A DESCRIMINALIZAÇÃO DO CRIME E A CRIMINALIZAÇÃO DO NORMAL II

o domínio da linguagem é a mais valiosa arma para que o objetivo de cooptação do pensamento seja atingido

Por FABIO COSTA PEREIRA 25/05/2021 - 22:00 hs

As mais drásticas mudanças nas sociedades humanas que são aceitas pelo contexto social sem maiores reações ou contestações são aquelas que, sem percebermos, pouco a pouco nos são impostas.


De forma sutil, estas mudanças passam a integrar o nosso subjetivismo e a fazer parte do nosso modelo mental, ao ponto de que aquilo que dantes consideraríamos bizarro passa a ganhar contornos de normalidade.


Nesse universo, no qual a dominação do modo como pensamos e agimos está inserido, o domínio da linguagem é a mais valiosa arma para que o objetivo de cooptação do pensamento seja atingido.


Todas as palavras por nós humanos criadas e usadas expressam  algo que, ao longo de nossa evolução , assumiu algum significado, com cargas significantes, positivas ou negativas, conforme as nossas experiências evolutivas.


Quando a linguagem é manejada com o uso de eufemismos para descrever o mesmo fenômeno, a um só tempo o significado e o significante são alterados, manejando-se a negatividade ou a positividade do termo ao gosto do freguês.


Dessa forma, ao se afastar o significado do seu significante original, abre-se um infinito universo de manipulações na forma de pensar e a reagir diante de dadas situações.


Exemplos disso, nas áreas da segurança pública e penal são abundantes, com a recorrente utilização de novos termos que buscam, a um só tempo, afastar a responsabilidade do criminoso pelo crime por ele cometido

e a negatividade do seu agir.


Há uns cinco anos, no Rio de Janeiro, um grupo de uns quinze jovens praticaram coletivo estupro contra indefesa mulher.


Nem bem o atroz crime havia sido cometido e o domínio da linguagem passou a ser  exercido.


Os criminosos logo foram chamados de sujeitos em conflito com a lei e o crime por eles praticado resultado da “cultura do estupro”.


Em uma só tacada se tirou o peso pejorativo do termo estuprador e se diluiu a responsabilidade dos criminosos com toda a sociedade.


Afinal de contas, se os “sujeitos em conflito com a lei” cometeram o ilícito, fizeram-no por conta da “cultura do estupro”, essa sim merecedora da reprovação, e não os jovens, mais vítimas do que algozes.


Perceberam como é fácil se descriminalizar o crime, bastando, para tanto, a correta manipulação da linguagem.


                                         E que Deus tenha piedade de nós!


  FÁBIO COSTA PEREIRA para o Tribuna Diária