O Arqueiro

uma trama impactante e surpreendente.

Por Eduardo Vieira 06/12/2020 - 20:27 hs

Um pequeno pássaro pairava acima do belo parque defronte ao Palácio de Karlsruhe, o centro daquela cidadezinha em Baden-Württemberg, na Alemanha. Se a delicada ave tivesse uma inclinação filosófica, observaria que estava numa situação privilegiada, longe da grande confusão que tomava conta dos gramados do parque. Arquibancadas cobriam as laterais do jardim e muita gente circulava por todos os lados. Mas ao invés disso o animalzinho deu um tranco para a frente com as asas e abocanhou o inseto que estivera perseguindo. Ainda insatisfeito, se afastou dali em busca de um complemento para sua refeição.

Lá embaixo estava para começar o grande evento de arqueria do ano, uma grande feira de folclore e cultura que incluía várias demonstrações e competições de tiro com arco, balestras e muito mais. No meio daquele carnaval primaveril se encontrava Marcos, um brasileiro de 28 anos que tinha voltado a Karlsruhe numa viagem de férias algo melancólica, em que buscava resgatar momentos de seu intercâmbio no passado quando teve tantos episódios felizes, em duríssimo contraste com o que vinha experimentando nos últimos anos. No que havia se transformado o mundo, afinal? Toda vez que pensava nisso ele se sentia um peixe fora d'água, solitário como se vagasse por um deserto implacável.

Mas aquela visita acabou dando certo. Por uma incrível coincidência Marcos encontrou seus professores de tiro com arco, bem ali à frente do Palácio, ao lado dos parques onde passara tantos finais de semana pegando sol e lendo. Antonio e Vilma não só fizeram a maior festa como insistiram que ele os acompanhasse durante o evento. Estavam seguindo o circuito de arqueria europeu por algumas semanas e dali iriam para Mannheim no dia seguinte.

Nessa época Marcos ainda acreditava em coincidências e ainda tentava ler o mundo pelo movimento das folhas no outono. E ficou embasbacado quando foi sorteado para disparar algumas flechas em arco medieval, sem qualquer auxílio de mira. Essa brincadeira para diversão da platéia ocorreria logo após a primeira rodada da competição. Serviria também para passar o tempo enquanto as arquibancadas se enchiam de gente.

E chegou a sua vez. O apresentador chamou seu nome com seu sotaque pitoresco e acrescentou, animado: "Direkt aus Brasilien!"¹. ("Direto do Brasil)

Marcos recebeu um arco e uma aljava cheia de flechas de madeira, de quase um centímetro de espessura. A multidão já enchia as arquibancadas e a turba ruidosa de alemães e seus enormes copos de cerveja estava pronta para rir dos erros e aplaudir os acertos.

Ele então se dirigiu à linha de tiro, sentindo-se meio aéreo. Aquela situação, o inusitado do local, o ruído daquela multidão olhando para ele, tudo aquilo começou a parecer um sonho, como um filme a que ele mesmo estivesse assistindo. Começou a ouvir uma voz falando em latim: "...Creator caeli et terrae et in Iesum...".

Sem pensar, tirou uma flecha da alvaja, a colocou no arco, puxou de uma vez e disparou no alvo à sua frente, a apenas cinco metros de distância. Cravou na mosca. A platéia veio abaixo, feliz por poder aplaudir e vibrar com aquele viajante de tão longe. Mas Marcos não pareceu ter percebido. Com uma velocidade impossível, ele sacou outra flecha, colocou na corda, puxou até sua bochecha e disparou, atingindo a flecha anterior com um "clac" alto e claro. As duas flechas pareceram ter se espremido para entrar num furo só do alvo. A platéia estava silenciando quando uma terceira flecha juntou-se às demais.

Agora todos estavam hipnotizados pelo espetáculo estranhíssimo que ocorria na linha de tiro. Aquele não poderia ser um amador brincando. Marcos sacou mais uma flecha mas desta vez apontou para outro alvo, a dez metros e à esquerda. Alguém ainda recitava algo em latim: "Credo in Spiritum Sanctus, sanctam Ecclesiam catholicam". Marcos reconheceu esse trecho. Alguém declamava o Credo católico. 

Ninguém observou o senhor barbudo que parecia estar coçando a barriga na platéia, alheio ao que ocorria na arquibancada. Nem estranhou que ele usasse um casaco naquele belo dia de primavera.

Marcos então puxou a flecha e viu acima do alvo distante uma cruz. Hesitou ali um instante, até que a voz que falava em latim disse bem alto: "In Hoc Signo Vinces". Soube que devia mirar na base da cruz. Soltou a flecha e buscou outra na aljava. Alguém seguia falando em latim, já agora bem alto: "Pater noster, qui es in cælis..."

Naquele nebuloso sonho, o arqueiro não pôde perceber que o fiscal de linha se agachava atrás dele e apontava seu celular para seus pés. Igualmente não percebeu que seus pés já não tocavam o solo, pois ele flutuava a dois centímetros do chão.

A quarta flecha voou e antes de acertar o alvo o arqueiro já tinha pronta outra e a apontava para um alvo a mais de cinquenta metros. O impacto da flecha anterior cravando na mosca foi ouvido ao mesmo tempo em que o vibrar da corda indicava o disparo de outra flecha. Essa demorou em vôo, fazendo um arco impossível no ar. Todos os olhos acompanhavam sua trajetória antecipando o inacreditável.

Enquanto isso o arqueiro se virava ligeiro para a direita e encarava outra cruz bem no meio da arquibancada. Precisaria lançar a flecha contra a platéia? Hesitou ali, comprimindo aquela fração de segundo num tempo impossivelmente maior.

Por que haveria de disparar uma flecha na multidão? O que estava acontecendo? E o que significava aquela cruz indicando o local de mira? Pensou naquele velho mantra de "dar a outra face" e de como questionava aquela sugestão absurda de submissão e pacifismo. Buscou dentro de si a resposta e o que percebeu foi uma paz completa, uma tranquilidade total e uma certeza segura.

Desta vez, ao ouvir a voz declamando alto em latim, percebeu com surpresa que era da sua própria boca que saíam aquelas orações. "... Sed líbera nos a malo... Amen"

No amém soltou a flecha, percebendo com clareza que aquilo tudo não ocorria nem por acaso nem por malícia. Sentia a correção e a forma perfeita como aquilo tudo se encaixava.

Na arquibancada uma jovem olhou para o lado, atraída pelo movimento do homem barbudo se abaixando. Enquanto todos olhavam a flecha terminando seu vôo até o alvo de cinquenta metros, ela olhava aturdida o mecanismo que o homem barbudo ajustava à sua mão, bem ao seu lado. O detonador estava quase pronto, só faltava soltar a trava e ele apertaria o botão que, uma vez solto, causaria a detonação da bomba que trazia amarrada ao seu corpo. O homem se endireitou, movendo sua mão direita na direção do mecanismo para soltar a trava. A moça ouviu uma forte pancada ao seu lado e as mãos do homem abaixaram, sem vida. Ela subiu o olhar e viu uma flecha cravada na têmpora esquerda do barbudo. Sua cabeça pendia para a frente enquanto um grosso fio de sangue começava a escorrer do ferimento. Ela deu um berro ao mesmo tempo em que toda aquela multidão irrompia num grande grito de júbilo, pois a flecha anterior havia acertado o distante alvo bem na mosca, no mesmo instante. 

Ninguém viu o arqueiro disparando a flecha na platéia. Ou melhor, quase ninguém. Marcos foi seguro pelos ombros e puxado com força para o lado. Era Antonio, que disse:

- "Temos que sair logo daqui enquanto ninguém percebeu o que aconteceu".

Marcos deixou-se levar dali rapidamente pelo seu antigo professor. Atrás dele um grito diferente dos apupos da platéia soava cada vez mais estridente. 

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Longe dali, diante de uma televisão, um jovem robusto chamado Jürgen perguntava:

- "Michelle, o que você diz disso?"

- "Bem, sem dúvida alguma temos um arqueiro." - respondeu a jovem Michelle.

- "Caraca, um arqueiro vai ser muito legal!" - emendou entusiasmado um garoto de óculos chamado Jean.

- "Mas definitivamente não é só um arqueiro. Esse daí é algo mais. E vai precisar de nós o quanto antes. Vamos para Karlsruhe agora mesmo." - disse Michelle, se levantando. "Convoquem todos, já!", concluiu.

FIM

colunista Eduardo Vieira para o Tribuna Diária


Este trecho é o início de uma história maior que estou desenvolvendo e queria dividir com vocês. Será direcionada ao público infanto-juvenil e adulto e conterá elementos de transcendência cristã e uma trama impactante e surpreendente que vai sendo revelada à medida que o leitor avança na história.



(1) - Direto do Brasil.