ESTATÍSTICA E IDEOLOGIA

Entendendo o Atlas da violência urbana, desinformação. (parte i).

Por SILVIO MUNHOZ 25/02/2021 - 19:24 hs

“Se você quer inspirar confiança, forneça muitas estatísticas. Não importa se elas estão certas, ou mesmo façam sentido, contanto que sejam muitas.” Lewis Carroll, pseudônimo de Charles Lutwidge Dodgson, criador de Alice no País das Maravilhas.

  O ano de 2020 foi recheado de novidades e fatos, impactantes e quase diuturnos na verdadeira guerra cultural vivida no Brasil e no mundo, distraindo-me a ponto de pouco ou quase nada escrever sobre um tema, que tenho predileção em abordar a “ideologia utilizando a estatística para gerar a desinformação”.  

 A mentira estatística é uma das armas mais utilizadas na guerra cultural gerada pela esquerda embasada em Gramsci e na escola de Frankfurt, abandonada a dicotomia “proletariado-burguesia”, mas adotando, no lugar, a divisão da sociedade em raça, homem x mulher, gênero, entrechoque entre criminoso/vítima da sociedade e o policial/demoníaco (violento por natureza) etc. Por conta disso não podemos abandonar o tema e precisamos retornar, volta e meia, para demonstrar a ideológica utilização da estatística pela intelligentsia com o fito de gerar desinformação.

 Por conta disso, a pequena releitura (sem ideologização da estatística) do Atlas da Segurança Pública de 2019[1], cujos dados são oficiais, verdadeiros, retirados do SIM/MS[2] e referentes ao ano de 2017, porém, interpretados – como já apontei - com evidente viés esquerdista[3].  Os números apontam a prática de 65.602 homicídios no ano (computadas as intervenções ‘legais’ – como diz o nome não seriam crimes, a princípio), gerando o índice de 31,6/100mil habitantes, colocando o Brasil entre os países que mais matam no mundo, seja em números absolutos ou relativos.

  Normalmente, enfoco a análise sobre violência policial, muito pouco falada no referido atlas, ou a questão do desarmamento, pois embora aponte que 72,4% dos homicídios foram cometidos com armas de fogo (portadas por bandidos), teimosamente, insistem em dizer que o Estatuto do Desarmamento ajudou a poupar muitas vidas, não abordarei o tema, pois recentemente escrevi mostrando a absurdidade da assertiva, leiam “É Verdadi Ece Bilete!..”[4]

  Vamos aos temas de hoje. Após a exploração enviesada dos dados estatísticos, a conclusão do trabalho aponta: “Vimos ainda a urgência de se enfrentar o legado da escravidão: somos um país extremamente desigual [...] racialmente. [...]  verificamos também substancial aumento de casos de letalidade intencional, motivados por feminicídio e por homofobia, dois temas que têm que ter um tratamento particular, não apenas por parte do aparelho de segurança pública estrito senso [...]”

 A leitura dessas frases, alijadas de uma análise coerente e, ao contrário, embasada em exame dos dados com o viés ideológico da esquerda, levará qualquer leitor mais crédulo a imaginar: “bah, no Brasil estão praticando o extermínio (verdadeiro genocídio) de ‘negros’, mulheres e homossexuais”!..

 Nada mais enganoso e não podemos olvidar o aviso de Bernardo Guimarães Ribeiro: “A afirmação corriqueira de que uma mentira muitas vezes repetida torna-se verdade não é sofisma. Estudos de neurociência recentes descobriram que verdade e familiaridade são pouco distinguidas em nosso cérebro”[5].

 Importante grifar, não tolero homicídio (passei 25 anos no Tribunal do Júri, condenando homicidas sem importar a cor, raça, sexo ou preferência sexual da vítima), dediquei minha carreira a ser defensor da vida e para mim todas as vidas importam desde o ventre materno, porém, irrito-me quando vejo o tipo de aproveitamento ideológico que tenta jogar ‘irmão contra irmão’ na busca de, ali na frente, ganhar votos ou poder.

 Segundo o Atlas no ano de 2017, foram mortas 4.936 mulheres, índice de 4,7/100mil habitantes (o número de mulheres no Brasil supera o de homens)[6]. Detalhe, não há como discernir, pois os dados são incompletos, o que exatamente foi “feminicídio” ou outra razão, p. ex., muitas mulheres, hoje, são exploradas pelo tráfico de drogas e acabam morrendo na guerra das Orcrins e inúmeros outros motivos possíveis.

 Quanto ao grupo LGBTI+, o trabalho aponta a ocorrência, em 2017, de 193 homicídios e, mais uma vez, sem possibilidade de comprovar ou esclarecer quantos são decorrentes de “homofobia” ou outras causas (nos citados 25 anos de Júri, realizei 02 plenários, cujas vítimas eram gays, ambos casos de briga de casal, ciúmes e não homofobia). O Atlas aponta não serem boas as fontes de dados e que “uma luz no apagão estatístico seria o GGB (Grupo Gay da Bahia) que há 25 anos tabula as mortes de homossexuais”, no entanto, tais dados não são confiáveis, basta olhar o site do movimento para ver que incluem tudo: acidentes, suicídios na conta da homotransfobia. 

  Como visto, ocorreram 4.936 + 193 = 5.129 lamentáveis homicídios - torço para a descoberta e a condenação exemplar de cada autor -, mas vejam, isso aconteceu em um universo de 65.602 mortes, ou seja, somados não chegam a 10%, porém os ‘especialistas’ insinuam a ocorrência de um genocídio de mulheres e homossexuais no Brasil. Seria mais viável na situação falar em um genocídio de homens héteros de qualquer cor, pois foram 60.473 homicídios.

  Quanto à violência contra negros (o estudo utiliza a terminologia do IBGE negros = pretos + pardos; e não negros = brancos + amarelos + indígenas), segundo os “especialistas”: “No Atlas da Violência 2019, verificamos a continuidade do processo de aprofundamento da desigualdade racial nos indicadores de violência letal no Brasil”, pois, de acordo com os dados, estariam morrendo mais ‘negros’ do que ‘não negros’, embora reconheçam que, analisada a ‘década’, existem vários Estados onde a tendência é contrária.

  Segundo a análise dos “especialistas”, a tendência de mais mortes de ‘negros’ seria alavancada por cinco Estados: RN (87,0/100mil); CE (75,6); PE (73,2); SE (68,8); e AL (67,9).

 Para chegar à conclusão das ‘entrelinhas’, acerca de uma perseguição racial no Brasil, onde propositalmente mais ‘negros’ são mortos, necessário seriam informações sobre os porquês, os motivos das mortes (foram por racismo ou por outras causas), o banco de dados utilizado não contém esses informes. O SIM/MS anota o óbito e a causa (tiro, facada etc..), mas não informa o motivo, portanto, qualquer conclusão a respeito é mera suposição, sem embasamento empírico.

 Além disso, esqueceram, de ponderar na análise, uma pequena informação (fácil de ser encontrada)[7], pois consoante o IBGE aumentou o número de ‘negros’ (pretos+pardos), declarados em relação aos ‘não negros’ (brancos+amarelos+indígenas) no Brasil. Já haviam ultrapassado por volta de 2010/2011 e de lá para cá cresce a cada ano. Pode, inclusive, ser maior, pois o IBGE não faz tribunal racial, o levantamento é feito com base na “declaração”, ou seja, por variadas razões pode haver quem ainda não se declare desta ou daquela forma.

 Outros dados olvidados, os Estados que alavancariam o número dos homicídios de ‘negros’, não por acaso, estão entre os que possuem maior número de tal população.  Acerca do tema – divisão da população entre ‘negros’ e ‘não negros’ por Estado - não achei levantamento atual, mas, observem o quadro retratando o ano de 2010, didaticamente apresentado no Wikipédia[8]: RN, 58% da população é ‘negra’; CE, 66,9%; PE, 61,9%; SE, 70,7% e AL, 73,5%. Todos Estados na região nordeste. O quadro seguinte, na mesma matéria, anota possuir a região  69,2% de ‘negros’, ou seja, seria estranho e motivo de preocupação se estivessem sendo assassinados mais ‘não negros’ no Nordeste, aí seria de cogitar alguma espécie de extermínio racial.

 Ao fim e ao cabo, analisados os dados corretamente, e não com a distorção ideológica dos ‘especialistas’, é possível afirmar inexistir perseguição no Brasil ao negros, mulheres e ao grupo LGBTI+. O que existe no Brasil é uma matança de 65.602 Brasileiros e que o poder público, pouco ou quase nada faz para combater, por falta, na maior parte do tempo, de interesse político e do enraizamento nos alicerces do sistema repressivo do ‘garantismo’ e da bandidolatria, gerando a impunidade, cujos efeitos são deletérios, pois o crime passa a valer a pena...

 “Quando o orador [...] aponta a presença de cento e poucos homossexuais entre 50 mil vítimas de homicídios como prova de que há uma pandemia de violência antigay no Brasil, é evidente que o seu senso natural das proporções foi substituído pelo hiperbolismo retórico do discurso grupal que, no teatro da sua mente, vale como reação genuína à experiência direta.” Olavo de Carvalho. Os Histéricos no Poder, artigo publicado no Diário do Comércio em 12/12/2012..

Deus tenha piedade de nós!..

POR VEZES É TRISTE TER RAZÃO!..  Silvio Miranda Munhoz 

cronista da Tribuna Diária, Presidente do MP pró-sociedade e membro do MCI (movimento contra a impunidade). As ideias contidas no artigo expressa, única e exclusivamente, o pensamento do autor.

Ps: semana que vem analisarei, com vocês, o Atlas da Violência 2



[1]https://www.google.com.br/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=&cad=rja&uact=8&ved=2ahUKEwjk0fSB8NDuAhWsQzABHWCfDowQFjACegQIAhAC&url=https%3A%2F%2Fwww.ipea.gov.br%2Fportal%2Findex.php%3Foption%3Dcom_content%26view%3Darticle%26id%3D34784&usg=AOvVaw3sc-AQLyC0FV2pePhARZT_

[2] SIM/MS (sistema de informação sobre mortalidade – Ministério da Saúde).

[3] https://www.defesanet.com.br/ghbr/noticia/29641/Munhoz---A-ideologizacao-da-estatistica/

[4] https://www.tribunadiaria.com.br/ler-coluna/552/e-verdadi-ece-bilete.html

[5] In Nadando contra a corrente. Ed. Armada, págs. 115/116. No texto complementa o autor; “uma mentira grotesca, massificada, gera em nosso subconsciente a sensação de familiaridade pela repetição, mimetizando a verdade. O Nobel em Economia Daniel Kahneman explica o fenômeno em sua obra Rápido e devagar, duas formas de pensar”.

[6] https://www.seade.gov.br/mulheres-sao-maioria-e-vivem-seis-anos-a-mais-que-os-homens-no-vale/