ESTATÍSTICA E IDEOLOGIA = DESINFORMAÇÃO (Parte III)

Resposta final, a verdade sobre os dados da segurança pública no Brasil

Por SILVIO MUNHOZ 11/03/2021 - 20:29 hs

“’Fabricaram uma tela através da qual nossa época contemporânea absorve informações manipuladas.  Jean-François Revel’. A fim de preservar a visão imaculada do intelectual ungido, os membros da intellgentsia e seus agentes lançam mão de expedientes ousados e até mesmo desesperados, incluindo manipulação e filtragem dos fatos, redefinições dos termos e, no caso de alguns intelectuais, desafio à própria noção de verdade. [...] Dados estatísticos também podem ser filtrados ou manipulados, seja omitindo dados desfavoráveis às conclusões almejadas [...] ou restringindo a liberação deles. [...] A verdade dos fatos empíricos ou uma lógica convincente se revela inimiga dos dogmas.” Thomas Sowell[1].

Como vimos, na parte anterior, fizeram vã tentativa de explicar, por seu viés, a diminuição da criminalidade, e não conseguiram. Não perdem viagem, entretanto, e continuam a defender a pauta identitária (o moderno proletariado das esquerdas, deixando bem claro a quem servem), ou seja, aqueles grupos baseados em cor, sexo, orientação sexual, etnia e inúmeras outras divisões, surgidas a cada dia e, que ao fim e ao cabo, levarão à completa atomização da sociedade. Aproveitando em contrapartida (de forma subjacente, pois contido nas entrelinhas) para satanizar o homem hétero, branco, cis (quem se identifica com o seu sexo biológico) e cristão, e que por haver nascido privilegiado, necessita purgar a culpa de um crime que não cometeu e pagar uma dívida história que não contraiu e pela qual não tem responsabilidade alguma.

Iniciam, na realidade, querendo criar mais uma divisão em nossa sociedade já atomizada, explorando fortemente o que chamam de “juventude perdida”, destacando que 53,3% dos homicídios do país atingem jovens entre 15 a 29 anos (mais homens que mulheres), como se houvesse uma verdadeira matança de jovens no Brasil, ou seja, os homicidas saem às ruas com a mentalidade “hoje vou matar um jovem”. Como se fosse esse o motivo do homicídio, “hoje eu quero matar um jovem”. Claro que isso não existe e a resposta está no próprio Atlas, porém, fragmentada para permitir a manipulação.

Vejam quando, mais ao final do trabalho, traçam o perfil dos homicídios (fls. 67 a 73). Entre 2008 e 2018 ocorreram 628 mil homicídios no Brasil (verdadeiro escândalo e só recentemente o Governo ousou mudar sua política de segurança, há mais de 20 anos vinha fazendo mais do mesmo, esperando que os resultados fossem diferentes. Na dicção de Einstein isso é ‘insanidade’), sendo 91,8% de homens, dentre os quais 74,0% negros, e, entre as mulheres, 64,4% (desse recorte falo adiante), grande parte apresentava baixa escolaridade. Além disso, ainda falando de estatísticas, a maioria são solteiros (84% dos homens e 71% das mulheres), bem como a maioria (77,1%H e 53,7%M) são cometidos com armas de fogo[2], e a maior parte ocorre na primavera ou verão, com o pico em dezembro e janeiro, nos fins de semana, entre 18h de um dia e 02h do seguinte.

A soma de todos esses dados não aponta para uma matança premeditada de jovens, mas para a óbvia maior exposição dos jovens solteiros, nos fins de semana de verão e horários indicados. Com certeza, estarão muito mais na rua e expostos que os mais velhos e/ou casados que passarão mais tempo em casa, mesmo nos meses, dias e horário apontados.

Resposta mais factível é encontrada na entrevista de Mario Layera[3], diretor da polícia do Uruguai, que, entrevistado sobre a “liberação da maconha” no país vizinho, afirma a ocorrência do aumento do consumo, do tráfico, da criminalidade e, principalmente: “nos últimos anos a polícia verificou o aumento de assassinatos, principalmente de homens jovens, que em muitos casos se tratavam de ajustes de contas entre pessoas ligadas ao tráfico”. Eis a resposta, enquanto continuar a ocorrer incentivo e glamorização do tráfico no Brasil continuarão os jovens sendo o maior número de mortos no Brasil, pois sabemos que as organizações criminosas os seduzem e captam cada vez mais cedo e, envolvidos nesse meio, estão sujeitos e expostos a todo tipo de conflito (enfrentamento com a polícia, gangues rivais etc.)

Continuam, na busca de demonstrar a existência de uma perseguição identitária no Brasil, falando sobre a violência contra a mulher, apontando a ocorrência de 4.519 homicídios, gerando o índice de 4,3/100mil habitantes (no universo de 57.956 mortes, com índice de 27,8/100mil) e uma diminuição de 9,3% em relação ao ano anterior. Em síntese, não há como sustentar que há uma proposital matança de mulheres (pelo motivo de serem mulheres) no Brasil, porém, como não podem deixar de lacrar, na busca de causar impacto, fracionam: uma mulher morta a cada ‘duas horas’ no Brasil, totalizando 4.519 (fl. 37). Façam o mesmo cálculo, usando os dados gerais (não o recorte,  mulheres), e perceberão que os brasileiros (independente de raça, cor, sexo, preferência sexual etc) foram assassinados em torno de 4.830 por mês; 161 por dia e um a cada, mais ou menos, 7 minutos, perfazendo o total de 57.956, no ano em análise

Como a ‘matança’ de mulheres não cola com os dados atuais, fazem novo recorte incluindo na jogada a raça e dizendo que, embora haja diminuído o número, há uma flagrante ‘desigualdade racial, pois 68% das mulheres mortas eram negras.  Tal diferença aumentaria mais nos Estados do Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba, com 4x mais mulheres negras mortas, e Alagoas, onde os homicídios foram quase sete vezes maiores entre as mulheres negras.

De novo, necessário mostrar a manipulação dos dados. Primeiro, não possuem nenhum parâmetro para afirmar que essas mulheres foram mortas por serem negras, deixar tal assertiva nas entrelinhas é mera conjectura manipulatória dos intérpretes do Atlas. Segundo, não contam para os leitores que usam o critério do IBGE (negros = negros + pardos), e pardos significa miscigenação que pode ser dentre outras: brancos e negros; brancos e ameríndios, ou seja, muitos são metade brancos e para demonstrar a perseguição racial não poderiam usar o indicador do IBGE que contempla brancos e ameríndios, por exemplo. Terceiro, não informam, igualmente, mesmo usando o padrão IBGE, que o número dos negros ultrapassou os de não negros no Brasil desde 2010, e de lá para cá só aumenta a diferença[4]. Somos efetivamente, um país miscigenado. Quarto, olvidam-se de alertar os leitores que os quatro Estados que informam alavancar a matança de ‘mulheres negras’ têm clara predominância de população negra[5] (negros = pardos): Ceará, 66,9%; RN, 58,0%; PB, 58,5% e AL, 60,4%. Todos Estados na região nordeste. O quadro seguinte, na mesma matéria, anota possuir a região 69,2% de ‘negros’ (Os dados do quadro utilizado da raça/Estado é de 2010, de lá para cá deve haver aumentado, pois aumentou o número dos autodeclarados negros + pardos no Brasil). Estranho seria se em tal região estivessem matando mais mulheres não negras.

 

 

Resumo da prosa, com os dados apontados não há como concluir a ocorrência, no Brasil, de uma matança intencional de mulheres negras, exceto em mentes doentias que querem, manipulando os dados de forma sectária, criar uma pauta de discriminação identitária no Brasil, usando o Divide et impera (dividir para reinar ou vencer), o odioso e reprovado axioma da autocracia. Como, aliás, buscam fazer no tópico seguinte, a análise das mortes raciais, aí sem separar as mulheres, análise parecida com a criticada (alterados só os números, menores em 2018), na primeira parte dessa série, a qual remeto o leitor[6].

Quanto ao grupo LGBTI+, o trabalho aponta a ocorrência, em 2018, de 138 homicídios em comparação aos 193 de 2017 e, novamente, sem dado algum para demonstrar quais são diretamente ligados a “homofobia” ou outras causas. Continua, dizendo não serem boas as fontes, embora julguem corretos os dados do disque 100. Segundo os ‘especialistas’, o farol a guiar tal busca seria o GGB (Grupo Gay da Bahia) que há 25 anos tabula as mortes de homossexuais.  Reitero, como dito na primeira crônica da série, acessem o site do GGB e verão como não são confiáveis, pois misturam tudo, como acidentes e suicídios, na conta da homotransfobia, para aumentar o número, com evidente viés de distorcer e manipular.

Reposta a verdade dos dados, 4.519 (mulheres) + 138 (LGBTI+) no universo dos 57.956 homicídios de 2018 (abomino qualquer homicídio, há 34 anos luto para colocar os homicidas na cadeia, seja quem for a vítima) fica cristalina a inexistência de uma guerra ‘identitária’ no Brasil. Há,  na realidade, uma ‘guerra cultural’ que por décadas glamouriza a bandidagem e demoniza a polícia e mais recentemente tenta dividir o povo com essas novas pautas. Somado esse caldo, acontece a aceitação, quase geral, do ‘garantismo penal’ no meio de direito brasileiro. Pronto, está feita a mistura explosiva que torna o Brasil um dos países onde mais são cometidos crimes (de toda a espécie) no mundo e, em contrapartida, um dos que menos pune e possui uma das legislações mais frouxas, ou seja, UM PAÍS ONDE VALE A PENA COMETER CRIMES!.. Até quando veremos nossa população ser sacrificada no altar da impunidade e os responsáveis continuarem a aplicar os mesmos placebos, que todos já sabem não resolvem nada!.. Até quando?..

“Manipulação e uso tendencioso das informações não produzem apenas fatos fictícios, mas também pessoas fictícias. Isso se torna claro no caso de ditaduras totalitárias, nas quais tiranos genocidas são retratados pela propaganda oficial como gentis, sábios e misericordiosos líderes de seus povos, ao mesmo tempo que todos os que porventura se oponham ao ditador, local ou internacionalmente, são retratados como os tipos mais vis de criminosos”. Thomas Sowell[7].

Deus tenha piedade de nós!..

POR VEZES É TRISTE TER RAZÃO!.. Silvio Miranda Munhoz


cronista da Tribuna Diária, Presidente do MP pró-sociedade e membro do MCI (movimento contra a impunidade). As ideias contidas no artigo expressam, única e exclusivamente, o pensamento do autor.

 



[1] SOWELL, Thomas. In Os Intelectuais e a Sociedade. Ed. É Realizacões, São Paulo/SP, 2011, págs. 188, 195 e 229.

[2] Mas o estatuto do desarmamento possui relevante impcato na diminuição dos homicídios, como estudado na parte II dessa série, segundo nossos ‘especialistas’.

 

[7] Idem loco citato nota de rodapé 1, pág. 207.