PESSIMISTAS

sobre o despotismo da liberdade

Por ÉRIKA FIGUEIREDO 18/01/2021 - 21:41 hs

Sir Roger Scruton, filósofo britânico falecido em 12 de janeiro de 2020, não viveu para testemunhar o manicômio em que o mundo se transformou (à exceção da China, curiosamente), por conta da atual pandemia de covid-19.

            Digo isso porque, em seu livro “As Vantagens do Pessimismo”, o autor trata justamente do que está se passando bem à frente dos nossos olhos. Logo no prefácio, nesse livro escrito em 1985, mas atualíssimo, ele diz o seguinte:

            “Não tenho dúvida de que São Paulo estava certo ao recomendar a fé, a esperança e o amor (ágape) como as virtudes que ordenam a vida para o bem maior. Entretanto, também não tenho dúvida de que a esperança, separada da fé e não temperada pela evidência da história, é um ativo perigoso, que ameaça não só aqueles que a abraçam, mas todos aqueles que estão ao alcance de suas ilusões”.

            Endosso completamente as palavras de Sir Roger. Vejo o mundo caminhar em direção ao abismo, e as pessoas rindo e não acreditando, chamando aqueles que as alertam de sensacionalistas, negacionistas, fascistas, como se o amanhã não fosse, absoluta e irremediavelmente, impactar suas vidas.

            Percebo que a História da Humanidade, mesmo alternando períodos de calmaria e guerra, ordem e caos, não serviu de exemplo para os homens, que ao contrário dos animais, em sua maioria não farejam o perigo.

            Situações muito alarmantes de perda de liberdades, perseguições políticas, excessos jurídicos, avanço do comunismo, concentração de poder, vêm se desenrolando mundo afora, sem que as pessoas parem para refletir sobre o que está acontecendo.

            A série da Amazon Prime, uma distopia chamada The Man in The High Castle, baseada em um livro homônimo de Philip K Dick, como bem lembrado e recomendado pela queridíssima Cláudia Piovezan, trata disso: a trama se passa nos Estados Unidos, devastados pela Segunda Guerra Mundial, que foi vencida por Alemanha e Japão. O país foi dividido entre essas duas potências, os cidadãos vivem sem liberdade e eternamente atemorizados por seu novo comando, que a todos vigia e pune com mãos de ferro.


            Coincidência? Em tempos tão sombrios a nível mundial, é super plausível. A China avança sobre os países subdesenvolvidos, oferecendo-lhes dinheiro em troca de subserviência. Seu líder, o ditador Xi Jinping, já anunciou que dominará o mundo, muito em breve. Lembremo-nos das palavras repetidas pelo prof Olavo de Carvalho: não há nada que esteja no mundo, que já não tenha sido abordado na literatura.

Por onde passa, o presidente chinês deixa seu carimbo: confisca liberdades, autonomia e independência. Mas e os cidadãos? Estes vivem para servir ao Estado, que com a mesma mão que dá, tira sem nenhum escrúpulo, e castiga com severidade (vide os recém descobertos campos de reeducação, criados para acautelarem chineses e sul coreanos, que se insurjam contra o regime chinês). Essa é, afinal, a cartilha do comunismo, que avança a passos largos pelo mundo.

E as nações democráticas e seus governantes, que já viveram sob o terror do nazismo, do fascismo e do comunismo na primeira metade do século XX, e viram o que esses sistemas de governo podem gerar, e os massacres que destes podem decorrer, estão tomando quais providências?

Ah, bem... várias nações endividadas estão aceitando ajuda financeira do governo chinês, a vacina contra covid-19, vendida para boa parte do mundo tomar, é chinesa, o futuro presidente americano é a favor do estreitamento das relações comerciais e diplomáticas entre EUA e China, a maior parte das grandes empresas do mundo tem participação chinesa...

E assim essa superpotência avança, sem obstáculos, rumo a sua meta, e livre de maiores embaraços. Ronald Reagan dizia que a liberdade não é algo genético, que se transmita pelo sangue. É preciso protege-la, defende-la, lutar por ela, ou ela será perdida, entre uma geração e outra.

Isso está acontecendo. A civilização perdeu uma grande oportunidade de aprender a lição, após as duas grandes guerras do século XX. Não foi ensinado, às gerações posteriores, o que é o comunismo, e quais são suas dramáticas consequências para o mundo. Ao contrário, os artistas, a mídia e os acadêmicos flertaram perigosamente com a doutrina marxista, disseminando-a livremente por aí.

Como o livro de Sir Roger alerta, desde os anos oitenta do século passado, ao falar de Rousseau e de sua utópica idéia de liberdade e harmonia universais: “E seus seguidores acreditavam que essa liberdade, uma vez obtida, se expressaria na felicidade e na irmandade da humanidade, e não na ‘guerra de “todos contra todos’ que Hobbes tinha descrito como o verdadeiro ‘estado de natureza’’’. E prossegue:

“(...). Pouco tempo depois, Robespierre estabeleceria aquilo que chamou de ‘o despotismo da liberdade’, cortando qualquer cabeça que tivesse algum problema com isso. A contagem final dos mortos, de acordo com o historiador francês René Sédillot, foi de dois milhões, com a Europa nesse ínterim mergulhada em guerras continentais que destruiriam as esperanças das pessoas mais racionais” (As Vantagens do Pessimismo, páginas 43/44).

A civilização se esqueceu dos ensinamentos mais básicos sobre tempos de paz – o de que a estes, sempre se seguem tempos de guerra. Isso é cíclico. É bíblico. É histórico. O otimismo humano jamais deveria suplantar a capacidade de enxergar a realidade.

Estamos dançando, perigosamente, à beira do precipício. Quando o pior acontecer, não vai adiantar soltar pombas brancas e cantar Imagine, de John Lennon. Muitas das vezes, um pouco de pessimismo é o remédio amargo que precisamos tomar. Este, sim,  nos manterá com os dois pés firmes no chão.

“Por vezes as pessoas não querem ouvir a verdade, porque não desejam que as suas ilusões sejam destruídas “.Friedrich Nietzsche


            CUMPRA SEU DEVER!       Érika Figueiredo