PLATÃO E A POLÍTICA

Aos que perderam sua honra no intrincado jogo da política, nada. Aos sábios e éticos, tudo.

Por ÉRIKA FIGUEIREDO 11/01/2021 - 22:06 hs

 

            Na noite da última sexta feira, assisti ao filme Os Últimos Cavaleiros, na Netflix. O título nos remete à honra, à coragem e aos valores que existiam na sociedade medieval, os quais, lamentavelmente, estão em extinção nos dias de hoje.

            A ação se desenrola em um reino fictício, no qual um ministro corrupto institui a troca de favores, para que se possa viver e trabalhar em paz, naquelas paragens. Os senhores feudais que não aceitassem pagar-lhe suborno e dever-lhe honrarias, eram perseguidos, expulsos de seus feudos e mortos, juntamente com sua família, cuja dinastia era, então, riscada do mapa..

            Em determinada ocasião, um desses nobres resolve se rebelar e livrar do jugo de tal ministro, recusando-se a participar desse círculo vicioso de corrupção, que é conhecido e tolerado pelo rei. O ator que desempenha o papel desse senhor feudal é Morgan Freeman (virou modinha atores negros representando nobres, em filmes e séries exibidos pela Netflix. É a ditadura do “politicamente correto”), que profere a seguinte frase:

            “Quando um homem desses exige um suborno em público, sem medo de sofrer recurso, estamos perto de tempos perigosos”. E a trama avança, com uma série de tragédias, lutas e mortes  decorrentes dessa negativa.

Tudo isso me lembrou Platão e seus ensinamentos. Discípulo de Sócrates e um de seus maiores disseminadores, Platão escreveu A República, as Leis e tantos outros tratados, nos quais dissertou sobre a justiça, bem como sobre o Estado, a  política e  seus males.

De forma absolutamente pertinente e atual, ele afirmava que de nada adiantaria modificar as instituições, sem que antes modificassem-se os homens que exerceriam os cargos. E por que ele dizia isso?

Bem, a política, tal qual a filosofia nos ensina, deveria ser a arte de prover o bem estar de toda a coletividade, de doar-se em prol dos outros, de buscar o justo ( dar a cada um o que é seu por direito). Entretanto, o que se via na Grécia Antiga, bem como o que vemos hoje, em todo o mundo, afasta-se completamente desses ensinamentos.

            Política é um termo derivado de POLIS, que nada mais é do que a comunidade, o ajuntamento de pessoas em um local, onde residem, trabalham e de onde retiram seu sustento. As cidades atenienses eram assim denominadas, e política era a arte de administrar, em benefício de todos, o espaço comum da Pólis.

            Para Sócrates, conforme citado por Platão, apenas os homens sábios deveriam exercer cargos públicos nas Pólis, a fim de que fossem pessoas capazes de compreender o que se afiguraria melhor para a sociedade, agindo de acordo com o que seria bom e justo, correto, ético  e adequado.

            Infelizmente, os recentes acontecimentos no mundo, as disputas desleais e todas as barbaridades que se desenrolam todos os dias, na vida pública, sob os nossos olhos, me permitem dizer, sem medo de errar, que fazer política, hoje, é lidar com tudo que Sócrates abominava no ser humano: a cobiça, a vaidade, a falta de escrúpulos, a sede de poder, a ganância, a desonestidade.

            Existem políticos honestos, sem sombra de dúvidas. Mas a grande maioria desses indivíduos que ingressam na carreira pública, exercendo cargos para os quais foram eleitos pelo povo, não possui um caráter ilibado, uma superioridade intelectual, tampouco a noção do que é justo e certo.  

            O comandante da legião responsável por defender o feudo de Morgan Freeman, representado por Clive Owen, a certa altura do filme, diz para seu senhor, criticando a omissão daquele por tanto tempo: “Se é a injustiça da corrupção que o aborrece, talvez devesse ter-se compelido a agir, antes que ela chegasse até aqui”.

            A atitude omissa do senhor feudal, que por décadas aceitou a corrupção e desta participou, permitiu que a situação  chegasse a um ponto insustentável.

            Os ensinamentos de Platão foram compilados por Trasilo de Alexandria, teólogo e filósofo, do Século I D.C, responsável pela preservação e divulgação de toda a obra de Platão, que, além de haver sido discípulo de Sócrates e professor de Aristóteles, foi um grande e lúcido escritor, tendo resgatado, por meio de seus textos,, os ensinamentos de Sócrates, que nada escreveu.

            Se o conjunto de obras de Platão, salvas da extinção por esse teólogo, foi capaz de manter-se  atual, 24 séculos depois, isso nos mostra que o que o filósofo pregava faz todo o sentido, e que é preciso resgatar a civilização, por meio desses ensinamentos, os quais precisamos conhecer e internalizar.

          Não podemos aceitar tudo que escutamos, ou agir conforme a maioria, por medo de desagradar. Temos nas mãos o fruto da democracia, o voto direto, e devemos escolher homens honrados para o exercício da função pública .

            Em um momento crucial do filme, o comandante diz a seus soldados: “Vamos honrar a memória do nosso Mestre, a voz do nosso povo e o espírito da nossa nação”. E complementa: “Todos os homens nascem com honra. Ela não pode ser tomada. Não pode ser concedida. E não deve ser perdida”. Aos que perderam sua honra no intrincado jogo da política, nada. Aos sábios e éticos,, tudo.

         CUMPRA SEU DEVER!  Erika Figueiredo para o Tribuna Diária