O QUE QUE EU VOU FAZER COM ESSA TAL LIBERDADE?

Os otários de sempre, mesmo se achando contra nós, farão o serviço todo acreditando nisso e ainda defendendo a censura alegremente...

Por ADRIANO MARREIROS 11/01/2021 - 18:47 hs


“Fascistas”, “Milícias Digitais”,

“Discurso de ódio”não!

Autor não Identifi-

cado (melhor assim...)

 

(adaptação da crônica Projeto I de Millôr Fernandes, do livro “Que país é este?”.

 

O que que eu vou fazer com essa tal LIBERDADE?  Como no pagode dos anos 90, as eminências pardas, por vezes nem tão pardas mas fosforescentes, fizeram essa pergunta após o resultado inesperado de uma eleição na Terra Média. E decidiram exterminar a LIBERDADE de vez, para que nunca mais pudessem ousar contrariar a torcida dos arautos da mentira, dos falsos numerólogos e dos pretensos iluminados.

Se houve uma reunião para isso, deve ter sido como o XX Congresso Internacional de Sataniqüidades que o velho Guru do Méier, o saudoso Millôr, narrou em “Que país é este”.

Primeiro precisamos inventar algo para deslegitimar essa burra escolha popular, algo contramajoritário, que deixe a Sociedade aberta somente à nossa voz– falou o Diabo, com sotaque magyar[1], declarando aberto o evento. 

Um espírito imundo logo sugeriu que podiam falar que boatos (hoax, em inglês) a fraudaram.  Mas um ente malfazejo logo acrescentou: não! Precisamos de uma expressão nova, que pegue logo, para fazer os modinhas ficarem repetindo.  Foi então que um anjo das trevas teve uma idéia que o fez sentar à esquerda do senhor das trevas (sim, ele sempre valorizou a esquerda: ai de quem estiver à direita...): por que não culpamos as “fake News”?  Um demonete quase queimou de emoção satânica e, envolto em uma nuvem de enxofre, lembrou: temos Zamiel, Arumã, Asmodeu cujas notícias, valorizada$$$ em todo o mundo podem se tornar verdade oficial; e ainda temos mais os tanecos, íncubos, súcubos, menores, mas que sempre seguirão as tendências satânicas.

Não só eles – berrou diabolicamente um bruxo: temos todos aqueles anjos beiçudos que por quaisquer 30 dinheiros fariam de tudo para atrapalhar governos que teimassem em defender a Liberdade. 

Não fala essa palavra desrespeitosa aqui – gritou guturalmente o Diabo!

30 dinheiros é coisa que saiu de moda, ninguém quer ficar com uma corda no pescoço, hoje eles preferem um ái-fone... disse uma alma sebosa.

Eis que surpreendentemente, surge um cramulhãzinho estagiário e mostra que tem uma grande e tenebroso futuro pela frente: temos que atribuir todo esse ódio que sentimos a eles, acusando-os do que fazemos e xingando-os do que somos, como os velhos mestres ensinam... Vamos dizer que essa ralé conservadora e que defende liberdades pratica discurso de ódio, que são fascistas, intolerantes, milícias!  Os otários de sempre, mesmo se achando contra nós, farão o serviço todo acreditando nisso... e ainda defendendo a censura alegrememte...

Continue assim e você será efetivado, cramulhãozinho!  Que idéia magnífica! Após isso só precisamos detalhar melhor como fazer, disse o Diabo que, ante os olhares submissos das falanges infernais presentes,  acrescentou com sorriso maligno: fiquei muito satisfeito com o resultado desta primeira reunião.  Se planejarmos direitinho, ou melhor, esquerdinho, nos painéis de hoje e amanhã, daqui a quatro anos eu prevejo que jamais perderemos o controle novamente e garantiremos meu reino, que é deste mundo, secular, laicista!

Nos tais painéis do congresso, acatando a sugestão de uma alma penada que acabou promovida ao inferno, decidiram cobrar os contratos de umas almas de certos bilionáriosque as haviam vendido em troca de sucesso e dinheiro –  exigindo que cumpram sua parte e acabem de vez com a liberdade nas redes sociais, garantindo a palavra apenas aos que possuírem a marca da besta, ou aos que são tão bestas que nem percebem a censura e o autoritarismo, acreditando que é “para o bem maior”...

E então, encerrando o bem sucedido congresso, todos os seres das trevas se levantaram, cheiraram uma carreirinha de enxofre e amoníaco e, juntos, subiram à superfície, vestindo agora roupas brancas fizeram uma passeata pela paz, pela harmonia, exibindo sorrisos simpáticos e, dando um abraço gigante em uma imensa lagoa: soltaram pombas brancas  e cantaram Imagine, o hino de seu mundo ideal...

No hell below us

John Lennon.

(não mais below,

 mas na superfície,

around toda a Terra Média)

 

P.S. As denominações das espécies e nomes de demônios usados foram, quase todas – exceto cramulhãozinho e alma penada – copiadas da crônica Projeto I de Millôr Fernandes, tão rica em demonologia e parafraseada neste texto obviamente ficcional.

 


*Crux Sacra Sit Mihi Lux / Non Draco Sit Mihi Dux 
Vade Retro Satana / Nunquam Suade Mihi Vana 
Sunt Mala Quae Libas / Ipse Venena Bibas

(Oração de São Bento cuja proteção eu suplico)

 

A Sociedade do Aplauso Mútuo e a idade dos porquês... Adriano Alves-Marreiros

Cronista, pessimista, Mestre em Direito, membro do MCI e MP Pró-Sociedade e autor da obra Hierarquia e Disciplina são Garantias Constitucionais, da Editora E.D.A.

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[1] Língua húngara: a única que o Diabo respeita segundo Chico Buarque.