Indo contra uma “vaca sagrada”

Pode o trabalho de um cientometrista ajudar no desenvolvimento do Brasil?


Em 2007 publiquei um estudo em uma revista inglesa mostrando que havia uma relação entre o impacto da ciência, medido em citações por publicação (CPP) e o investimento em pesquisa e desenvolvimento (P&D) em termos de percentual do PIB (Link 1).

Dois resultados importantes se evidenciaram. 1. A relação exposta em gráfico seguia uma curva saturante, indicando que há um limite de quanto que o dinheiro pode fazer para melhorar a efetividade da ciência. 2. Percebi ainda que os pontos fora da curva, sendo cada ponto representativo de um país, mostravam mais claramente que o dinheiro realmente não era condição absoluta para a melhoria da ciência.

Isso porque países, que gastavam mais em P&D e que apresentavam resultados em P&D similares ao Brasil, como Espanha, Itália e Irlanda, obtinham valores do CPP muito melhores que nós.

Esses resultados “jogaram meu nome na lata do lixo” do conjunto composto por MEC, CAPES e MCTI, pois eu estava indo contra uma “vaca sagrada” da narrativa da esquerda: que o Brasil investia pouco em P&D, e que por isso éramos subdesenvolvidos. Entretanto, qual seria a solução, segundo a visão de esquerda? Gastar mais. E de fato o Brasil passou a gastar mais e mais em P&D. E qual o resultado? Passamos a publicar mais, em quantidade. Porém nosso impacto científico despencou entre 2007 e o presente momento.

Publiquei um artigo neste ano de 2019 com valores de CPP de 2016 de vários países e dados de 2018 que atualizou o estudo de 2007. Abaixo a atualização das informações: os resultados de 2007, gráfico da esquerda, o CPP de 1995 a 2005, divulgados em 2019 (Link 2) no gráfico da direita. Para quem estudou direitinho matemática no ensino médio, percebe que os dois gráficos mostram resultados com a mesma tendência. Há uma saturação do efeito do gasto em P&D em relação ao PIB (mostrado como “GERD” no gráfico de 2007) em relação ao CPP. Por exemplo, Israel gasta 3,5 vezes mais que nós em P&D, mas seu CPP não é proporcionalmente maior.



Os números 8, 18 e 21 no gráfico de 2007 indicam Espanha, Itália e Irlanda, que gastam em termos de P&D em relação ao PIB praticamente o mesmo que o Brasil – indicado como BR (atenção, curiosos, o número 23 é Israel). Esses mesmos países estão representados no retângulo vermelho no gráfico de 2019; tais países apresentam maior CPP que o Brasil. Outros países estão no retângulo vermelho, como Portugal e Estônia. O gráfico ainda contém um retângulo verde, com países que investem MENOS que o Brasil, mas apresentam melhores resultados em CPP. Exemplos: Chile, Arábia Saudita e Argentina. O Qatar também estaria no quadrado verde caso estivesse plotado, ou seja, presente no gráfico.

Avanços na cientometria !

Tendo em vista que países “anômalos” são muito interessantes como fonte de estudo, resolvi escrever sobre eles. Junto com o Fabiano Borges, nos debruçamos a estudar a história científica desses países, assim como analisar suas economias e universidades. Publicamos assim uma trilogia de artigos sobre Estônia, Qatar e Arábia Saudita (Links 3, 4 e 5).

A história da Estônia é particularmente interessante, pois é um país sem recursos naturais e pobre, que saiu da União Soviética nos anos 90. Em pouco tempo, evoluiu para uma nação exemplar em gestão pública fruto de forte desburocratização, grande inovação tecnológica e evidente avanço econômico. Em 2015 já disputava os primeiros lugares do mundo em impacto científico (Link 3).

O Qatar também saiu da pobreza, nos anos 70, e se transformou na nação mais rica do mundo (em PIB per capita) graças ao desenvolvimento da tecnologia da liquefação do gás natural para exportação. O que impressiona é o fato de o Qatar investir apenas 0,5% do PIB em P&D, menos da metade do Brasil (Link 4).

Resolvemos ainda analisar a cientometria de Portugal (em comparação com o Brasil, ambos países de língua portuguesa), e entender como está sua pesquisa acadêmica em Humanas, Ciências da Vida e nas áreas da Saúde (Links 6 e 7). Ficamos chocados com o baixo impacto das nossas publicações em Humanas, onde todas áreas ficaram muito abaixo de Portugal (Link 6).

A figura abaixo (produzida pelo Prof. Emanoel Barros, UFPE) indica o rank score, ou seja, tabela comparativa, de impacto das publicações nas quatro áreas de Ciências Humanas do Brasil e Portugal. O valor de rank score brasileiro nas áreas das Ciências Humanas foi 0,5 (muito baixo!); Portugal ficou com 5,2 – uma diferença de mais de dez vezes!


Nas Ciências da Vida e nas Ciências Exatas ficamos também abaixo de Portugal, mas com diferenças não tão grandes como em Ciências Humanas (Links 7 e 8). As linhas pretas nos gráficos abaixo mostram o rank score médio para as Exatas e as Ciências da Vida.


Avaliamos ainda este ano as áreas de pesquisa em Educação (Links 9 e 10), Saúde Pública (Link 11), Sociologia (Link 12), História (Link 13) e Astronomia (Link 14). Ajudamos os jornalistas da Gazeta do Povo com dados cientométricos sobre pesquisa em Direito e em Ciência Política (Links 15 e 16). Fizemos ainda uma análise sobre a Química (estudo preliminar), que foi apresentada ao Presidente Bolsonaro (Link 17). De todas as áreas que analisamos, a única que mostrou bons resultados de impacto da pesquisa brasileira foi Astronomia (Link 14). Ufa! Há outras áreas específicas que o Brasil vai bem, mas não pudemos estudar em detalhe. Ficarão para o ano de 2020 estudos aprofundados sobre Medicina, Química e Engenharia.

Falamos bastante sobre dinheiro e investimentos (Links 2, 18, 19 e 20). Comparamos Brasil com países da América Latina – não estamos melhores que nenhum país relevante em nosso continente em impacto científico, exceto Cuba e Venezuela. O Brasil aumentou seus gastos em P&D, de 1% em 2006 para 1,3% em 2015 (Link 18). Nos distanciamos bastante de outros países em gastos em P&D (vide comparação do Brasil com cinco países do continente). Apesar disso, o impacto de nossa pesquisa caiu!

O rank score de impacto das publicações do Brasil chegou a 3,9 (um valor que não é grande coisa!) em 2005, mas caiu para 1,4 em 2018 (Link 17). O valor atual em investimentos em P&D deve estar ao redor de 1,2% do PIB, que equivale a cerca de 100 bilhões de reais. É um valor considerável para pesquisa científica e tecnológica!




Trabalho de colunista !

Minha inserção no mundo das colunas de jornal se iniciou com o querido Paulo Briquet, da Folha de Londrina. Foi na coluna do Paulo que mostrei os primeiros números cientométricos de 2019, em fevereiro (Link 21). Nos dias seguintes saíram outros artigos na Gazeta do Povo (Links 2 e 22) e Correio Braziliense (Link 23).

Agradeço a Denise Drechsel por me oferecer um espaço na Gazeta (Link 24) e o Prof. Paulo Kramer pelo incentivo em publicar no Correio. Alguns meses se passaram e conheci o jornalista Orlando Morais Jr. por causa do movimento Docentes pela Liberdade. Ele me convidou para escrever uma coluna quinzenal em seu jornal de Cuiabá – O Livre.

E cá estamos, trabalhando duro para contar a realidade sobre nossa pesquisa universitária, que tem sido omitida propositalmente há mais de 15 anos por governos de esquerda e pela grande imprensa.Tem sido divertido esse trabalho todo. Incluindo o presente artigo, foram 21 publicações no O Livre em 2019. Não posso deixar de mencionar um antigo com minha esposa Aline Loretto (sobre Doutrinação de esquerda nos cursos de graduação em História; Link 25) e outro sobre a Teoria do POS (“´preparo para o estresse oxidativo”, meu tema de pesquisa; Link 26). Abaixo um print do artigo de Aline.