DESARMAMENTO MORAL E A DEMONIZAÇAO DA POLÍCIA.

Levada a cabo pela intelligentsia dos países ocidentais após a Primeira Guerra é posta em prática no Brasil e promete ser tão devastadora quanto...

Por SILVIO MUNHOZ 11/02/2021 - 14:48 hs

“Os horrores e as devastações sem precedentes da Primeira Guerra Mundial reorientaram quase toda a comunidade intelectual do mundo ocidental a qual se orientou na direção contrária, em direção ao pacifismo militante.” Thomas Sowell[1].

 Prática levada a cabo pela intelligentsia dos países ocidentais após a Primeira Guerra atingiu principalmente a França, que perdera muitos soldados no seu curso, a ponto de os nascimentos na década de 30 não serem suficientes para repor as perdas.  A campanha foi massiva, ferrenha e começava pelas escolas, com alterações dos livros didáticos visando fazer desaparecer o sentimento de heroísmo e de amor à Pátria.  Os Intelectuais ungidos, como costuma acontecer, colocavam a pecha de ignorantes em quem pensava diferente, ao invés de rebaterem os argumentos e, pior, não resolvidas as questões reais, pacifismo só funcionaria se combinado com os inimigos.

 Embora mais profunda na França, a onda atingiu, igualmente, Estados Unidos e Reino Unido, que, por conta das pressões populares gestadas pela intelligentsia, tiveram dificuldade para o rearmamento, necessário, e a modernização dos armamentos, navios, aeronaves etc..  Tal prática se repetiria, posteriormente, no período da Guerra Fria, e assim por diante.  Nunca se preocuparam com o fato de os dois desarmamentos – físico e moral – deixarem seus países à mercê dos inimigos que, atentos, visualizavam os acontecimentos e viam suas chances aumentaram na ocorrência de futuro confronto.

 O grande inimigo percebeu principalmente o desarmamento moral e disso se aproveitou.  A França, que na Primeira Guerra resistira por 04 anos e repelira os invasores com batalhas épicas como Marne e Verdum, na Segunda Guerra, em face dessa débâcle moral, rendeu-se após apenas 06 semanas de batalha. Os Estados Unidos e Grã-Bretanha estiveram muito próximos de sofrer uma derrota em virtude do deficiente rearmamento, como diz o velho ditado: “tiveram mais sorte que juízo”. Imaginem, por um segundo, o que seria a humanidade, caso o resultado da Segunda Guerra fosse diferente...

  O leitor deve estar pensando, eu sei, o tema está bem interessante, mas o que isso tem a ver com a demonização da polícia?  Vamos lá, então, destrinchar esse mistério...


  Idêntico método é utilizado para demonizar a polícia. A intelligentsia e seus Intelectuais Ungidos criam teses acadêmicas sem conhecimento ou consideração à realidade das ruas e os ‘especialistas’ as disseminam ad nauseum. Enquanto não conseguem atingir o sonho dourado, bem conhecido de desarmar fisicamente, vão desarmando moralmente nossos policiais. Na velha imprensa, diuturnamente, o método é aplicado: o policial sempre é o responsável pela bala perdida, não pode atirar antes sem se anunciar e só deve responder a fogo – e se for atingido, como irá reagir? Essas e tantas outras sandices são repetidas dia a dia. Como dizia Orwell: “algumas ideias são tão estúpidas que apenas um intelectual poderia acreditar nelas, já que o homem comum nunca se faz tão tolo”.

  A prática vai além do que imaginamos, pois ocorre dentro do Judiciário, do Ministério Público e da própria Polícia. Não massivamente, é lógico, mas vão ganhando espaço milímetro a milímetro. Ano passado ocorreu uma polêmica decisão na 3ª Câmara Criminal[2] do TJ/RS, quando os julgadores disseram, com outras palavras, em síntese: “bandido que dispara contra a polícia durante perseguição não tem animus necandi” (expressão latina que significa ‘não tem vontade de matar’) e, com isso, desclassificaram o fato, retirando-o da competência do júri. Pior, pasmem, o Procurador de Justiça não recorreu da decisão.  O marginal foi julgado só por porte de armas...

 Ah, mas é só um caso. Ledo engano, há poucos dias emiti parecer em Embargos Infringentes. Na oportunidade um Juiz convocado para atuar na 1ª CC do TJ/RS (hoje convocado para atuar no STJ) adotou a mesma tese, disse que não havia prova – embora fosse abundante, leiam, o processo é público[3]- de que o bandido disparara contra os policiais e que se o fizera: “o objetivo, pelo que se percebe [...], seria com intenção de garantir sua fuga, evitar sua prisão, tentar evitar que os policiais fossem atrás dele, sem mira, sem intenção homicida”. Lutarei com todas minhas forças para que tal tese absurda não prevaleça. Percebem, criam a tese, depois passo a passo vão sedimentando-a, por mais absurda que seja.

 Quanto à polícia, é de cair o queixo o vídeo de um Delegado[4] (assistam o vídeo):


analisando um assalto em que um policial militar, na condição de segurança do estabelecimento reage e ocorrem mortes, disse o Delegado: “quando o bandido entra no supermercado armado, pelo simples fato dele entrar armado o policial já acredita que pode atirar, só que o direito não abarca essa situação”,  Desculpe caro Delegado o Direito abrange sim essa situação, talvez o senhor haja perdido essa aula, mas, a situação configura “legítima defesa própria, de terceiros e do patrimônio”. Agressão “atual ou iminente” lembra? Caracterizada por estar o ladrão com uma arma empunhada. Quem sabe a Polícia não oferta uma reciclagem acerca de Direito Penal.

  Pior, a coisa só piora, segundo a repórter, ao final da matéria, o Delegado soltou outra pérola jurídica, pois com a atitude do policial, poderia o assaltante alegar legítima defesa. Bah... Não, caro Delegado, quem está infringindo a lei (no caso armado e praticando um assalto) jamais pode alegar legítima defesa, a afirmação é de uma absurdidade ímpar e afronta os mais comezinhos ensinamentos do Direito Penal.

 Viram, a intelligentsia, os especialistas, a velha imprensa, o Judiciário, o Ministério Público e a própria polícia (os três últimos em pequena parcela é verdade, mas tende a crescer) vão dia a dia minando a moral do policial, último bastião lei e da ordem a proteger a sociedade ordeira do caos e do abismo da criminalidade desenfreada.

 A grande pergunta é: a quem serve esse DESARMAMENTO MORAL de nossas polícias? Para quem acha que a vida sem polícia ou com ela desarmada pode ser a solução, recomendo, vejam as notícias do aumento exponencial da criminalidade por ocasião das greves das Polícias Militares do Espírito Santo e do Ceará.  

   Encerro parafraseando um ex-Presidente dos EUA, o gigante Ronald Reagan.

“Não ousemos tentá-los, demonstrando fraqueza.”

 Silvio Miranda Munhoz


cronista da Tribuna Diária. Presidente do MP Pró-sociedade e Membro do MCI (Movimento de combate à impunidade) as ideias contidas na crônica representam, única e exclusivamente, o pensamento do autor.

                 

 

 

 



[1] Os Intelectuais e a Sociedade. Recomendo a leitura de todo o capítulo sobre as guerras págs 316-439, o trecho citado está na pág. 334.

[2] Processo nº CNJ: 00008392-55.2019.8.21.7000

[3] EMBARGOS INFRINGENTES E DE NULIDADE N.º 70084800655

[4] http://g1.globo.com/minas-gerais/noticia/2015/05/pm-e-indiciado-por-mortes-em-tentativa-de-assalto-em-supermercado-de-bh.html