NOVO PATÍBULO

Tiradentes e os diversos patíbulos para enforcá-lo. A sina de ser herói no Brasil...

Por SILVIO MUNHOZ 22/04/2021 - 18:55 hs

“Historiadores são aqui formados sem o hábito de ler fontes da época. E quando leem, sua concepção revolucionária de mundo (e do passado) dificulta tremendamente o desabrochar do primeiro dever historiográfrico: a busca pela isenção, com a Verdade a assessorá-la. Fontes na Terra Brasilis, além de maltratadas, esquecidas, são mal lidas. Em muitos casos, interpretadas às avessas com um maquiavelismo in extremis.”  Ricardo da Costa.[1]

Inicio confessando aos meus leitores, estou muito irritado hoje (21/04/2021), caso não queiram ler nada mal humorado não leiam essa crônica.

A irritação é fruto não só de pensar na guerra cultural que estamos, mas no fato de que nos dias atuais ainda exista quem queira negar sua existência e diga com desdém quando se fala nisso “mais um que acredita em marxismo cultural e nessa guerra que não existe”, ou quando com desfaçatez dizem “mais uma teoria da conspiração”...

Claro a negação é uma tentativa de colocar o tema em uma espiral de silêncio para que sigam os defensores do marxismo que já foi proletário e hoje é identitário explorando e aproveitando seus frutos.

No Brasil essa tentativa é vã, pois além de longa, começou pelos idos dos anos 30 e se estende até os dias atuais, é uma das histórias mais bem documentadas em nossa pátria, basta ver, por exemplo, as declarações de Jorge Amado[2] confessando que à época todos os escritores eram engajados e que não havia como não ser, sob pena de ser alijado do cenário cultural, de então, e que grande parte de sua obra está influenciada pelo comunismo – iria, posteriormente, se arrepender ao descobrir os milhões de seres humanos mortos por Stalin. Chegava ao ponto de dizer que Stálin era um pai para ele.

Não foi só na literatura, mas a guerra se estendeu para o cinema, para o teatro, para a TV com um objetivo comum incensar bandidos, demonizar as autoridades públicas e buscando transformar seus guerrilheiros em falsos heróis para substituir os verdadeiros no imaginário e na mente de nossa população mais desavisada.

Basta lembrar inúmeras e inúmeras obras idolatrando bandidos: Lampião e Maria Bonita; Lucio Flávio, o passageiro da agonia; Abusado, que romantiza a história do chefe de uma organização criminosa carioca, dentre tantas outras que poderiam ser citadas.

Recentemente o filme sobre o guerrilheiro Marighela, que viveu uma vida dedicada ao comunismo e se afastou do Partido correspondente no Brasil por achar que ele pegava muito leve, que tinham de partir – e o fez literalmente – para a luta armada, pregando assaltos, terrorismos, execuções de militares e civis (colocou, em um livro, suas ideias, cujo nome não mencionarei). A guerra é tão suja que, inclusive, mudaram a cor da pele do personagem (era pardo, filho de pai italiano com mãe negra, e se definia como mulato) colocando um negro como ator na tentativa de aproximá-lo da guerra identitária atual, que nem sequer existia no Brasil e estava sendo gestada no mundo, quando ele morreu em 1969.  E não irão parar, esperem para breve outro filme sobre outro personagem adorado, atualmente, pelo Marxismo Cultural.

Atingiu a música, igualmente, como não poderia deixar de ser. Há poucos dias fui cortar a barba e no fundo se ouvia um rap, dos anos 90, adivinhem o que dizia a letra: “A missão de todos os revolucionários é fazer revolução; cada patriota deve saber manejar sua arma de fogo; (Carlos Marighella) aumentar sua resistência física; (Carlos Marighela) o principal mesmo para destruir seus inimigos é aprender a atirar (Carlos Marighela)...”

Imagine em sua cabeça a batida do rap: ’“tum ti táti tumtum tum táti”[3] e continue analisando a letra: “Protetor das multidões; três encarnações de célebres malandros; de cérebros brilhantes; reuniram-se no céu; o destino de um fiel, se é o céu que Deus quer”. Não, não foi para o céu, lugar no qual ele sequer acreditava, pois o deus do Comunista é o Estado e só para ele é permitido dirigir orações...

A idolatria a bandidos (bandidolatria) que é pregada há quase 100 anos nessa guerra cultural é responsável por ser o criminoso, dos grandes aos pequenos, tão bem tratado no Brasil onde sempre se arranja uma desculpa para o crime ou se dá um jeito para que o bandido não cumpra a pena ou para ser ínfima a parte cumprida. Gerando um sentimento de impunidade “nacional” que, como se sabe, é fomentador de mais criminalidade e vivemos nesse ciclo contínuo e contando, contando, contando cada vez mais vítimas...

 Por outro lado, ao mesmo tempo que tentam incutir esses ‘falsos ídolos’ no imaginário do povo brasileiro, devagar, mas de modo continuado, milímetro a milímetro vão sempre em frente e firme na tentativa de manchar a honra e com isso desconstruir os verdadeiros herói brasileiros, para tentar ao fim cancelá-los e, claro, naquele vácuo deixado pelo cancelamento introduzir um dos seus ‘bandidos’...

Hoje estamos no meio do feriado dedicado a Tiradentes, um verdadeiro mártir do povo brasileiro que ousou se levantar contra a Coroa Portuguesa que, então, colonizava o Brasil por não aguentar mais a exploração feita e que piorou com a cobrança da derrama “com a diminuição do ouro, os moradores não conseguiam pagar o imposto, quando não pagavam soldados da coroa adentravam nas casas para retirar seus bens e quitar a dívida forma abusiva de cobrar impostos que gerou ainda mais insatisfação, e resultou o movimento dos inconfidentes.

Gerações mais novas, porém, muitas vezes sequer sabem qual a razão do feriado (fiz alguns testes), mas os que sabem não conhecem a história de Tiradentes ou da Inconfidência Mineira ou, pior ainda, a visão que possuem desse herói brasileiro é distorcida, pois sua imagem há tempos está sendo desconstruída.

Uma das falsas pechas que lhe impingem é a de ser defensor da escravidão e, sabemos, nada mais grave, nos dias atuais... Acusá-lo, injustamente dessa forma, não é só uma desconstrução do personagem, mas a tentativa de erguer um novo patíbulo para enforca-lo, novamente, agora não como o mártir do povo brasileiro que foi, mas como alguém que merece o opróbrio do povo. Nada mais insultante e vergonhoso que essa busca insana de manchar a honra, o nome e a memória dos heróis da pátria.

Perceberam o motivo de minha indignação... Teoria da Conspiração é a “ponte que partiu”...

“Dizer que alguém é a favor da escravidão é mesmo que infestar a sua memória com o pior dos julgamentos...”, graças a Deus ainda temos estudiosos e historiadores sérios  como o autor da frase entre aspas, Rogério da Silva Araújo, que escreveu um livro, cuja leitura recomendo fortemente, recolocando a história no seu devido e merecido lugar e mostrando os artifícios e artimanhas utilizados por essa “tchurma” que hoje tem por objetivo destruir a história e nossos heróis para no ‘vácuo’ criado poderem embutir seus “heróis bandidos”.

Temos de manter nossa população com os olhos e ouvidos bem abertos, pois um povo ordeiro, cuja grande maioria é conservador e cristão, não pode cair na esparrela de aceitar como heróis, bandidos que querem roubar e destruir nosso país!..

Segue na frase abaixo um pequeno trailer da grande obra que mencionei.

  “Há uma parcela de ciência exata na acumulação do conhecimento histórico, quando os aspectos materiais são determinados com maior ou menor precisão: a datação de um documento ou de um objeto; a análise de uma grafia; a recomposição de costumes a partir de buscas e escavações em locais de habitação; os dados recolhidos dos arquivos deixados pelos antigos governos etc. Mas o que existe além da determinação do fato histórico em seu aspecto simplesmente matéria e exato, que é a interpretação do fato requer profundo esforço filosófico, indispensável humildade e inegociável honestidade. Sem isso nada feito.” Rogério Silva Araújo[4]. História Depredada: Delírios Marxistas sobre a Inconfidência Mineira.

“Libertas Quae Sera Tamen”...

Que Deus tenha piedade de nós!...



 Silvio Miranda Munhoz.


Cronista da Tribuna Diária, Presidente do MP pró-sociedade e membro do MCI (Movimento contra a impunidade). As ideias desta crônica refletem, única e exclusivamente, o pensamento do autor.

 



[1]In História Depredada: Delírios marxistas sobre a Inconfidência Mineira. Santo André/SP: Editora Armada, 2017, na apresentação da obra, pág. 10.

[2] COSTA, Alexandre. In O Brasil e a Nova Ordem Mundial. Vide Editorial; Campinas/SP, 1ª Ed. 2018, pág. 69.

[3] Essa batida foi me passada por um grande amigo meu que é baterista.

 

[4] In História Depredada: Delírios marxistas sobre a Inconfidência Mineira. Santo André/SP: Editora Armada, 2017, pág 154.