WE SHALL FIGHT ON THE BEACHES

o famoso discurso de Winston Churchill nunca foi tão atual.

Por MARCUS L L CHAGAS 06/06/2021 - 15:23 hs

Na sexta-feira, dia 04/06, o grande e famoso discurso de Winston Churchill We Shall Fight on the Beaches” completou 81 anos, mas foi amplamente comemorado e divulgado pelo mundo, e pelas redes sociais, como se tivesse sido proferido no dia anterior. Esse fato, além de extremamente simbólico, é curioso, pois leva a todos à seguinte reflexão: como um pronunciamento tão antigo, e tão específico, pode continuar com tamanha relevância quase um século depois? A resposta é breve, mas seu entendimento complexo: lutamos pelos mesmos valores, em épocas diferentes. Se em 04 de Junho de 1940, à beira da aniquilação do mundo livre pelas forças nazistas, Churchill foi a ferramenta, e ao mesmo tempo o símbolo, da liberdade e do realismo, hoje esse símbolo continua ainda mais vivo, não apenas como consequência da liberdade que conquistou e garantiu à época, mas também pela consciência de que a liberdade enquanto valor é permanente.

 

Hoje, embora tenhamos por vezes uma fantasia de viver em tempos mais livres e mais pacíficos, a realidade imperativa nos demonstra que, mesmo não vivendo em meio a uma Guerra Mundial, a causa da liberdade se encontra tão, ou até mesmo mais ameaçada que em 1940. Quando Churchill conclama os povos livres a se unirem e a rechaçarem a tirania e o medo impostos pelo totalitarismo nazi-fascista, ele não apenas fundamenta a (verdadeira) ideia de resistência”, mas também demonstra o quão fundamental é a preservação de nossa civilização - com seus aprendizados, com suas heranças, com sua cultura, e com suas falhas. A ideia de se apagar o passado e atropelar o presente em prol de um futuro ideal” sempre foi a grande fonte de todos os universos totalitaristas e de todos os ditadores e aspirantes de autoridade - à esquerda, e à direita - e, ainda que separados por grandes ou pequenos espaços temporais, e expressado por diferentes motivos e ideologias, esse dilema é sempre o problema fundamental de qualquer sociedade, em qualquer época. É verdade que se falar acerca de uma necessidade de equilíbrio entre Ordem, Liberdade e Justiça durante uma Grande Guerra possui intrinsecamente uma grande vantagem ilustrativa, uma vez que aquilo que está em jogo é muito mais fácil de se perceber, porém, ao mesmo tempo, sedução da fantasia e a ilusão das frases de efeito são tão perigosas em jornais e redes sociais de hoje, quanto em comícios nazistas e passeatas stalinistas de outrora. Se não mais perigosas.

 

A defesa da vida, o bem comum, a saúde pública, o combate à intolerância, a igualdade e a PAZ… ah, a paz!… sempre foram, e sempre serão, as grandes causas pelas quais se cria, e se destrói. A paz, sobretudo, se alargada para englobar todas as demais como condicionantes, é, sem dúvida, a bandeira mais perigosa a ser levantada, e, muitas vezes, é exatamente o pretexto para sua própria impossibilidade. Não pensemos que as grandes atrocidades e os grandes desastres da humanidade ocorreram sob a bandeira do mal, pois a realidade e a história nos mostra exatamente o contrário. Afinal, todo homem mau obteve suporte valendo-se de fazer o bem - mesmo que à ótica de alguns. Dessa forma, a célebre máxima da repetição da história por caminhos e ocasiões diferentes, se aplica aqui, e, assim, os desafios da civilização se repetem a modos e oportunidades diferentes. As grandes tentativas, por exemplo, de se garantir a paz” e o mundo ideal, não por acaso, se tornaram as grandes geradoras de eventos vergonhosos do ponto de vista social, humano e moral. Ainda que geradas a partir de instituições e anseios legítimos, que, ao longo dos anos, dos vícios e da vaidade, acabaram por perverter sua própria essência e subverter sua função. Churchill sabia desse risco, e, sobretudo, da importância em se trabalhar com o que é possível, e não com aquilo que é ideal, pois, do contrário, as consequências podem ser inimagináveis. Churchill, sem dúvida, foi um dos mais fiéis representantes da ideia de que da realidade se faz o que é possível, e não o que é desejável. Não por acaso, foi o grande articulador e defensor da aliança com o sanguinário Stalin. Não por acaso, disse a tão esquecida frase acerca das Nações Unidas: As Nações Unidas não foram construídas para nos levar ao paraíso, mas apenas para nos salvar do inferno”.

 

Ao evidenciar a importância do comprometimento com a vitória e dirimir a ideia de rendição, Churchill (de modo formidável e modesto) evoca não apenas as necessidades presentes (à época) do esforço de guerra, mas também, e principalmente, a essência dos princípios que ergueram e sustentaram a civilização livre até aquele momento. Não por acaso, sua articulação política se torna, à luz daquele momento, símbolo de liberdade, esperança e determinação. Naquele momento, além de conseguir uma união política sem precedentes que possibilitaria a preservação de todos os valores e modos de vida do ocidente, Churchill consegue se tornar a personificação desses valores, e a representação dessa civilização. A partir daquele momento, ainda que a guerra fosse perdida e a civilização mergulhasse no odioso aparato de dominação nazista, Churchill e suas palavras se tornaram um pilar de preservação do ocidente. E, por esse motivo, ainda no século XXI, e provavelmente por muito tempo no futuro, suas palavras e seu simbolismo continuam vivos e atuais. Porque eles representam a grande e perpétua luta da moralidade e do cristianismo, contra a destruição trazida pelas utopias e pelas frases de efeito.

 

Hoje, mesmo antes das complicações trazidas pelo vírus chinês, a luta pela preservação do que somos se faz mais presente do que nunca. Podemos não ter panzers ao nosso redor, ataques aéreos a nossas cidades ou mísseis nucleares em nossos quintais, mas a Grande Guerra da civilização é cada vez mais intensa, e mais feroz, ainda que essa guerra seja travada por meio de plataformas pacíficas”. Como foi dito, a Batalha pela Civilização está sempre em curso. Em maior ou menor grau, de forma mais explícita ou menos explícita, ela sempre está, e sempre estará, presente. Hoje, a grande ameaça não vem das praias da Normandia, nem das florestas das Ardenas, nem do coração da Alemanha, ou mesmo do Mar do Norte. Não. A verdadeira ameaça está em nossas casas, em nossas escolas, em nossos bolsos, em nossas mentes… e, ao contrário do que muitos possam dizer, ela não é a tecnologia, tampouco a mudança, mas o que se faz de ambas. 

 

Por isso, o clamor de Churchill em prol da defesa de nossa civilização (e de seus pilares, obviamente) - ainda que sob as mais terríveis probabilidades - continua tão atual, como se o grande Bulldog estivesse aqui agora. Embora por vezes possa ser difícil de se perceber, o grande sucesso de Churchill ao proferir este discurso, e nos infindáveis acontecimentos e vitórias que dele se desdobraram, não estava na defesa da Grã-Bretanha, ou da França, ou mesmo dos Estados Unidos… Mas sim na defesa de tudo aquilo que eles criaram, estruturam e representam. Ainda hoje, em pleno século XXI, defender nossa ilha” (de todos nós) nunca foi tão atual, e tão imperativo. 


 Marcus L L Chagas