CRICIÚMA E O NOVO CANGAÇO

o fruto da impunidade, a satânica filha da bandidolatria com o garantismo.

Por SILVIO MUNHOZ 03/12/2020 - 18:56 hs
CRICIÚMA E O NOVO CANGAÇO
Seja Marginal Seja Herói, 1986 - Hélio Oiticica

“Novo cangaço ... Comunidades minúsculas e pacatas ... recebem visitas de quadrilhas de assaltantes, fortemente armadas e dispostas a matar, tudo calculado para enfrentar o deficiente contingente policial ... O Crime Organizado, os marginais literalmente ocupam as pequenas cidades em operações guerrilheiras, armados com fuzis automáticos AR-15 e AK-47, armas de guerra, usando uniformes e máscaras e fazendo moradores de reféns.” Leonardo Giardin de Souza[1].


  Chocou a nação a assalto praticado dia 01/11/2020 na pacata Criciúma, cidade catarinense[2].  Os vídeos rapidamente viralizaram mostrando a atuação da quadrilha que, com inúmeros carros luxuosos, muitos bandidos e armamento de guerra, invadiu a cidade, tomou reféns, colocando-os sentados em faixa de segurança para impedir o trânsito, conseguiu imobilizar as guarnições policiais após troca de tiros e feriu um Policial, explodiu o cofre da tesouraria regional de um banco praticando roubo milionário e, após se locupletar, fugiu rapidamente.

  Crimes assim são praticados há tempos no Brasil, no nordeste em torno do ano de 2000 foi  atribuído a práticas do gênero o apelido de “novo cangaço” ou “cangaço moderno”, no Rio Grande do Sul, onde vivo, o mais antigo que recordo ocorreu em 2016 em uma pacata cidade do Norte do Estado chamada Erval Grande.

  Cinematográfico com certeza.  Mas, vocês se perguntaram o porquê de ser chamado novo cangaço.  A resposta é simples, pois guardadas as proporções – quanto aos meios de locomoção, armamentos, etc... – o modus operandi (forma como as coisas são feitas) é exatamente igual ao do bando de Lampião e Maria Bonita, ele apelidado à época de Rei do Cangaço.

  Sim, Lampião foi um dos primeiros frutos da bandidolatria, que germina em solo pátrio desde a década de 30. Olavo de Carvalho afirma: “se existe uma história longa, continua e bem documentada é a do esforço da esquerda nacional para fomentar a violência criminosa e usá-la como instrumento de destruição sistemática da ordem pública. Na esfera cultural, essa história remonta à década de 1930, quando os escritores comunistas atenderam alegremente o apelo de Stalin para integrar o banditismo na luta ideológica[3]”.

  Possível afirmar, sem erro, aquela aura robin-hoodiana de alguém roubando para dar aos pobres, um verdadeiro justiceiro social, foi criada pelos jornais, teatro, cinema e televisão.  Na vida real era um cangaceiro e com um bando fortemente armado roubavam, faziam reféns, matavam e estupravam tudo para benefício da quadrilha.

  O vídeo abaixo contém uma excepcional palestra de Diego Pessi, sobre combate ao crime organizado, no minuto 1:27:00 o palestrante ao responder uma pergunta, comenta: “o problema todo do ódio à Polícia (com maiúscula, pois assim merecem os heróis) e da glamourização do criminoso transcende à esfera de atuação do Poder Público, é uma guerra cultural, são 30 anos de Lúcio Flávio, de Lampião ... sempre, sempre o crime mostrado de uma forma glamourosa!  Sempre, sempre, desde a manchete do jornal até o filme ou qualquer obra de ficção, o policial pintado de uma maneira terrível”. 


  Na pergunta seguinte um policial inicia a manifestação questionando se alguém no auditório sabia quem era o Tenente José Rufino, ante o silêncio sepulcral esclareceu: “o tenente da Polícia Militar que acabou com a carreira de Lampião[4]”.

  Percebam o perverso efeito da bandidolatria, consegue inverter a chave na relação mocinho-bandido: o bandido é endeusado e idolatrado, descrito para as futuras gerações como um lutador do bem que busca justiça social; já o verdadeiro mocinho é visto como vilão e destinado ao esquecimento nos desvãos da história... Pobre Brasil cujos heróis são apagados da memória do povo.

  E o garantismo onde entra[5]?  É método importado para o Brasil para ajudar na guerra cultural, cuja aplicação como dogma faz os legisladores e aplicadores da lei, seguidores da enviesada ideologia, andar de antolhos.  Cegos pelo brilho dos postulados da doutrina não olham para o lado e, portanto, não enxergam a realidade das ruas que, dia a dia os esbofeteia.  Isso resulta numa legislação leniente, aplicada frouxamente e em uma execução ainda mais tíbia.

  Exemplo recente.  Após a frustração sofrida pelo povo ao ver o pacote anticrime ser transformado em pró-bandido, o pouco de bom que sobrara era o aumento de índices para o cumprimento da pena.  Porém, nossa jurisprudência já se embrenhou na luta para acabar com esse rigorismo punitivo.  Como deixar as pobres vítimas da sociedade recolhidas tanto tempo! Falo da decisão do Superior Tribunal de Justiça[6] que decidiu não deve o praticante de crime hediondo com resultado morte e reincidente cumprir 70% ou 60% da pena como determinado nos incisos VII e VIII, do artigo 112 da Lei da Execução Penal, mas, 50% na forma do contido no inciso V, por uma interpretação analógica in bonam partem (a favor do réu).  Afinal, que importa a realidade...

    O Brasil é vítima hoje do casamento da bandidolatria com o garantismo, pois gerou frutos em solo pátrio, em realidade uma satânica filha, a IMPUNIDADE, responsável pela morte de mais de meio milhão de brasileiros na última década, sem mencionar os incontáveis roubos, estupros e, sim, é a fomentadora de crimes como o ‘Novo Cangaço”, cujas imagens chocaram o país.  Não duvidem disso, pois os criminosos sabem e, principalmente, o Crime Organizado: no Brasil vale a pena delinquir...

“Por mais que posem de honoráveis autoridades, quem ama bandido, bandido é! Como asseverado pelo gigante Percival Puggina: ‘qual a diferença entre quem prática o crime e aquele que o justifica?  Enquanto o primeiro tem a ação limitada à própria capacidade individual, o segundo funciona como uma aeronave de aviação agrícola espargindo o mal sobre a multidão dos descontentes, dos cobiçosos, dos vagabundos, dos viciados e dos incontinentes’.” Maria José Miranda Pereira.[7]

Que Deus tenha piedade de nós!..

Silvio Miranda Munhoz, cronista da Tribuna Diária, membro do MPPS e do MCI.  O conteúdo da crônica expressa, unicamente, o pensamento do autor.


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[1] SOUZA, Leonardo Giardin De e PESSI, Diego. In Bandidolatria e Democídio. SV editora, 3ª edição, 2018, pág. 180, parte do trecho é citação do artigo do Jornalista Carlos Amorim, Assalto ao poder

[2]https://ndmais.com.br/seguranca/assalto-em-criciuma-tem-caracteristicas-do-novo-cangaco/

[3] CARVALHO, Olavo. In A longa história do óbvio. Artigo publicadoem 10 de agosto de 2006 no jornal do Brasil e integrante da coletânea O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota. Ed. Record, Rio de Janeiro, 2017, 26ª Ed. Págs. 523/524…

[4]https://www.google.com.br/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=&cad=rja&uact=8&ved=2ahUKEwjZzPiWnbLtAhX9H7kGHTPNAJoQFjAAegQIBBAC&url=https%3A%2F%2Faventurasnahistoria.uol.com.br%2Fnoticias%2Freportagem%2Fde-sanfoneiro-policial-militar-ze-rufino-o-cacador-de-cangaceiros.phtml&usg=AOvVaw1IY3pwKCygSfzHw-K1lZWL

[5] https://www.tribunadiaria.com.br/ler-coluna/308/direito-versus-povo.html

[6] https://canalcienciascriminais-com-br.cdn.ampproject.org/v/s/canalcienciascriminais.com.br/stj-cria-novas-diretrizes-sobre-progressao-de-regime-do-reincidente/amp/?amp_js_v=a6&amp_gsa=1&fbclid=IwAR3WfjyxzoeLJ7zi7jhVY1RoHa3sjD77-TReed0mAc37KCcp1AZ7yPoW8GM&usqp=mq331AQFKAGwASA%3D#aoh=16061768286841&csi=1&referrer=https%3A%2F%2Fwww.google.com&amp_tf=Fonte%3A%20%251%24s&ampshare=https%3A%2F%2Fcanalcienciascriminais.com.br%2Fstj-cria-novas-diretrizes-sobre-progressao-de-regime-do-reincidente%2F

[7] https://www.tribunadiaria.com.br/noticia/1516/a-vitima.html