VIAJAR É PRECISO

Desconheço algo mais revolucionário do que descobrir uma nova cultura

Por ÉRIKA FIGUEIREDO 21/06/2021 - 20:07 hs

A famosa frase de Fernando Pessoa, “navegar é preciso; viver não é preciso”, amanheceu nesse domingo nublado e preguiçoso em que vos escrevo, em minha cabeça. Evidentemente, porque discordo da mesma: viver é, sim, imprescindível, para que possamos desenvolver todas as outras funções, dentre as quais pensar, navegar, viajar, falar, etc.

            Através desse pensamento tão cartesiano, alinhado com o famoso “penso, logo existo”, dito por Descartes séculos atrás e reverberado por todos, a vida é posta como algo menor do que pensar e navegar. Apenas se você der sentido à sua vida, ela valerá a pena.

            Ocorre que isso é absolutamente falso: nós vivemos, existimos, desde a nossa concepção, independentemente de pensarmos ou navegarmos. O direcionamento que daremos à nossa vida e às nossas idéias, ou a capacidade mental com que nascemos, isso sim, é passível de discussão. Mas a existência em si, não.

Todos fomos criados por Deus, existindo como seres humanos desde que fomos gerados e postos ali, no útero materno, e isso é imutável, mesmo que não pensemos ou naveguemos.            Mas, apesar dessa crítica, não é disso que quero falar... meu artigo é sobre viagens, e o efeito que estas prospectam em nossas vidas.

Conheço muita gente que não gosta de viajar. Formatados em suas rotinas, muitos detestam sair de sua zona de conforto e arriscarem-se. Afinal, pegar um avião, atravessar o oceano, dirigir por horas a fio e aventurar-se rumo ao desconhecido pode ser bem ameaçador.

Vejo as viagens como aventuras, oportunidades de crescer e de me desafiar, de lidar com o inusitado e submeter-me a situações-limite, nas quais precisarei decidir rápido e de modo solitário, muitas vezes. Porque em viagens, sempre há imprevistos.

Desde muito pequena, viajei com minha avó paterna. Ela e meu avô adaptaram uma Kombi, colocando uma cama no lugar dos bancos traseiros, e viajávamos por toda parte, parando em postos de gasolina, comendo ovo cozido e sanduiche caseiro de queijo levados por nós, tomando suco de caju de garrafa térmica e às vezes mineirinho.

Essas memórias de infância, que remetem-me a aventuras, moldaram meu paladar, e até hoje sou doida por essas “iguarias”: tempos doces e inocentes, em que, com quatro anos de idade, eu desbravava o brasil com meus avós.

Logo na sequência, minha avó aposentou-se, e fundou uma agência de turismo. Passou a alugar ônibus de 44 assentos, para levar pessoas da terceira idade a estâncias termais, festivais das flores e da canção, e desbravamos Raposo, Conservatória, Holambra, Poços de Caldas, São Lourenço e tantos outros locais do Brasil, sempre servindo sanduichinho de queijo e suco de caju.

Nas vésperas destas viagens, vistas por mim como grandes aventuras, eu dormia na casa da minha avó, pois saíamos bem cedinho pela manhã. À noite, antes de dormirmos, preparávamos os sanduiches e o suco, armazenávamos tudo, e eu sentia-me com grandes responsabilidades: afinal, eu era a “ajudante” do ônibus, e precisava servir os passageiros e me comportar bem, para manter o meu direito de embarcar, das próximas vezes.

Eu tinha uma vida bem monótona e rotineira em casa, com meus pais. Com o dinheiro muito curto, e sendo muito cobrada em notas e estudo (pois precisava obter alto desempenho para preservar minha bolsa integral na escola e no curso de inglês), eu era muito tímida, ajudava em todas as tarefas domésticas e nos cuidados com minha irmã menor, quase cinco anos mais nova. Não me sobrava muito tempo para brincar.

As viagens com minha avó tornaram-se, assim, os momentos mais felizes da minha infância. Eu ansiava por estas (que ocorriam mais ou menos uma vez ao mês), e aproveitava cada minuto como se fosse o último. Era mimada pelos passageiros, podia comer morango com chantilly de sobremesa, passeava a cavalo, brincava de subir e descer pelos elevadores dos hotéis... enfim, podia ser criança e me divertir.

Engraçado como essas lembranças deixam-me emocionada. Lembro com muita ternura desses momentos, e apesar dos mimos e privilégios de ser “neta da guia de turismo”(os guias não pagavam por refeições e lanches nos locais em que levavam suas excursões), eu possuía minhas responsabilidades de ajudante, as quais cumpria com esmero.

Creio que vocês podem imaginar o quanto amo viajar... até hoje, sair e me lançar em aventuras me traz a sensação de liberdade, de interrupção da rotina, de abraçar o inesperado e sonhar. Conheço muitos países, viajo a trabalho, para estudar e por lazer, sozinha e com meus filhos, com amigos ou em grupo, para a praia, a neve ou a montanha, mas meu coração sempre bate mais forte por viagens culturais e repletas de descobertas.

Desenvolvi, talvez por influência da minha avó, que montava roteiros, o mesmo hábito: cuido de minhas viagens do início ao fim, planejo-as cuidadosamente, e sempre deixo uma lacuna, um espaço a ser preenchido por algo inusitado e surpreendente. Muitos amigos me pedem dicas e ajuda, na organização de suas “expedições”, o que faço com muito gosto e prazer.

Quando estou muito sobrecarregada de afazeres, tenho por hábito reservar dez dias para férias, e presenteio-me com um roteiro exótico, muitas vezes sozinha, para alinhar idéias, esvaziar a cabeça de preocupações e retomar minha rotina descansada e inspirada. E não precisa ser caro: podemos viajar com pouco dinheiro, de modo confortável e prático, desde que saibamos planejar.

Desconheço algo mais revolucionário do que descobrir uma nova cultura, e alinhar seu quebra cabeça mental, sobre o que foi lido acerca daquele lugar, com a realidade que ali se apresenta para você, ao vivo e a cores. Porque viajar é exatamente isso: expandir, desbravar, conquistar, ganhar potência por meio do conhecimento.

Por essa razão, recomendo a todos (e pratico com meus filhos) que viajem. Façam-no dentro de suas possibilidades, descubram locais que sempre sonharam conhecer. Comam algo diferente, ouçam o idioma e alguma música local, assistam um espetáculo típico, entrem em um museu, pisem na areia da praia, sintam a neve entre seus dedos, andem pelas ruas sem destino, absorvendo cada cor, som, cheiro e sabor.

Subitamente, vocês perceberão que retornaram modificados, e que a experiência obtida naquela viagem, sobretudo a que decorreu dos erros, imprevistos, acontecimentos inusitados e decisões tomadas, transformaram-nos em pessoas mais corajosas, preparadas e seguras. Viajar é abrir as janelas da alma e os portais do saber.

“Um homem precisa viajar, por sua conta, não por meio de histórias imagens, livros e tevês, precisa viajar, por si, com os olhos e pés, para entender o que é seu”. Amyr Klink

“Um pouco de aventura liberta a alma cativa do algoz cotidiano “. Clarice Lispector