Última flor do Lácio

Nossa Língua Portuguesa - Romana de Castro

Por Romana de Castro 29/11/2020 - 14:38 hs

  • O mesmo
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  • “Ele ficou lá, tentando apagar o fogo de seu rosto (sua excitação) com seu copo d’água, a comparação entre o orador e a multidão de rostos atentos voltados para ele revelava ao extremo a desvantagem deste (desvantagem do orador em relação aos ouvintes). Ao julgar a evidência da natureza dele (o orador, neste caso, o representante de um sindicato de operários de uma fábrica), este estava um pouco acima, muito pouco, da massa de espectadores, porque estava em pé no palanque. Porém, sob muitos e distintos aspectos, ele estava essencialmente abaixo deles (dos ouvintes, neste caso, os trabalhadores da fábrica). Ele não era tão honesto, ele não era tão viril, ele não era tão bem-humorado; em vez de sua astúcia (do orador), havia nos ouvintes simplicidade; em vez de sua paixão (do orador), havia nos ouvintes o sólido e seguro bom-senso.”
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  • Fechei o livro e o trouxe junto ao meu peito, ao meu coração; e, sem que pudesse conter o meu estado de espírito elevado por aquelas palavras (mais pelo conteúdo, pela ideia, do que pelas palavras), suspirei em alto e bom som. Emanuel se aproximou:
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  • – Nossa! Vejo que esse é dos bons! E riu com desprendimento.
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  • Olhei para ele e ri também: – É Dickens, Emanuel. E é fantástico. Que visão! Uma visão firme, mesmo em uma situação em que se fica em dúvida, porque as opções, as saídas para resolução do problema não são muitas, não são satisfatórias. 
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  • Emanuel riu de novo: – Entendi nadinha, nadinha.
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  • – Bom, neste livro (1), Dickens apresenta uma situação em que a ganância do dono da fábrica tem como consequência uma legião de operários miseráveis, que são realmente explorados, mas que, mesmo assim, são, em sua maioria, pessoas boas, conscientes, inteligentes e honestas. Porém, esse tipo de situação gera um campo fértil para aproveitadores que se dizem os salvadores, os confiáveis, aqueles que somente querem o bem do povo, sabe?
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  • – Já vi alguns por aí... Falou com graça Emanuel.
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  • – Pois é, esses mesmos. Então, eles aparecem nessas horas, entende? No momento em que as pessoas estão sofrendo, para prometer o equilíbrio, a igualdade, um mundo maravilhoso de cores. Porém, Dickens era tão sensacional que expõe o mal da ambição desenfreada do dono da fábrica, mas, ao mesmo tempo, já deixa bem claro ao leitor que os oportunistas (camaradas, como se autodenominam esses membros do sindicato que aparecem na estória do livro) não são, de modo algum, a solução. E, ainda, escreve que é estranho que uma boa parte de pessoas que estão intelectualmente e moralmente acima desse tipo de “líder” lhe deem ouvidos, aplaudam-no. Não é fantástico?!
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  • Com o semblante sério, Emanuel me responde: – Sim, e digo mais: a literatura não é uma fábrica de sonhos como alguns dizem; ela traz a realidade e esfrega em nossas caras. E é sempre atual, parece que o ser humano não muda, não aprende nada.
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  • – Aprende, Emanuel, aos poucos, mas aprende. Nós mesmos ainda vamos ver muita gente começando a pensar, a analisar e a parar de seguir salafrários por aí. Na verdade, já estou vendo muito disso nesses últimos meses, aqui mesmo, no nosso país. E olha que eu já estava sem esperanças.
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  • Nisso, chegaram, ao Café do Emanuel, dois senhores e pareciam também estar em uma profunda discussão. O mais velho dizia:
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  • – Acho difícil as pessoas não verem. Pelo menos a maioria vê. Quando uma pessoa está seguindo uma linha de moral e comportamento e, por circunstâncias externas, começa a defender outra completamente diferente, ou a mesma já era assim e estava fingindo para conseguir ganhos pessoais, ou realmente age conforme a ocasião, para tirar proveito, para fins altamente egoístas.
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  • – Sim. Também não acho que seja verdade o que ele diz: que foi enganado, que não sabia o que estava fazendo. O mesmo é adulto, estudado e sabia muito bem de tudo que o rodeava. Tomou o caminho errado sabendo disso. Já deixa claro sua desonestidade intelectual ao defender pautas indefensáveis, ao ficar ao lado daqueles que são visivelmente aproveitadores. Só nos resta uma conclusão: ele é também um aproveitador, um alpinista social. Fingiu defender o certo para conseguir notoriedade. E conseguiu! Usando seu cargo público ainda por cima.
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  • – Pois é, meu caro, basta usar o bom-senso e a razão: aqueles que estão todos os dias dando entrevistas aos jornais; querendo aparecer a todo custo; preocupados com narrativas e mais narrativas; dando opiniões vazias sobre os últimos acontecimentos; querendo imputar a outros culpas que jamais eles tiveram; vomitando soluções totalmente impossíveis e inviáveis a toda sorte de problemas sociais, e isso só para se dizer o bom, são, na verdade, os piores, gente que não merece nenhuma confiança. Mal terminam de falar e já nem sabem o que falaram. Era somente para causar.
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  • – É verdade! Enquanto isso, vemos com os nossos próprios olhos, não é ninguém inventando nada, que outros estão trabalhando duro para reconstruir o Brasil, estão tentando com afinco corrigir milhões de coisas erradas do passado, estão devolvendo ao povo mais carente, aos poucos e com muita luta, a sua dignidade. Sim, porque mendigar até por água é um absurdo incalculável. Ainda mais em um país riquíssimo em água. É inadmissível para nós um dia que ficamos sem água. Agora para o pessoal do sertão nordestino é esse descaso. Parecia que não era direito deles ter água tratada em casa. Foram abandonados à própria sorte por séculos. Lembrados apenas na hora de dar o voto, é claro.
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  • – O absurdo dos absurdos! Revoltante! Ainda vêm alguns por aí para desprezar a importância dessas últimas mudanças em nosso país. Eles sabem muito bem o que significam todos esses benefícios, mas mentem que o governo não está fazendo nada. Fazem de tudo para tentar enganar o povo e encobrir o ineditismo de um Estado atuante no Brasil: um governo que devolve o dinheiro dos impostos em forma de benesses à população.
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  • Sim, meu amigo, mas o povo vai acordar. Ah, se vai! Muitos já acordaram. Muitos outros acordarão e perceberão em quem podem confiar, quem devem apoiar. E, falando em acordar, vamos tomar nosso café, he-he. Emanuel! Faça o favor, Emanuel!
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  • Antes que Emanuel fosse atendê-los, puxei-o pela manga da camisa e cochichei: – É parecido com o que falávamos, Emanuel. O que acha, hein?
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  • Os olhos de Emanuel brilharam: – Fiquei mais esperançoso! E deu aquele seu sorriso largo.
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  • – Mas só mais uma coisa, Emanuel: não aprenda esse uso ruim da palavra mesmo: o mesmo fez isso, a mesma fez aquilo. Na-na-ni-na-não! Isso causa muita confusão.
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  • Emanuel riu com gosto. É bom rir, é muito bom rir.
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  • Mesmo, mesma, mesmos, mesmas: são usados em várias situações, como se observa nesta crônica, mas seu uso para substituir “ele” ou “ela” pode causar muita confusão, deixar o texto feio e pobre. E não há a menor necessidade disso. Pois vejam:
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  • Eduarda e Maria chegavam da escola. Elas pareciam contentes (em vez de “as mesmas pareciam”).
  • O padeiro abre a sua loja às 7 da manhã, ele precisa acordar bem cedo (em vez de “o mesmo precisa”).
  • O pai se dirigiu ao filho com severidade, o segundo tinha faltado à aula para brincar com seus colegas (em vez de “o mesmo tinha faltado à aula”).

  •      Romana de Castro 
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  • (1)    Hard Times (Tempos difíceis), de Charles Dickens, é a minha dica de leitura de hoje.