Sensações de uma sobrevivente do COVID...

Sílvia Maria da Rosa Ramos, Enfermeira, Especialista em Saúde Coletiva, colaboradora do jornal Tribuna Diária

Por Sílvia Maria da Rosa Ramos 08/11/2020 - 12:48 hs

A história dessa doença é a seguinte...

Em uma cidadezinha no interior do RS, morava um rapaz sedentário, Mundinho como era chamado, estava entrando em processo de obesidade, alertado pelo médico e já com medo das doenças que poderiam lhe acometer devido a isso, como hipertensão, cardiopatias e diabetes, resolveu começar a praticar exercícios. Como ele não tinha conhecimento de causa e não estava acostumado, iniciou com uma cavalgada... então pegou o seu cavalo que  “igual o dono” era sedentário e saiu estrada a fora, numa linda, ensolarada e muito quente tarde de verão.

Só que, como o asfalto ainda não tinha chegado naquela região, a estrada era de chão batido.

Emocionado, o agora, praticante de esporte, montou em pelo e colocou o seu cavalo pra correr, galopeando feito louco naquela estrada. Já muito cansado com aquela loucura do dono, o cavalo relinchou, deu uns coices no ar, uns corcovos e terminou derrubando Mundinho. O tombo deixou o rapaz com muita dor no corpo, o pobre chegou a pensar que havia inclusive sofrido traumatismo craniano, tal era a dor de cabeça. Quando conseguiu reunir forças tentou montar novamente, só que o cavalo cansado daquilo, saiu em disparada... o rapaz por sua vez saiu correndo atrás, engolindo toda a poeira que o cavalo fazia na frente. Mundinho, já esbaforido, com enorme falta de ar com a sensação de haver engolido toda a poeira do trajeto, conseguiu alcançar o cavalo, tentou montar novamente, o que deixou o seu quadrúpede com tanta raiva que desta vez o cavalo não só o derrubou como também, aproveitou suas ferraduras novas e pisoteou seu tórax com muita força... a dor no peito foi tão forte que deixou o rapaz ali, estirado no chão, desacordado, inconsciente, praticamente à beira da morte...

Por esses tempos, havia boatos na região que há alguns meses, havia chegado na cidade, um chinês muito estranho, sério e com cara de “poucos amigos”, só se comunicava com quem lhe convinha. O mesmo ganhava a vida contrabandeando carnes ‘exóticas’ para não dizer sinistras, para vender nos açougues.

E adivinha quem estava passando bem na hora que Mundinho estava quase morto naquele chão de estrada empoeirada???  Ele próprio, “seu Senconvit”, como era conhecido o estranho chinês, foi aí que o maldito, vendo aquela cena à sua frente, teve uma ideia.... - Vou levar esse moribundo para o meu galpão clandestino, penduro-o no gancho pelo tórax, se morrer, carneio e levo para vender no açougue como carne de anta.

Só que seu Senconvit, que não era cristão, não contava com a força de Deus!..

Ao chegar no galpão e ser erguido o rapaz conseguiu aos poucos se acordar, tamanha era a dor que sentia na ponta superior dos pulmões, que foram atingidos em cheio pelos malditos ganchos do chinês. Como a ajuda exclusiva do Santíssimo, aos poucos Mundinho foi recuperando suas forças... pequeno pedaço dos pulmões foi atingido pelos ganchos, mas ainda bem que foi só a parte que afeta o olfato, tanto é que nunca mais conseguiu sentir o cheiro das coisas como antes, causando, por consequência, um pouco de falta do paladar, mas, pensando bem, dos males o menor....

O rapaz ainda muito mal, há três dias com febre alta e nas mãos de seu Senconvit, tinha a sensação que iria morrer brevemente, foi então que decidiu que precisava sair dali, e logo...

Depois de muito sacrifício e resistência de alguns outros animais, que estavam na mesma situação que ele, a maioria asnos, principal alvo de caça do chinês, o rapaz, durante uma noite macabra e chuvosa, felizmente conseguiu escapar. Após passar por muita dificuldade na estrada lamacenta, ao raiar do dia, Mundinho alcançou a farmácia da cidade. Foi então que o prestativo farmacêutico, senhor honesto e trabalhador, que atendia pelo nome de Dr. Bomsoumaro, socorreu-o e cuidou de seus ferimentos com as medicações corretas, pelo tempo necessário, salvando-lhe a vida!!!!

 

Sílvia Maria da Rosa Ramos, Enfermeira, Especialista em Saúde Coletiva, colaboradora do jornal Tribuna Diária.

 

Ps: No artigo descrevi minhas sensações durante a doença e a busca do combate ao vírus.  O resto... o resto é ficção, qualquer coincidência é mera semelhança.