Um conto chileno

E o bom padre viu, emocionado, o que parecia um milagre...

Por Eduardo Vieira 20/10/2020 - 15:21 hs

E

ra uma tarde bonita em Santiago do Chile. O pôr do Sol projetava longas sombras na praça Itália, onde uma multidão se reunia para protestar contra a história de seus ancestrais. Muitas foices e martelos e nenhum amor no coração. Aquele caldeirão fedorento de ódio e ressentimento, acima de tudo contra si mesmo, transbordou nas palavras de uma jovem mulher, toda tatuada e visivelmente drogada.

Ela gritou que perto dali havia uma igreja.

- “Vamos queimar a igreja!” — vociferou a criatura, os olhos vermelhos injetados e desvairados. Uma pequena baba branca se formava nos cantos de sua boca escancarada.

Como uma Joana d’Arc do mal, a criatura seguiu liderando uma turba, descendo a Vicuña Mackeena na direção da insuspeita Paróquia da Assunção. No caminho passaram pelo consulado argentino e berraram algumas palavras de ordem, irmanados na busca pelo comunismo. Um funcionário fechou a janela e desceu a persiana.

A malta não desanimou e seguiu seu caminho, fazendo como os berserks nórdicos de outrora, se drogando e se excitando com gritos cada vez mais selvagens. Era de se observar que, quanto mais impudente fosse a palavra de ordem, maior a resposta da escumalha. Alguns já não repetiam as falas, apenas rugiam bestialmente, sob alguma inspiração inferior. Deviam ser uns trinta nesse ponto. Muitos tinham desistido, movidos por um raro lampejo de bom senso ou por razões mais mundanas como fome ou preguiça.

Enquanto isso, alheio à toda essa degradação, José Maria (pronunciar Rossé María) saía mais cedo da KillStore, loja de artigos fotográficos, apesar do nome. Havia brigado com sua esposa naquela manhã e queria levar para casa um combinado japonês e seu patrão gente boa o deixou sair mais cedo para pegar o restaurante aberto. Com 65 anos e alguns pontos de artrite, andava devagar pela rua Eulogia Sanchez rumo ao Japón, na outra quadra, na Barón Pierre de Coubertin. Ao parar para atravessar a Vicuña percebeu o sonoro grupo descendo a rua, já no meio da quadra. Atravessou a rua célere como pôde, desgostoso com aquele espetáculo deprimente, com moças com os peitos de fora e desenhos obscenos em seus peitos. Caídos, não pôde deixar de observar. Talvez fosse um efeito colateral das drogas? Estava ruminando isso quando ouviu um grito. “Vamos queimar a igreja!”. Aquilo o retirou de suas divagações. Tudo ao seu redor ganhou uma súbita claridade e definição. Se fosse da área médica teria identificado o efeito da adrenalina que havia sido despejada em sua corrente sanguínea como reação àquela blasfêmia.

José (Rossé) não era particularmente apegado aos ritos católicos mas se sentiu estranhamente movido por aquilo tudo. Resolveu atravessar a esquina e aguardar após a igreja. Os quitutes japoneses teriam que esperar.

Mais acima na rua caminhava alegremente Rúbio, um gigantesco professor de jazz, indo fazer uma apresentação beneficente para as crianças do hospital japonês atrás da igreja. Ele adorava aquilo e seguia assobiando e quase saltitante. Era um negão fortíssimo e dono de um coração de anjo. Viu mais à sua frente um senhor parado na calçada, hesitante.

Do outro lado da rua caminhava, cansado, Estéban. Já nos seus cinquenta, Estéban, o Magnífico, como era conhecido no museu, se dirigia para o trabalho no Museu Benjamin Vicuña Mackenna, que homenageava o herói da independência chilena que dava nome à rua. Sendo segurança do museu, ele portava em seu coldre de cintura uma poderosa Colt 1911, sua arma preferida. Já tinha atirado com uma das tão faladas Glocks austríacas e estas pareceram feitas para brincar de bangue-bangue. Era um sujeito sério e tradicional. Passou pelo grupo de vândalos quando eles saíam da frente do consulado argentino. Caminhou uma quadra junto a eles, do outro lado da rua. Aquela cena o deixou profundamente irritado. Começou a resmungar e seguiu caminhando. Um grito o despertou de seu devaneio sobre a estupidez da juventude. Tinha vindo da igreja.

Antes disso, na igreja, um pequeno drama se desenrolava. O pároco, monsenhor Pedro Narbona, iria receber a importante visita do Vigário episcopal, o presbítero Francisco Llanca. Pedro, o pároco, sabia que o vigário era uma figura enérgica, em seus cinquenta bem mais jovem que ele, que já estava chegando aos setenta. Como sempre acontece nas paróquias católicas, nunca havia dinheiro e tudo faltava. O velho monsenhor resmungava e ria de si mesmo, observando os efeitos ridículos das suas preocupações fúteis. Deus tudo provém, não é mesmo? Então o estimado vigário não irá reclamar de biscoitinhos meio passados. Uma pena só o vitral circular da fachada não ter sido reparado. Maldito vândalo que jogou aquela pedra. Que Deus o ilumine e não permita que eu saiba quem foi, pediu o idoso monsenhor.

De súbito ele percebeu um ruído meio fora do normal lá fora. Apreensivo, foi até a grande porta da frente e o que viu fez-lhe esquecer os biscoitos e ouriçar-lhe a barba branca. Um grupo dos piores degenerados que já teve o desprazer de observar estava bem ali na calçada. Agitados, berravam como animais. Muitas moças quase peladas, pintadas e feias como a peste negra. Homens de rastafari e camisas de Che Guevara, o assassino. Teria ele morrido e ido ao purgatório? O cheiro de álcool no lugar do esperado fedor de enxofre mostrou ao atônito monsenhor que ainda estava nesse plano material, cheio de agruras. Mas nunca tinha visto nenhuma agrura tão peluda quanto o suvaco daquela mulher que se esgoelava como se parisse uma capivara.

O que ela estava zurrando? Queimar a igreja? Logo hoje, com a visita do presbítero e tudo? Absurdo! Rápido como um senhor de 68 anos, o monsenhor Pedro fechou a grande porta, passou-lhe o ferrolho e foi até a porta lateral, que trancou por fora. Contornou a igreja e plantou-se determinado no topo dos degraus, à frente da porta. Se quiserem queimar alguma coisa hoje, melhor que seja a erva que carregam, porque essa igreja tem dono — pensou o resoluto padre. “Papagaio, nem perceberam que tranquei a igreja. E há quem diga que as drogas não afetam o cérebro.” — observou uma parte da mente do preocupado monsenhor, já com saudades de tempo longínquo quando se preocupava com a crocância dos biscoitos.

Finalmente a turba pareceu percebê-lo, na figura de cabelos azuis que urrava há pouco. A consorte do Vagabundo subiu alguns degraus da escada, ao que foi interrompida por um surpreendentemente potente berro proferido pelo sacerdote.

- “Paraaaaaaada!”

Aquele potente grito despertou um senhor do outro lado da rua, despercebido pelo atarefado religioso. A arfante sucúbica pareceu amedrontada e buscou o suporte dos seus pares. Algumas almas caídas subiram alguns degraus, com a coragem das fêmeas de codornas.

Bem ao lado desse cenário tenso, José deu um passo à frente. Foi detido por uma mãozorra negra que o segurou pelo cotovelo. José virou-se, a essa altura pronto para tudo e completamente esquecido de sushis e brigas frívolas. Diante de si um monstro de ébano indaga, com voz de trombone:

- “Vai subir lá?”

Por um momento o confuso José achou que iria ser agredido. Mas lembrou de seu catecismo, de todos os santos mártires da Igreja, e seu momento de dúvida se desvaneceu. Encarou aquele mamute negro nos olhos e respondeu, decididamente:

- “Sim.”

A resposta o deixou tão surpreso quanto feliz.

- “Vou também.” — rugiu simplesmente o gigante.

Vale dizer que o bom humor de Rúbio, o dançarino, havia se dissipado ao presenciar a singela cena do idoso padre se opondo a uma turba de animais. Furioso, deixou-se guiar pelo claudicante José (Rossé) muito mais para manter a calma que por qualquer tipo de deferência maior. No futuro se lembraria com orgulho daquele senhor tão bravo e tão decidido.

Deus tudo pode e parece que Ele quis que um alegre dançarino se transformasse num duro soldado. Pior para Seus inimigos, meu Pai — pensou o mastodonte humano. E seguiu o artrítico vendedor para se juntarem ao velho e resoluto padre.

O curioso dessa parte da história é que Rúbio envergava sua fantasia de Barney, trajando um collant roxo com uma cabeça risonha de dinossauro debaixo do braço. Aquela figura absurda chegou até o lado do padre Pedro, que pensou que, verdadeiramente, se um pato passasse voando por ele declamando a Ilíada, ele acharia a coisa mais normal do mundo.

Mas agora seu exército de Brancaleone tinha triplicado e o Barney prometia muita dor de cabeça para quem resolvesse ir às vias de fato.

Do outro lado da rua, o barrigudo segurança, tendo sua atenção requerida pelo desproporcional berro do velho padre, a tudo observava emocionado. Naquele momento um raio de Sol iluminou em cheio o padre na frente da Igreja. Parecia uma cena épica, o Bem desempenado e altivo fazendo frente à uma horda demoníaca, em números muito superiores. Ficou ali alguns segundos como se assistisse a um filme de domingo. Mas quando viu um senhor conduzindo uma figura gigantesca de roxo se lembrou de que não estava em seu sofá. Está para nascer o dia em que Estéban, o Magnífico, iria deixar que trinta agredissem três. Resmungou, inspirado:

- “Ora, porra!”

E atravessou a rua, as bochechas formigando de agitação. Ali, defronte da igreja, se opondo àquela borbulhante massa de incontinência mental, agora estavam quatro.

Nenhum dos quatro disse mais do que havia sido trocado entre o Barney africano e o vendedor de fotografias. Eles simplesmente tinham uma missão e esta havia preenchido toda a importância de suas vidas e sobrepujado até seu instinto de sobrevivência. Ali se encontravam quatro humildes e comuns cidadãos prontos para o que viesse.

A horda assistiu aquele inflar das hostes do Bem com o costumeiro desdém. Talvez ninguém ali tivesse tido a sobriedade de perceber a .45 na cintura larga de Estéban. O fato é que a flácida Hipólita depois do atropelamento por rolo compressor cacarejou um comando ao seu exército que, entupido até o tampo de toda sorte de entorpecentes, lançou-se ao ataque. Os trinta subiram berrando os degraus e ignoraram até o brado enfurecido de Rúbio, agora já aparentando ser o dinossauro de sua fantasia, de tão grande se tornara.

O que o primeiro incauto não pôde ignorar foi o tremendo soco que o irado Otelo de Santiago aplicou-lhe, curiosamente, na testa. Da mesma forma que vinha, o sujeito foi. Vinha acordado. Foi dormindo o sono da concussão craniana. Rolou até a base da escada sonhando com suas aulas de História, quando costumava falar da covardia dos cristãos.

A bravura dos quatro era algo digno de constar nos anais da moderna história da Igreja. Mas eram 29, afinal. Mesmo as suvacudas arranhavam e cuspiam num estilo que lembraria a mulher-gato depois da decadência. Mas ninguém podia pensar nisso, estavam agora apanhando e mesmo Rúbio estava sendo subjugado por cinco estudantes profissionais, habituados a carregar cerveja da geladeira para o sofá. Era um momento de dor e apreensão. Mesmo assim Estéban manteve sua arma no coldre, magnífico até nessa hora de desespero.

Os quatro Defensores, como mais tarde viriam a ser chamados, não puderam então perceber que sua heróica ação não tinha passado despercebida. Três pedreiros a caminho do ponto de ônibus viram tudo e correram em defesa da Igreja. Juntaram-se a eles um economista, um taxista que largou o carro no meio da rua, e mais uma pequena multidão que surgiu da indignação individual de um grupo de homens simples.

Atacados pela retaguarda a situação dos bárbaros logo se tornou desconfortável. Afora o primeiro otário que ousou provar o punho negro do Ares chileno, os demais tinham começado a gostar de bater na proporção de sete para um. Mas um professor de história não é páreo para um pedreiro. Ainda mais um professor sindicalizado. Marx teria alguma razão, afinal? Não, claro que foi sorte.

No meio daquela virada de jogo a alma funesta dos bandidos se revelou, como a serpente ao ser confrontada com o fogo. Um vagabundo sacou um revólver oculto em sua touca jamaicana e apontou para o padre. Imediatamente Estéban se livrou de seu oponente com uma feroz cabeçada e sacou célere sua 45. Apontou-a para a testa do jamaicano, que por sua vez apontava seu revólver para o padre.

Estavam num impasse. Correria ali sangue, nesse pequeno mas vital embate entre o Bem e o Mal? Teria o padre Pedro que dar sua vida em defesa da casa de Deus? O padre se ergueu, orgulhoso, e encarou a arma do salafrário. Que seja, pensou o padre. Mas é melhor que a arma desse safado não falhe pois senão perderei a vaga para o Paraíso.

E o bom padre viu, emocionado, o que parecia um milagre. Nossa Senhora se erguia por trás do seboso pistoleiro. Linda, em suas vestes azuis, com as mãos postas em oração e um halo circundando sua santa cabeça. E aquela bela visão se desfez quando a imagem caiu pesadamente sobre o crânio cabeludo do bandido armado, quebrando-se ao mesmo tempo em que incapacitava o pilantra. E quando caiu, o maconheiro revelou atrás de si ninguém menos que o Vigário! Vigoroso de fato, o vigário pegou o revólver caído, subiu os degraus que faltavam e sustentou o padre num abraço fraterno. Ao olhar para a escada o vigário viu que a vontade de brigar dos revolucionários havia sumido junto com a fragorosa vantagem numérica.

Naquele momento todos olharam para ele, autoridade inconteste, ainda mais depois de abençoar um bandido de forma tão contundente. Então ele, homem usualmente de poucas palavras, declarou seu veredito:

- “Baixem o sarrafo nesses desgraçados mas não matem ninguém. Vieram pintar de vermelho a casa de Deus. Que só tenham isso em seus corpos.”

O que se seguiu foi uma surra que se tornou conhecida em todo o Chile. Os sindicalistas, que antes urravam como se fossem uma cabeça de Cérbero agora gritavam fino como uma ambientalista sueca. A vontade do poderoso vigário, todavia, foi respeitada, e ninguém morreu naquele dia, só o mito da covardia cristã.

O povo, após aplicar a merecida surra nos discípulos do coisa ruim, os despiu, quando necessário, e os pintou de vermelho com as tintas que eles mesmos haviam trazido. Algumas algemas e cordas foram produzidas e amarraram pulsos a tornozelos, formando um grotesco e desequilibrado trem demoníaco.

Como de costume, após o desfecho das hostilidades os carabineros chilenos chegaram ao local. Espantados com o acontecido, interpelaram a multidão querendo saber o acontecido. Ninguém declarou ter visto nada. O padre e o vigário se recusaram a falar.

O capitão dos policiais então resolveu perguntar a um dos poucos “demônios” acordados. Este olhou ao seu redor e se deparou com o olhar calmo e duríssimo dos quatro defensores de Asunción.

E ele respondeu:

- “Não houve nada. Fizemos um protesto pacífico aqui na frente da igreja”.

Os carabineros soltaram os manifestantes e ordenaram que fossem embora. Uma voz gritou:

- “Cerveja por minha conta na Taverna Fugitiva!”

Esse era um bar famoso que ficava ali perto. O coro que se seguiu rivalizou com o berro sobrehumano do monsenhor. Foram todos. O economista disse que aceitaria a primeira rodada de brinde do proprietário mas que as seguintes seriam pagas por ele.

E lá se foram aquelas quinze figuras, antes desconhecidas, fúteis, talvez, singelas com certeza. Agora irmãos em armas, heróis da Igreja. Ao fundo, atrás deles, o Sol se punha, em chamas. À sua frente, o orgulho e a glória dos justos e dos bravos.

Muitos brindes foram feitos naquela noite mas ninguém foi mais aplaudido que aqueles quatro heróis que dispuseram suas vidas pelo que é justo. Pedro, o padre. José, o vendedor. Rúbio, o dançarino. Estéban, o Magnífico.

Quatro heróis do Chile e de toda a Cristandade.

  Por Eduardo Vieira para o Tribuna Diária