O FANTASMA ENFRENTA SEU PIOR INIMIGO

Como Karl Marx transformou os Super- Heróis dos quadrinhos em panfletagem ideológica...

Por Luciano Cunha 10/09/2020 - 15:53 hs

Como fã apaixonado e inveterado consumidor de histórias em quadrinhos, vira e mexe eu me pego invadindo sebos empoeirados ou feiras de antiguidades à procura de alguma relíquia ou tesouro perdido. Recentemente, encontrei na Feira de Antiguidades da Praça XV, que acontece todos os sábados aqui no Rio de Janeiro, uma edição especial de 1976 do Fantasma, personagem icônico criado pelo eterno Lee Falk.


De primeira, o leitor pode rapidamente me julgar como um fã de quadrinhos daqueles que só cultuam personagens e sagas muito antigas e que vive em constante e exacerbado saudosismo. Mas não é verdade. Me esforço ao máximo para acompanhar toda a produção quadrinística não só do Brasil, mas da maior parte do mundo. É óbvio que, com a veiculação de novas obras e artistas se agigantando a cada segundo pelas redes sociais, fica humanamente impossível se acompanhar tudo, mas faço o possível.

Dito isso, é fundamental salientar que o gênero de super-heróis é aquele que mais gosto e que aprendi a amar desde a infância profunda, como diria Nelson Rodrigues. Então, é sobre este gênero de quadrinhos a que vou me referir neste artigo.

Apesar de pouquíssimo conhecido pelas novas gerações de leitores, o Fantasma de Lee Falk é disparadamente um dos mais importantes personagens de toda a história das hqs e da cultura pop ocidental. Estreou em fevereiro de 1936 e continua na ativa até hoje, sendo responsável por inaugurar inúmeras marcar registradas e clichês fundamentais para toda a era dos super-heróis como conhecemos, como vestir um traje colante ou mostrar uma máscara sem pupilas.

O historiador Peter Coogan descreveu o Fantasma como o “pai” dos principais recursos que contribuíram para o nascimento de super-heróis como Superman, Batman e Capitão América. O Brasil tem um longo caso de amor com o “Espírito que Anda”, que caminha entre nós desde 2 de dezembro de 1936 e carrega milhares de fãs desde então.

Portanto, descrever a importância deste personagem seria gastar mais o tempo escasso de cada um de nós, por isso vou agora direto ao assunto principal: como os quadrinhos de super-heróis deixaram de ser sobre espírito de sacrifício, generosidade, ordem, honradez e justiça para se tornarem meros panfletos de ideologia marxista.

E o que o Fantasma e sua edição de 1976 tem a ver com isso? É incrível como uma simples história em quadrinhos de 23 páginas pode conter tantos elementos que hoje levariam esquerdistas de todas as matizes ao delírio, mas com uma mensagem moral ao final que traz toda a riqueza e a força dos valores conservadores que fariam o já saudoso Sir Roger Scruton abrir um largo sorriso.


Nesta pequena trama chamada “A Estrela de Bengala”, um pobre e idoso lavrador negro, ao arar sua pequena lavoura, encontra uma grande pedra de diamante. O velho repassa a valiosa joia à sua neta Reema (o cenário das histórias do Fantasma se passam no fictício reino de Bengala, na costa africana), dizendo: “Minha neta, com esta pedra nós poderíamos comprar a aldeia inteira, mas estou velho e não preciso de muita coisa. Vou vendê-la para que você possa ir para a melhor escola que pudermos pagar e tenha propriedades quando se casar.” Reparem o conservadorismo explícito nas palavras do ancião. A partir dali, ladrões roubam o diamante e promovem uma confusão onde o velho acaba preso. O ancião diz a neta: “Reema, eles vão querer nos matar por causa do diamante. Não volte para casa. Vá para a floresta e chame pelo Fantasma. Ele vai nos ajudar.” A neta pergunta: “Mas, vovô, como o Fantasma vai me achar?” O velho responde: “Chame por ele, Reema. Apenas chame e ele virá.”

A trama então prossegue com o protagonismo quase que total da esperta Reema, que obedece ao avô, se alia ao Fantasma, dribla os inimigos, recupera o diamante, consegue vendê-lo para o príncipe Ajiz e transforma sua vida e traz prosperidade para sua aldeia. Repare que Reema é uma jovem mulher negra, ou seja, seria um exemplo perfeito de protagonismo negro feminino  – bandeiras identitárias caríssimas à esquerda. Mas é o final da história que guarda toda sua incrível potência conservadora: no último quadrinho, feliz ao ver sua nova e bela casa sendo construída com o dinheiro do diamante, Reema se vira para o Fantasma e pergunta “Vovô me disse que, quando eu achasse você, tudo ia dar certo. Como ele sabia?” e o Espírito que Anda rebate de pronto “Os avós sempre sabem de tudo, Reema.”

Reflitam. Uma pequena aventura na metade da década de 1970, quando a produção cultural nos EUA ainda não tinha nenhuma pitada do marxismo cultural que a assaltou nos últimos anos, traz uma mulher negra como principal personagem na hq de um herói icônico sem que isso representasse qualquer tipo de divisa ideológica. É apenas uma boa história, onde a jovem a “carrega para frente”. Sua origem humilde e a cor de sua pele também não são usadas como bandeira social, apenas reforçam seu protagonismo. E o final, nas palavras do próprio Fantasma, é um primor de valores conservadores: a fé naquilo que não se pode ver, a força da família, a sapiência dos idosos. Fazer aquilo que já se comprovou ser o correto e eficaz. Valorizar o conhecimento e a memória acumulada pela tradição. Preferir o possível ao utópico. Acreditar na lei. Conservar aquilo que é precioso, importante e único. Tudo isso representado em um único balão de diálogo, numa pequena história em quadrinhos impressa em papel jornal. Quanta sabedoria e beleza nos traziam os quadrinhos de outrora. Hoje, contaminados por uma agenda política cada vez mais clara e direta, quadrinhos de heróis estão morrendo e vendem cada vez menos, gerando “cancelamentos” de artistas que “pensam diferente”, produzindo desemprego e promovendo uma guerra entre consumidores, roteiristas e editores nunca vista numa indústria de 80 anos. O que me leva a pensar, num misto de preocupação e angústia: O que lerão meus filhos e netos?

 

 Luciano Cunha, quadrinista, roteirista, editor de quadrinhos