Atenas. Ao ser cientificado deste fato, disse: “Só sei que nada sei”.

E NÓS?

Será que somos capazes de defender nossa verdade, quando contrariados? Será que diante de um julgamento moral, nos manteremos altivos e firmes em nossas convicções? Será que sob escrutínio público, reafirmaremos aquilo que nos é importante e caro?

Essas são questões que se perderam, na modernidade. Morrer por uma causa ou por alguém é algo impensável, no dias atuais. Defender a dignidade ( sua ou alheia) com o próprio sangue, ficou fora de moda e dá até cadeia. Afinal, viver para deixar um legado dá muito trabalho e não traz prazer imediato!

Ocorre que a falta desses ideais e valores está acabando com a Humanidade. A uniformização do pensamento, que faz com que as mesmas roupas, músicas e opiniões circulem pelo mundo, aniquila os valores pessoais e traz uma profunda crise de identidade para as novas gerações. Tudo que te torna único e especial precisa, hoje, ser combatido, adotando-se a cultura de manada, em que todos copiam e seguem o lançador de tendências da vez.

E o que dizer da internet, das redes sociais, e de toda a lavagem cerebral e desinteligência que se recebe por meio dessa ferramenta, tão útil e necessária, mas tão devastadora e uniformizante, também, para influenciar o pensamento e as atitudes.

A originalidade de Sócrates eternizou suas ideias e valores. Seus seguidores beberam de sua fonte, e também se perpetuaram na História como grandes pensadores. Platão, Aristóteles, Santo Agostinho e São Tomás de Aquino são belas referências da importância desse homem, ao longo do tempo.

É preciso que cada um de nós resgate, dentro de si, o que há de precioso, único e especial, para ser destinado à sociedade, bem como  para a própria evolução pessoal. Em um comportamento de rebanho, seguindo o fluxo e as redes sociais, sem grandes reflexões, perdemos o contato com o que há de mais vital no ser humano, que é a capacidade de avaliação.

Leia. Estude. Medite. Ore. Consuma cultura. A verdade liberta, porque nos faz pensar e transformar a realidade a nosso redor. Cada um de nós pode ser  vetor de transformação, e ao invés de deixarmos todas as mudanças ao encargo dos outros, devemos arregaçar as mangas e nos apoderar de nossas vidas e de nossas trajetórias .  A hora é agora! Nunca é tarde para começar!

“A verdade já está no próprio homem, mas ele não pode atingi-la, porque não só está envolto em falsas ideias, em preconceitos, como está desprovido de métodos adequados”. Sócrates 2500 A.C. 

        CUMPRA SEU DEVER! Érika Figueiredo para o Tribuna Diária