Última flor do Lácio

Nossa Língua Portuguesa - Romana de Castro

Por Sileno 08/11/2020 - 14:54 hs

Junto ao portão

 

Em uma manhã muito agradável, estava eu junto ao portão de minha casa. O sol já se impunha pleno, mas a temperatura estava amena, pois havia chovido durante toda a noite, praticamente. Enquanto apreciava esse momento de contemplação da natureza, escutei, involuntariamente, a conversa de duas vizinhas, na casa junto à minha.

 

Espere um pouco! Falei a expressão “junto a” duas vezes, então, cabe abrir um parêntese aqui. Essa expressão, às vezes, pega-nos de surpresa, quando estamos escrevendo. Pois vejam:

 

Junto a, junto de: locuções prepositivas que nos remetem ao significado de “perto de”, “ao lado de” ou “próximo a”. E, ainda, “junto a” nos casos em que esta representa a condição de “adido”, como no exemplo hipotético: “representante do Brasil junto à Comissão Internacional do Meio Ambiente”. Portanto, em situações em que as partes mencionadas não se enquadram nesses exemplos, em circunstâncias em que estão, digamos de forma bem informal, em lados diferentes, outras preposições são mais adequadas: Relações financeiras com o banco (em vez de: junto ao banco); Entrar com um recurso perante o tribunal (em vez de: junto ao tribunal); O produto teve boa aceitação entre os consumidores (em vez de: junto aos consumidores). (1)

 

Mas, voltando ao meu portão, as minhas duas vizinhas conversavam e pareciam preocupadas. E aqui abro outro parêntese: as pessoas andam muito preocupadas em nossos tempos. Tudo bem que a mídia fervorosa despeja toneladas de aflição em nossas cabeças diuturnamente, mas precisamos manter a calma. E digo isso, apesar de tudo. Portanto, o diálogo já estava no seguinte pé:

 

– É inacreditável mesmo! Onde vamos parar assim?

– Não sei, minha amiga, mas não será em bom lugar. Imagina? Como ficarão os livros desse jeito? Enquanto estiver somente nas correspondências, tudo bem! Vá, lá! Basta não prestar muita atenção, não é mesmo? Mas imagina um romance inteirinho escrito dessa forma? Já pensou? Não, não vejo como. Impossível!

– Então, posso até imaginar: Os irmãos Karamázov (2) escrito assim... Eu não teria entendido uma vírgula dele! Bom Deus! E é um livro maravilhoso! Sim, e o pior é que não resolve o “problema” deles, continua tudo como está. Na prática, na vida real, tudo fica exatamente como está.

– Não fica. Na prática, o “problema” deles não melhora em nada, mas pode piorar muita coisa... Para outros assuntos, quero dizer. E ainda dizem reconstruir, modernizar. Pensa?!

– Eles usam essas palavras bonitas: progresso, democracia, modernidade, reconstrução, para enganar trouxas. Destruição deveria ser a palavra, se fossem pessoas honestas, mas já provaram que não o são.

– Sim provaram para nós, mas para outros por aí...

– Olha, é o professor Vasco* que está junto ao portão! Vamos falar com ele? Ele é professor de português, saberá dizer se isso que estão propondo é possível ou não. Na verdade, é um absurdo, mas vamos ouvir o mestre.

 

Percebi que vinham na minha direção. Percebi mais: não estaria a salvo de uma discussão polêmica, mas, atualmente, com tanta guerra de narrativas, quem está?

 

– Bom dia, caras vizinhas!

– Bom dia, professor! Estávamos conversando sobre um assunto que, talvez, o senhor já tenha ouvido falar: querem que as palavras sejam neutras agora, sem masculino ou feminino. Eu mesma recebi um e-mail de uma loja que começava assim: “Bom dia, senhore!” Pode isso, professor?

 

Achei graça de sua indignação, mas respondi com tranquilidade:

 

– Não compre mais lá!

– Pode apostar que não! Há de haver lojas onde ainda se encontra a sensatez.

– Vou abrir uma! Então, mas falando sério, são apenas modismos tolos, não se sustentam. Vejam bem, no português, o feminino e o masculino não são para designar o sexo de alguém, somente. Lembro-me bem de um professor inglês, meu amigo de longa data, que fazia chacota comigo por causa disso. Ele dizia: “Como pode ser esse língua louco, cadeira não tem sexo, banco não tem sexo, são coisas, it, não são pessoas. Agora vocês ficam dizendo ‘a cadeira’, ‘o banco’. Isso é muito confusa.” E ele tem razão, sob esse aspecto, o português é justamente uma língua que não faz distinção de sexo ou predileção de relações amorosas, para usar o feminino e o masculino; e, ainda, nem sempre será o “o” ou o “a” que vai determinar o masculino ou o feminino. Notem, até o “feminino” é uma palavra masculina. Caíram na gargalhada.

 

Então, voltando ao seu e-mail, a mente brilhante trocou o “a” de senhora pelo “e”, achando que estava ascendendo às estrelas da genialidade, não é mesmo? Até posso imaginá-lo (seja ele ou ela, não sei esse detalhe, e isso tanto faz, como tanto fez) deleitando-se com sua proeza. Sou até capaz de apostar que disse em voz alta: “Nossa! Sou um gênio! Neutralizei o sexo dessa dona!” Pobre criatura! Esqueceu-se de neutralizar o “Bom dia”. E aí como seria? Bone die, senhore!

 

Viram? Não há com que nos preocuparmos. Essa turma não será capaz intelectualmente de “reconstruir” nada. Eles esbarram em suas próprias barreiras. Agora, vocês duas estão certas, a vigilância é sempre a mão segura que nos impede de cair no abismo. Debater, conversar, quem sabe? Talvez alguns se convençam de que estão apontando para o alvo, mas com a mira desregulada.

 

Elas riram, ficaram satisfeitas. Diria, aliviadas. E eu fiquei cá com os meus botões: qual a necessidade de se complicar a vida, assim? O que querem esses que sonham em sabotar todo o conhecimento humano acumulado por milênios? Será apenas cegueira causada pela gana desenfreada pelo poder e dinheiro? Provavelmente, sim. Uma coisa é certa: ajudar minorias ou maiorias é que não é.


     Romana de Castro 



------------------------------------------------------------------

(1)     https://blogs.correiobraziliense.com.br/dad/junto-a-naoooooooo/

(2)     Os irmãos Karamázov, de Fiódor Dostoiévski, Editora 34, é a minha dica de leitura de hoje.


Romana de Castro

(Especialista em revisão de textos pela PUC/MG, revisora e diagramadora de artigos científicos, revistas e livros)

 

*******

 

*Em homenagem ao meu pai, Vasco Fernandes de Castro (1936-2006)

 

(3)     https://migalhas.uol.com.br/coluna/gramatigalhas/19898/junto-a