JÚNIOR – O MIMOSO

AQUILES ARMENDARIZ - O Jurista do Apocalipse


JÚNIOR – O MIMOSO

Certo dia nasceu a criança e, em meio a clima de festa e alegria natural, os pais lhe colocaram o nome de Júnior, afinal ele era ou deveria ser parecido com o papai. E já ao nascer tinha todo o enxoval preparado e o berço mais fofinho do planeta. Afinal, pobre Júnior, precisava de conforto, era apenas um recém nascido.

Nos anos seguintes Júnior vai crescendo e ganhando toda a sorte de brinquedos que uma criança pode ter. Crianças tem que brincar e é preciso que Júnior tenha tudo que papai não teve. Ele destrói os brinquedos. Mas isso é normal em uma criança. É só comprar brinquedos novos. Ah, Júnior também maltrata o cachorrinho da família. Mas também é normal. Ele é uma criança e não sabe ainda o que isso representa.

Em seguida, ainda com quatro ou cinco anos, Júnior vai ganhar um telefone celular. Esse objeto vai acompanhá-lo, aliás, até a hora da morte. Com ele o menino fica bastante alegre. É a melhor forma de fazê-lo parar de chorar. Aliás, ele, que já sabe disso, tem como mecanismo automático o choro para pegar na telinha colorida e divertida. Ao chegar à idade escolar, o menino tem a mochila mais bonita e cara, do homem aranha, roupas novas, uma para cada dia, chega na aula, conhece vários coleguinhas, e todos eles se divertem barbaramente no intervalo e às vezes na própria aula, cada um em seu celular. Não jogam bola, não brincam de pegar...e não aprendem a ler ou escrever. Os pais deixam essa tarefa para os professores e estes não conseguem despertar estímulos tão básicos no menino, que já está mais além, na eletrônica avançada.

Ainda, na seqüência dos “estudos”, toda vez que Júnior tem um pequeno probleminha com algum coleguinha detecta-se o bulling. Ele é levado a uma psicóloga e sofre demais. Pobrezinho! E se a professora for muito rigorosa com ele os pais irão até a escola e a “educadora” será severamente punida. E mais: Júnior, superestimulado pelo celular, não lê sequer um gibi do Tio Patinhas, que dirá uma obra de literatura, mas sabe que tudo estará tranquilo no final do ano. É que uma tal de “pátria educadora” (sabe ele lá que bicho é este) determinou que as crianças não podem repetir para não se deprimirem ou se sentirem inferiorizadas.

E assim, entre idas e vindas, Júnior conclui o segundo grau e passa no vestibular em alguma universidade particular, paga pelos pais, repleta de analfabetos funcionais recebendo e dando aulas. Ganha um carro pela “façanha” e começa a badalar...Bebe, fuma, cheira e transa...Falta às aulas, quase não estuda, compra um trabalho de conclusão e então é um doutor. Não sabe fazer nada, está fora do mercado de trabalho, onde não há mimos, mas a mais pura e dolorosa competição, para a qual ele não foi preparado. Rebela-se com os pais e o mundo, entra em profunda depressão e queixa-se do Estado e da direita opressora...

E assim, arrastando-se, o mimoso vai até o final de sua vida medíocre. Mas como ele foi amado!

Ainda bem que estamos falando de uma mera ficção.

AQUILES ARMENDARIZ

O Jurista do Apocalipse