A TUTELA JURÍDICA DA MENTIRA

A Verdade, coitada, já não tem o mesmo prestígio de antes...

Por Thiago Dias da Cunha 15/02/2021 - 20:48 hs

Quem diria?

O ramo do conhecimento humano que se dizia mais apegado às virtudes, o Direito, depois de milênios de evolução, acolheu em seus braços a rainha dos vícios. Sim, ela, a Mentira.

Desde que Moisés desceu do monte com um escrito em pedra gravado com, entre outras coisas, 'não dirás falso testemunho contra o teu próximo' especulava-se que nunca haveria conciliação entre o Direito e a Mentira. Afinal, sem a companhia da Verdade, inimiga da Mentira, como o Direito chegaria a resultados justos?


Mas a Verdade, coitada, já não tem o mesmo prestígio de antes. Os jurisconsultos contemporâneos limitaram a sua colaboração com o Direito.

O problema é que, com frequência, a Verdade não convém. E o costume em voga, imposto por mentes elevadas e iluminadas, é que a Verdade só pode servir de amparo ao Direito quando for conveniente.

A Verdade, com sua grosseira sinceridade, já é vista com desconfiança em ambientes sofisticados e prudentes. Afinal, ela machuca, expõe, desagrada, contraria e derruba narrativas.

A Mentira, ao contrário, sabe ser conveniente. E como sabe. Tem grande habilidade de falar o que agrada aos ouvidos mais sensíveis.

Só que nessa história toda, de novas parcerias e antigas amizades desfeitas, quem saiu de banda foi a Justiça, que nunca suportou a Mentira.

 

Ai dos que ao mal chamam bem e ao bem,
mal; que fazem da escuridade luz e da luz,
escuridade; põem o amargo por doce e o doce, por amargo!
Ai dos que são sábios a seus próprios olhos e prudentes em seu próprio conceito!
Ai dos que são heróis para beber vinho e valentes para misturar bebida forte,
os quais por suborno justificam o perverso e ao justo negam justiça!


  Thiago Dias da Cunha

Juiz de Direito do Tribunal de Justiça do

Rio Grande do Sul