O LEÃO E O PEQUENO VEADO

Uma crônica bem atual para quem vive pela lei da selva...

Por Eduardo Vieira 10/01/2021 - 15:12 hs

Era uma vez um grande país, com grandes matas e grande riqueza. Lá, nas savanas, morava um garboso leão, de vasta juba e coragem leonina. Mas além de corajoso o nobre animal gostava muito de ler bons livros de aventuras e desafios. Quando filhote lia quadrinhos de Tintin e Asterix assim como as maravilhas de Carl Barks para a família Pato. Depois embrenhou-se pelos clássicos de Júlio Verne, Robert Louis Stevenson, Mark Twain e Monteiro Lobato. Sua imaginação foi se sofisticando a tal ponto que vencia a maioria dos desafios com alguma facilidade e poucos ferimentos. Acabou ficando muito amigos das corujas, famosas por sua sapiência e lhe agradava muito quando podia visitá-las.

Um certo dia o Leão foi à livraria procurar uma obra para a Leoa. Essa livraria ficava no fétido pântano de Le Bong, onde hienas e veadinhos proclamavam trégua para se encher de fumaça e gastar seus dias em alucinações toscas e frustrantes. Nessa época havia um vírus à solta no pântano e todos tinham que usar uma ridícula máscara. Os veadinhos disputavam para ver quem tinha a máscara mais bacana. O Leão achava aquilo um triste espetáculo e passava por eles entristecido pela degradação que exalavam, forte como o cheiro de podridão.

Ao entrar na livraria, muito a contragosto, o Leão vestiu mal e mal uma máscara mequetrefe que preparou para não ser impedido de acessar seus livros. Devorar os livreiros não era uma opção, pois ficaria sem livros logo depois. Portanto concedia aquele ponto, resmungando. Mas deixava as narinas de fora para poder respirar.

Eis que estava na frente da estante de literatura, tentanto se decidir por algum livro, quando surge um veadinho mais velho e se põe a perscrutar aquele tesouro. Esse veadinho merecia o diminutivo por sua baixa qualidade, não por sua idade. Tinha toda pinta de ser um inútil mimado incapaz de amarrar os sapatos, se usasse algum. 

O Leão lembrou-se de quando salvou uma família de veados de um ataque de hienas. O grande Gamo olhou para ele, orgulhoso, sangue de hiena pingando de seus portentosos chifres. Indiferente aos arranhões que tinha sofrido, tinha se colocado em postura de combate novamente, incerto sobre as intenções do gigantesco felino. Todavia o Leão não estava atrás de almoço mas sim de justiça. Acenou gravemente para o elegante cervídeo que, agradecido, reclinou sua galhada em sinal de respeito e pôs a família para andar. Seguramente esse veadinho patético não saiu daquele grande animal.

Após fazer essa observação algo triste, o Leão observou outro detalhe. Aparentemente o veadinho se movia conforme os seus movimentos. Vez por outra o patético herbívoro olhava para trás de relance, furtivamente, deixando entrever uma crítica à forma de vestir a máscara do Leão, ou ao próprio. O Leão deu um passo para o lado, na direção do veadinho e viu, divertido, que este deu uns passinhos apressados para longe. Depois fez o oposto e mais passinhos delicados de volta. Riu-se do ridículo da situação e voltou a considerar suas opções. Dostoievsky ou Jane Austen? Achava que naquela época natalina a Leoa estaria mais disposta a uma bela história feminina que um grande drama da natureza humana.

Enquanto divagava foi interrompido pela gralha, uma das livreiras, que veio comunicá-lo que houve uma reclamação sobre seu nariz estar fora da máscara. Desperto de seu devaneio, o felino olhou ao redor e viu que o veadinho não estava mais lá. Tratava-se de um veadinho delator, defeito dos mais detestáveis para o feroz felino. Colocou o nariz para dentro da máscara, não sem antes dar uma bufada para a gralha, que lhe despenteou as penas.

Decidiu-se então pela Madame Austen e sua refinada percepção do universo feminino e foi para o caixa pagar. Após pegar seu presente finamente embrulhado, saiu da livraria. Do lado de fora havia algumas mesas de café e numa delas estava o veadinho delator, seu olhar esquivo tremelicante frente à pujança do Leão. 

Como era Natal o grande felino resolveu relevar. O veadinho já é suficientemente patético, um castigo para si mesmo, pensou o nobre Rei. Desceu dois degraus da larga escada de saída e lembrou-se de que foi esse tipinho destestável que literalmente causou o holocausto judeu, quando morreram milhões de pessoas depois de delatadas por vermes como esse veadinho. 

Olhou então para trás e viu o cervículo se esforçando para parecer natural, bebericando seu café expresso. Deu então um potente rugido que fez com que o delator, com um gritinho ridículo digno de uma galinha depenada, deixasse cair o café quente em suas partes desfuncionais. Seguiu-se outro grito ainda mais agudo, capaz de envergonhar a Cindy Lauper em seus melhores momentos.

O Leão, satisfeito por alguma justiça, tirou sua máscara, jogou-a fora e seguiu, assoviando, para presentear sua Leoa e celebrar o nascimento do menino Jesus, salvador da Humanidade. A vida podia ser dura, pensava ele enquanto caminhava, mas tinha seus belos momentos.



colunista Eduardo Vieira para o Tribuna Diária