EDITORIAL

O que esses 364 deputados têm em comum com Judas ou Silvério dos Reis? Nada.

Por Sileno 20/02/2021 - 17:02 hs

Apequenado, o congresso cuja única grandeza da atual composição vem sendo a rematada mediocridade jamais vista desde a fundação desta casa, mostrou-se ontem no esplendor de sua infâmia, entregando orgulhosamente a cabeça de um colega ao carrasco em nome de um republicanismo que relutou esse tempo todo em cortejar.

Para quem se lembra de um “07 x 01” como a combinação áurea de números para expressar uma vergonha nacional, eis que surge outra que jamais deverá ser esquecida, para demonstrar o quão frágil a democracia é!

364 nomes que fariam Joaquim Silvério dos Reis corar de vergonha diante dos companheiros de infâmia, contra 160 colegas que olhavam atônitos, sem acreditar no espetáculo fúnebre que presenciaram, de uma instituição que mesmo imperfeita, cumpriu com seu dever em momentos dramáticos da política nacional.

Prestaram homenagens a traição começando  pelo relatório lido pela deputada Magda Mofatto apresentando parecer favorável à manutenção da prisão do deputado Daniel Silveira, que talvez mereça lugar de destaque na Biblioteca Nacional para servir de exemplo às futuras gerações, do quão lamentável pode ser a esquizofrenia daqueles que acreditam no politicamente correto em que palavras machucam e se sobressaem aos atos em concreto, para que aquelas entendam, com a infâmia desta, o porquê um gesto vale mais do que mil palavras.

O que se formava nas entranhas do dia da infâmia era o imbróglio de um consenso inimaginável entre partidos políticos para acalmar a fera que poderia eventualmente devorá-los por conta de alguma operação da Federal.

Sigamos com o cortejo, digo, a sessão...

De acordo com a Constituição Federal, deputados e senadores são invioláveis, civil e penalmente, por opiniões, neste caso os autos são remetidos à Câmara ou ao Senado para que a maioria absoluta da Casa (pelo menos 257 deputados) decida, em voto aberto, o destino do colega.

Isso - e não por acaso - é a única atitude a exigir daquela casa. Um deputado só pode ser julgado no exercício de sua imunidade pelos seus pares, e ao cabo, por seus eleitores, visando garantir a independência do poder legislativo em face de pressões externas e a manutenção da ordem do estado democrático de direito. Essa é a salvaguarda do cidadão a garantir que sua vontade seja soberana e minimamente respeitada, fazendo ouvir sua voz literalmente através de seu representante.

Cometeu-se ali, o pior dos assassinatos, se Cesar Augusto, traído pela inveja e a mesquinharia de seus pares, morrera a punhaladas de seus iguais, sejamos justos, Daniel Silveira jamais poderia representar o papel... Grosseiro, inconveniente e quase sempre medíocre no exercício do mandato, teve por simulacro da grandeza a ausência dela entre os seus.

Mas, lembrando Pontes de Miranda, excelso magistrado de tempos bem mais felizes daquela suprema corte, nem todos os crimes são previstos em leis, há outros tantos que mesmo não  tipificados, continuam espalhando sua infâmia pelo tempo, especialmente os que atentam contra a lógica e a moral de um povo.

Portanto restou sim, dessa barbárie, não o corpo de Cesar, mas o cadáver insepulto - morta a estocadas como a vítima indefesa nos becos escuros da atual política nacional -  nossa triste Constituição Federal, que não achou quem por ela valesse.

Aos demais 364 partícipes da infâmia, não se pode atribuir, exceto por essa semelhança, qualquer ponta em uma obra de Shakespeare, nem mesmo ser comparados a qualquer outra personagem dos dramas da humanidade.

Respeitemos Silvério dos Reis, que sequer pode ser acusado de traição, posto que se manteve - português que era - um súdito leal da coroa, ainda que entregando o Tiradentes ao carrasco.

Judas?  

Yehûdâh, palavra que significa "abençoado", de uma maneira sombria, fez jus ao seu nome, posto que precipitando a morte do SALVADOR na cruz, garantiu a redenção de toda a humanidade.

Mesmo o inspetor Javert, da ficção os “Miseráveis” de Victor Hugo, terminou suicidando por cumprir em demasia a lei, ao perseguir incansavelmente o pobre Jean Valjean, não por burlá-la para fazê-lo.

Não, não há qualquer vestígio de humanidade ou simulacro que seja, nem mesmo da ficção, no ato destes 364 deputados.