QUEM NÃO É “PROPRIETÁRIO”, É ESCRAVO

Existe uma lógica atemporal, alicerces sem os quais o mundo mergulha em caos e sofrimento.

Por CATARINA LINHARES 11/04/2021 - 19:30 hs

Mais que nunca, vê-se a importância da formação cultural e da imaginação moral na vida das pessoas. Tudo o que nos cerca no mundo concreto obrigatoriamente já foi um mero pensamento, e depois foi traduzido em palavras antes de se transmutar em ação e fato. Então, o imaginário do ser humano e as informações que lhe são transmitidas ao logo de sua vida, especialmente na juventude, bem como a forma da linguagem com que esse aprendizado é transmitido, marcam para sempre os conceitos, ideias e diretrizes que ordenarão – ou desordenarão – uma sociedade.

            Isto sempre foi terreno fértil para mal intencionados e manipuladores, desde quando o mundo é mundo, mas o estrago ocasionado por tanta malícia jamais foi tão nítido e passível de compreensão como nos dias de hoje. Bastam um pouco de boa-vontade de raciocínio e algumas sinapses em bom funcionamento (nem é preciso muitas).

            Para se dar um exemplo ínfimo no oceano de enganos a que o ser humano vem sendo propositalmente induzido, tome-se o conceito e a imagem mental e moral que têm sido dados ao termo “propriedade”.

            Sabemos que os pilares do Direito Natural, como bem já advertia Bastiat[1] se assentam na liberdade e propriedade. Acrescentar-se-ia também “ordem”, na acepção dada por T.S. Eliot e Russell Kirk. São requisitos intrínsecos, que não são objeto de outorga por ninguém (a não ser o Criador). Muito menos seriam fruto da “generosidade” ou “bondade” manifestadas por qualquer poder constituído; são características naturais de uma sociedade que mereça este nome.

            Contrariando tudo isso, as pessoas são condicionadas a acreditarem, desde há muito, que o direito natural à propriedade privada significa subtração a outrem, gera injustiça e “desigualdades”. Ora, a começar que “igualdade” nada mais é que a maior ilusão e engodo que já criaram neste planeta, sendo exequível sim que haja “tratamento igualitário” entre as pessoas, diante das leis. Mas não discorrer-se-á sobre a falácia assassina, desagregadora e invejosa da “igualdade” entre seres humanos, sob pena de se abandonar o ponto do presente texto.

            O Papa Leão XIII, na Encíclica Rerum Novarum[2], diz que a propriedade nada mais é que “trabalho acumulado”. A definição não poderia ser mais perfeita. É comum entender-se propriedade privada por acúmulo de itens de luxo, de bens imóveis, de itens supérfluos, gerando em consequência a miséria e escassez para aqueles que não teriam tido oportunidade, disposição, ou até mesmo vontade de empreenderem o mesmo “acúmulo”.

            Ocorre que a propriedade privada nada mais é do que a possibilidade de o homem reter consigo o fruto de seu próprio trabalho, seja este trabalho qual for – mais ou menos rentável, simples ou complexo, braçal ou intelectual. Destarte, tem-se que o ser humano que não pode se utilizar dos frutos gerados por seu trabalho, sejam esses produtos escassos ou abundantes, não é dono de nada, a começar por não ser dono de si mesmo.

            Existe uma lógica atemporal, alicerces sem os quais o mundo mergulha em caos e sofrimento, como estamos tão próximos de experimentar na atualidade, que Deus não o permita! Esses são elos indissolúveis de uma corrente imantada por harmonia, justiça e Amor. A liberdade, a propriedade e a ordem estão visceralmente vinculados, e qualquer deles que seja ferido afeta imediatamente os demais. “Ó Tu, que entrelaças as regras do universo...”[3]- já exortava Boécio, atribuindo a Natureza à manifestação de Deus.

            Aquele que não é “proprietário”, no sentido como aqui se esclarece; aquele que não pode dispor da forma como queira dos frutos do seu próprio trabalho; aquele a quem é negada a propriedade privada; é um escravo, não governa a si mesmo. Não fosse essa uma ofensa ao Direito Natural, já seria de antemão a violação do livre arbítrio dado pelo Pai.

            O amálgama liberdade-propriedade-ordem não encerra qualquer conceito ou raciocínio “opressor”, “excludente” ou “injusto”. Nada mais significa do que “as coisas como elas são”. O funcionamento dessas engrenagens de forma não corrompida na sociedade é que deve ser objeto de esforço dos poderes constituídos. Não podemos deixar de ter em mente e de compartilhar essas verdades.

            Finaliza-se estas considerações afirmando-se que o Brasil – por incrível que pareça - é o ambiente ideal para esta consciência e este despertar, para a retomada dos valores e das virtudes. Contudo, se encontra ofuscado pela ignorância e pela manipulação. Este país tem em sua origem e em seu “DNA” mais qualidades do que nos é levado a supor. Os brasileiros só serão escravos se assim o permitirem. Já foi dito que “o sangue dos brasileiros contém o tratado de paz da humanidade”. Mas este é assunto para outro dia.

  CATARINA LINHARES para o Tribuna Diária

           

 

           



[1] In: A Lei – Frédéric Bastiat

[3] In: A Consolação da Filosofia – Livro I – Severino Boécio