MAIS HUMANISMO TÓXICO!

Crimes sem criminosos ou responsáveis diretos é a tônica do humanismo tóxico e retrô que hoje vivemos.

Por FABIO COSTA PEREIRA 29/06/2021 - 19:20 hs

O grande ganho da modernidade, para nós, os humanos, foi o de nos tornar senhores de nossas vidas, responsáveis por nossas ações e, em consequência, de seus resultados, sejam eles positivos ou negativos.


A reger a nossa sina, não mais os desígnios divinos ou os dedos que tocam a Flauta do destino, e sim cada um de nós, na inteireza de nossas venturas e desventuras enquanto sujeitos e senhores de nossas escolhas.


Os resultados bons ou ruins  dos caminhos que elegemos seguir, donos e senhores de nossas horas que somos, das facadas cegas e raivosas, bem como das ternuras lúcidas e mansas como diz o Poeta Português Miguel Torga, por esse motivo apenas a nós podem ser atribuídos.


O humano, na modernidade, foi liberto dos grilhões que o acorrentavam aos sabores das voluntariedades de seres superiores e invisíveis.


Na peça Henrique V de Shakespeare, duas vezes transformada em filme, há uma antológica cena que bem representa o que falei.


Em uma noite horrenda e escura, antecedente à famosa batalha de Azincourt, na França, na qual os ingleses se encontravam inferiorizados em número de combatentes e a derrota parecia certa, Henrique V, disfarçado como um comum dos mortais, saiu para caminhar por entre os seus soldados que estavam despertos e lhes apreender o ânimo.


O rei, em sua insone vigília, depara-se com um grupo de soldados alegremente conversando, não parecendo temerosos com o que lhes aguardava.


No meio da conversa, lá pelas tantas, um dos soldados verbalizou não temer o seu destino, pois, se morto fosse e tivesse que se encontrar com o Criador, todas as barbáries que havia cometido estariam justificadas, pois cometidas em nome e pelo rei.


Se, na modernidade, o sujeito não podia mais se esconder atrás dos desígnios do rei para justificar as suas vilanias, a pós-modernidade, em um célere avanço para a retaguarda, voltou a retirar do sujeito a responsabilidade por seus atos, atribuindo esta a uma deidade superior, o Estado.


Em matéria penal, em especial no Brasil, podemos ver isso muito claramente.


Basta que um crime seja praticado para que a responsabilidade sobre este seja atribuída à família patriarcal, à cultura de alguma coisa, à sociedade opressora, à vítima e ao escambau, mas, sob hipótese alguma, ao criminoso.


Por esse motivo, inauguramos, no momento em que vivemos, a figura de crimes com autores difusos e abstratos que não se confundem com quem efetivamente o praticou.


Crimes sem criminosos ou responsáveis diretos é a tônica do humanismo tóxico e retrô que hoje vivemos.


E que Deus tenha piedade de nós!


 FÁBIO COSTA PEREIRA para o Tribuna Diária

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