A DESCRIMINALIZAÇÃO DO CRIME E A CRIMINALIZAÇÃO DO NORMAL V

Se o “mocinho” é o vilão da história e o “bandido” o bonzinho...

Por FABIO COSTA PEREIRA 15/06/2021 - 20:53 hs

 

Com a crônica de hoje, encerra-se a série através da qual busca-se demonstrar como, ao longo das últimas décadas, com muito sucesso, setores da intelectualidade e da mídia patrocinaram, através do discurso, a descriminalização do crime.

 

De forma sutil, pouco a pouco, com a mudança das palavras, a retirada do peso pejorativo dado à conduta criminosa, a criminalização do agir dos representantes da Lei e da Ordem e a glamourização do criminoso, entorpeceu-se a percepção popular sobre o que é justo ou injusto.

 

Se o “mocinho” é o vilão da história e o “bandido” o bonzinho, a reprovação, por consequência, não deve incidir sobre a conduta do primeiro e, sim, em relação a do segundo.

 

Eis a nefasta lógica por detrás do discurso que, a princípio, pode parecer incoerente.

 

É o famoso ditado do “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura” colocado em ação bem debaixo dos nossos narizes sem que percebamos.

 

Nesse contexto, ao mesmo tempo em que se desconstrói o papel das polícias, a “glamourização” dos criminosos, retratados como se justiceiros sociais o fossem,  que lutam contra um sistema injusto,  verdadeiros “Robin Hoods” redivivos, ocupa papel de centralidade.

 

Ao se enaltecer as virtudes do agente delinquente, exculpa-se, por consequência, os seus crimes, pois os objetivos maiores por ele perseguidos justificam os meios porventura utilizados.

 

Há poucos anos, conhecida filósofa brasileira, que transita com facilidade no universo midiático, afirmou ver uma “lógica no assalto”, algo como um ato revolucionário contra a “opressão” do capitalismo.

 

Dessa forma, ao se transformar o crime em instrumento revolucionário, o criminoso, ato contínuo, é erigido ao Panteão dos heróis que dedicam a sua vida a lutar contra o injusto.

 

E esta glamourização, onde ao criminoso são atribuídas virtudes que aos agentes da lei são sonegadas, não é nova.

 

Na década de 70, por exemplo, a vida do bandido Lúcio Flávio, criminoso com enorme folha corrida, seguindo o roteiro da glamourização, foi transformada em livro e, depois, em filme.

 

Lúcio Flávio, em síntese, foi retratado tanto no livro quanto no filme, como alguém com ideias superiores e que vivia a sua vida lutando contra o sistema.

 

Esse mesmo roteiro de glamourização é seguido até hoje, ao ponto de se tratar o crime organizado que ocupa as comunidades pelo Brasil todo, como esteio de estabilidade e Justiça, quando a realidade demonstra que, em verdade, tratam-se de verdadeiros senhores feudais que negam à população sob o seu jugo os mais comezinhos direitos de cidadania, tal como o de ir e vir.

 

Mas entre a dura realidade e a “verdade” panfletária, para que o crime seja descriminalizado, a identificação do criminoso como agente de transformação social é essencial.

 

Viram, com simples passos é muito fácil tornar aceitável o que inaceitável o é.

 

E que Deus tenha piedade de nós!


 FÁBIO COSTA PEREIRA para o Tribuna Diária