SPITFIRES EM BARRA MANSA

sobrevoando as tropas, seguíamos céleres enquanto a sombra de nossas asas projetadas no solo, espalhavam segurança e esperança para todos aqueles indefesos guerreiros.

Por EDUARDO VIEIRA PARA A REVISTA TARGET 14/02/2021 - 15:14 hs

Feriado de Carnaval, hora de pegar a estrada com as crianças. No Rio de Janeiro uma viagem de carro é uma experiência antropológica, onde o pior do homem aflora com a pujança desavergonhada dos canalhas. Ultrapassagens pelo acostamento, fechadas, vendedores pendurando produtos nos carros, cafuringas se arrastando na pista de velocidade. É um circo de horrores onde a boa vontade se dilui num oceano de iniquidades e extrema grosseria.

Mas a vontade humana é uma força tremenda, quase indomável. Que se percam no esquecimento os pobres de espírito, imerecedores de atenção maior que uma reclamação numa abertura de texto. Valorizar o Bom, o Belo e o Verdadeiro é também um exercício de vontade. Tornando os iníquos uma mancha cinza na minha percepção, um ruído branco facilmente ignorável, o que tem valor apareceu.

Desta feita foi na forma de um carro simples, um modelo hatch branco, aparentemente um veículo oficial da Prefeitura de Barra Mansa. Estávamos ainda a mais de uma hora de lá, recém-libertos de um engarrafamento sinistro. O sujeito veio rápido e pediu licença. Abri passagem e observei que ele andava bem no limite do meu envelope de segurança e resolvi acompanhá-lo. A cordialidade do motorista era evidente, sinalizando nas ultrapassagens e também nas situações de stress no caminho, numa evidente preocupação com o próximo. Resolvi seguí-lo. Numa hora dessas prefiro enxergar os demais como aliados numa missão e não como competidores ou atores frustrantes de uma peça pessimista onde a raiva é a única emoção permitida.

Posicionei meu carro como um Spitfire* em formação e logo não éramos mais dois viajantes na estrada mas dois pilotos em missão de patrulha e defesa do espaço aéreo.