CICLO OU CÍRCULO VICIOSO?

Última flor do Lácio, Romana de Castro ensina a língua portuguesa

Por Romana de Castro 11/04/2021 - 17:39 hs

Marina chegou a sua janela com uma folha de papel na mão. Estava lendo alguma coisa. Somos vizinhas há 10 anos e sempre nos falamos de nossas janelas, uma de frente à outra. Fiquei curiosa, tentei chamar a atenção da leitora compenetrada, mas foi em vão. Então, parti para o grito: “Bom dia, Marina!” Ela ainda demorou um pouco e respondeu: “Bom dia, vizinha!” Mas sem tirar os olhos do papel.

 

Depois de um tempo, quando eu já estava quase saindo de perto da minha janela, ela falou com preocupação: “Sabia que o QI médio da população está diminuindo? Estudos mostram isso.” “Bom, eu não preciso de estudos para saber disso, eu observo essa catástrofe diariamente.” Respondi em tom de ironia.

 

Ela finalmente olhou para mim, mas estava bem séria: “Sim! E uma das causas para essa desgraça é o empobrecimento da linguagem. Era de se esperar que o resultado fosse esse. O ensino da língua parece ter sido negligenciado em vários países. Uma tristeza, um crime. O resultado são pessoas que não sabem pensar, não conseguem raciocinar, não conseguem resolver as mais simples questões, não conseguem ler um livro e entendê-lo, não são capazes de escrever uma folha de texto com clareza, coesão, lógica. Uma tristeza sem fim”.


 


Não queria entristecê-la mais, mas não poderia mentir também, então, tive que concordar: “O resultado está estampado em tudo, a falta de raciocínio traz consequências trágicas a todas as áreas do conhecimento. Tudo entra em um processo de degradação. Realmente é muito triste. E se torna um círculo vicioso: os alunos não aprendem mais, pois não têm acesso ao saber, que deveria ser repassado pelos professores, pelos pais, pelos mais velhos, mas estes também já pegaram a época da desconstrução do ensino, em seguida esses alunos serão adultos despreparados para ensinar os que virão. Não há como repassar o conhecimento se a pessoa que deve realizar essa tarefa não o tem. Não sei onde isso vai parar, mas não tenho mais muitas esperanças. Depois que alguns últimos moicanos morrerem, será o fim da racionalidade com a qual estávamos acostumados há alguns anos”.

 

Ela suspirou e deu um sorrisinho amargo: “O pior é ver a arrogância de quem não tem nenhum brilho interior, mas que se acha o grande gênio. Meu Deus! De onde vem tanta falta de percepção das coisas?” “Vem da própria falta de raciocínio lógico. Quando não se consegue raciocinar plenamente, a pessoa parece viver em um mundo paralelo, no qual tudo é invertido e não faz sentido algum para quem raciocina, mas, por outro lado, quem não tem essa capacidade enxerga o absurdo como a coisa mais normal do mundo”.

 

Ela olhou novamente para o papel em sua mão e disse: “Neste texto o autor, Christophe Clavé, dá algumas explicações não muito aprofundadas, mas que nos levam a refletir sobre o assunto. Agora, com certeza, já há aqueles que estão criticando tal posicionamento ou, no mínimo, desdenhando, fazendo pouco caso da situação.” “Muitas vezes essas pessoas acham nesse tipo de comportamento a saída que as conforta e lhes permite viver a mediocridade sem o incômodo de ter consciência disso”, respondi.

 

“O autor no fim texto clama para que pais e educadores despertem e tentem reverter esse problema, ouça: ‘Caros pais e professores, façamos com que nossos filhos, nossos alunos falem, leiam e escrevam. Ensinar e praticar o idioma em suas mais diversas formas. Mesmo que pareça complicado. Principalmente se for complicado. Porque nesse esforço existe liberdade. Aqueles que afirmam a necessidade de simplificar a grafia, descartar a linguagem de seus defeitos, abolir gêneros, tempos, nuances, tudo que cria complexidade, são os verdadeiros arquitetos do empobrecimento da mente humana’. É um bom conselho, só não sei se vão ouvi-lo.”


Escutei com atenção e, com toda a sinceridade do meu coração, respondi: “A diferença entre o bem e o mal é bem nítida, todos nós temos capacidade para identificá-la. Aqueles que optam pela degradação, pela destruição sabem muito bem que estão optando, na verdade, pelo mal. O bem e o mal estão em tudo neste mundo, as escolhas são das pessoas. Se alguém me disser que um professor, mesmo que tenha recebido uma boa educação, ensina a destruição de sua própria língua e não sabe o mal que está fazendo aos seus alunos, eu não vou acreditar. Na minha visão, ele sabe e escolheu o lado do mal. Nossas vidas são cheias de escolhas do início ao fim. Algumas são mais significantes, outras nem tanto, mas, em todas elas, há a fronteira entre o bem e o mal. Uma espécie de separação entre o joio e o trigo, e nesse caso eu sempre tentarei, com todas as minhas forças, ser um trigo. O “lado negro da Força” não me atrai (como diria o meu amigo Adriano Alves-Marreiros). Porém, essa é uma decisão muito particular de cada um. Vamos ver no que vai dar. Quanto à queda livre da racionalidade humana, podemos tentar um círculo virtuoso, como propõe o autor, ou continuar neste círculo vicioso e esperar, mesmo sem muita convicção, que a humanidade não volte aos tempos da caverna, em poucas décadas”.

  ROMANA DE CASTRO

 

DICA: Círculo virtuoso ou círculo vicioso, em vez de ciclo virtuoso/vicioso.

 

* Madame Bovary, de Gustave Flaubert, é a minha dica de leitura de hoje.