UGRUK

Traído! - pensou - Ninguém compreendia sua superioridade. Invejosos!

Por Eduardo Vieira 07/02/2021 - 11:03 hs

Ugruk abriu os olhos e percebeu, animado, que estava num daqueles raros momentos onde tinha total controle sobre as coisas. Ergueu-se e contemplou uma tempestade pela janela. Ali o tempo oscilava de acordo com o seu humor, sempre tempestuoso, nublado, sombrio.

Ele não se chamava por Ugruk, nem tinha noção de um nome. Sua aparência igualmente era-lhe ignorada. Sua carranca disforme e sua pele purulenta não eram refletidos em nenhuma superfície. Seu foco era inteiro em si mas em seu âmago de ressentimento, ódio e crueldade.

Era-lhe sabido que esses períodos eram curtos e podiam terminar abruptamente então correu para o cômodo adjacente. Este era decorado com pedras escuras como o anterior, dando a impressão de uma masmorra úmida e ameaçadora. Um quadro na parede retratava uma pessoa deformada com pernas enormes e a cabeça apoiada nos joelhos, com um nariz desproporcional. A feiúra era proporcional à desproporcionalidade. Em outra parede um quadro sem cores mostrava criaturas desmontadas. O que poderia ser um homem se tivessem destruido-lhe o rosto e o remontado com desenhos num papelão, jogados a esmo numa folha de papel. Ao lado o que poderia ser uma vaca ou algum animal parecido, igualmente deformado. Ugruk não decorava aquelas paredes conscientemente, a associação de memória surgia e ele colocava ali o que o havia impressionado. Ele gostava do feio e do grotesco.

O monstro se aproximou da parede principal, aquela que tinha os grilhões. Quem estava lá para a diversão de Ugruk variava muito e mesmo de um momento para o outro, naquela efêmera dimensão. Por vezes eram desafetos de trabalho, por vezes eram familiares e amigos que invejava. Muitas vezes eram freiras, que detestava grandemente. Uma mulher, que poderia se entregar à mais maravilhosa lascívia e entretanto se fechava numa vida dedicada a rezar? Ora, que distorção mais detestável para a mente de Ugruk. Para ele era claro que todos as vontades deveriam ser satisfeitas. Não fosse para ser assim, por que diabos ele teria vontades?

Fez aparecer em sua mão uma longa e afiada lâmina. Dessa vez iria ver o sangue jorrar. Ali suas vítimas sofriam mas não morriam e ele podia fazer repetir a diversão quantas vezes quisesse. Mas isso não satisfazia Ugruk. Ele sabia disso, no fundo do seu escuro ser, e isso o tornava ainda mais irascível e cruel. Por alguma razão sempre se imiscuía em seus devaneios uma admoestação longínqua, uma reprimenda de outra esfera, um filete tênue de névoa branca que teimava em surgir, fosse da parede ou do chão, trazendo uma indesejada luz e a mais indesejada ainda noção de censura e de culpa.

Culpa?! Isso o tirava do sério. Detestava a moralidade acima de todos os muitos objetos de seu ódio. Era por causa dessas pessoas fracas, submissas a uma falsa moral, que ele se sentia assim, que esse filete de culpa surgia para distraí-lo em sua diversão. Ele ainda faria que todos fossem como ele, assim ele poderia atender aos seus desejos mais perversos em paz, sem nenhuma luzinha transmitindo uma crítica ridícula e hipócrita. Todos os homens tinham essa vontade cruel mas poucos tinham a coragem que ele tinha de realizar todas as maravilhas que pensava.

Mas o que era aquilo? Da janela começava a aparecer uma luz maior. As negras paredes de pedra começavam a se tornar diáfanas. Tudo se dissolvia em névoa. Não, ele pensou! Estava acabando, estava sendo mais uma vez vencido pela mediocridade da vida material. Maldição, rosnou uma última vez, sem conseguir contemplar o medo no rosto de sua vítima.

Abriu seus olhos fitando um teto branco e claríssimo. Suas lembranças da doce masmorra ainda eram claras mas ele sabia que, como num sonho, em breve não se lembraria mais de nada. Sentou-se na cama, furioso, movendo com dificuldade seu corpanzil maltratado e obsesso. Olhou para suas mãos gordas e brancas e para seus braços flácidos com uma breve fúria contra si mesmo, que automaticamente dirigiu ao mundo lá fora. Odiava o Sol, odiava o vento, odiava  o mundo que o limitava e o impedia de atender à sua natureza. Odiava os que lutavam contra suas vontades, o que tinham lhe retirado tanto poder. Foi traído e diminuído.

Levantou-se, vestiu-se e sentiu-se domado pelos rituais patéticos do mundo. Não se lembrava mais de ter sido Ugruk nem de seu passeio naquela outra dimensão. Na verdade nunca soube ser Ugruk. Saiu do quarto para a sala, onde sua esposa estava tomando café. Uma imagem de facas e sangue lhe passou pelos olhos uma fração de segundo e ele, distraído ainda, permitiu que a crueldade aparecesse em seu rosto. Mas imediatamente colocou a máscara de tédio e aborrecimento a que estava acostumado. Foi mais uma vez vencido pela moral. Contido! Atado! Como odiava os moralistas, que ódio!

Sua mulher lhe disse: "Bom dia, Rodrigo."

Dando um grunhido, tomou seu café em silêncio. Tinha que encarar centenas de colegas agora sem meios para agir como gostaria. Atado no trabalho também. Sempre preso e amarrado. Dispensou a filha que vinha mostrar um desenho com um tapinha ausente na cabeça e saiu.

Traído! - pensou. Tinha sido traído e tirado de um poder que merecia, que era seu. Ninguém compreendia sua superioridade. Invejosos! Mas iria mostrar para eles. Acelerou o carro, odiando o Sol, odiando as árvores, odiando os grilhões que o amarravam. Oculto nas profundezas de seu ser, paralisado nessa dimensão onde nada podia, Ugruk sorria e rosnava, cruel, esperando impaciente a sua vez.


colunista EDUARDO VIEIRA para o Tribuna Diária