Última flor do Lácio

A chave da questão

Por Romana de Castro 09/05/2021 - 13:29 hs

A chave da questão

 

Ia eu a caminhar pela calçada, tranquilo, aproveitando a manhã bonita e fresca. Uma coisa! De tão agradável que estava. Olhava as vitrines, olhava o céu, os carros passando. Que calmaria! Gosto dessa sensação de vida boa e simples. Portanto, andava distraído, quase a saltitar, quando ouvi uma voz um pouco distante:

 

– Eduardo! Eduardo! Eduaaaardooooo!

 

“Santo Deus do Céu, mas quem será nesse desespero?” Pensei cá comigo. Olhei para trás e vi que uma ex-colega de trabalho vinha esbaforida, balançando a mão. Esperei que ela chegasse mais perto e a cumprimentei: – Olá, como vai? Há quanto tempo!

 

– Ufa! – Desabou a coitada – Consegui alcançar você! Como anda rápido! E, então? Como vai? Sim, já faz mesmo muito tempo, eu mal pude reconhecer você, está mais novo, mais bonito. E teceu o rosário de elogios padrão que as pessoas costumam tirar da manga todas as vezes que encontram um conhecido, mesmo que não pensem nada daquilo, mesmo que pensem o contrário do que dizem. Tudo pelo social, como falam por aí.

 

– Olha! Eu estou indo nesta direção – apontei para frente – Você está indo aonde?

 

– Também nesta direção – respondeu ela – Vamos juntos, então.

 

– Claro! E como vão as coisas? – Perguntei.


 

E ela começou a falar de suas doenças, como sempre fazia quando trabalhávamos juntos, mas agora parece que ela conseguiu alcançar toda a lista de mazelas conhecidas pelos médicos. De tudo, ela padece um pouco. Hipocondria? Sim, claro! É uma doença, não é? Entra na lista também, mas ela não começou pelas doenças da cabeça. Resolveu começar pelos pés. Dos pés à cabeça, e lá vamos nós! Bom, pelo menos é organizada. Eu escutei, e escutei, e escutei... até começar a viajar em meus próprios pensamentos. Quando, lá pelas tantas, ela me dá uma cotovelada e diz: – Não é assim? – E eu respondo: – É sempre assim! – Sem ter a menor ideia do que se tratava, mas, com essa, tinha que voltar a prestar atenção. E ela continuou.

 

– Aí, o meu vizinho me disse que conhece um bom curandeiro espírita, ele cura em poucas sessões. Como a minha coluna estava doendo muito, e eu já tinha tentado de tudo, até usar moedas de um real dentro do sapato – e, nesse momento, olha para mim com cara de seriedade e diz: – receita de um médico da medicina alternativa, sabe? Muito bom, muito bom mesmo, mas voltando ao assunto, eu decidi procurar esse médium. Cheguei lá e até fiquei com um pouco de medo, ele me olhava de um jeito estranho, mas não me atacou nem faz nada de errado. Pelo contrário, teve muita paciência comigo. Fiz as sessões e melhorei. Voltei ao médico das moedas e contei a ele. E aí ele me disse que essas coisas são assim mesmo, às vezes dão certo. Não é honesto?

 

– Sim, muito honesto! – Respondi.

 

Bom, depois foi meu estômago. Doía, doía, eu não podia comer quase nada. Tinha azia, era um horror! Daí, minha cunhada me indicou um médico homeopata, que passava “umas gotinhas milagrosas”, ela falou. Tudo bem! Fui lá, ele me perguntou o que eu sentia, eu disse, e ele me receitou um remedinho. Melhorou um pouco, mas não foi o suficiente, ainda sentia dor e azia. Então, fui a um curandeiro que faz trabalho e despacho. Ele me falou: “Filha, seu problema é que fizeram um trabalho muito amarrado pra você!” Quase caí dura, morro de medo dessas coisas das trevas. Pensei: “Jesus, Maria, José! Quem pode ter feito isso?” Mas logo vi que só podia ser coisa da Claudinha. Lembra? Invejosa! Macumbeira! Aí eu me acalmei e perguntei o que eu deveria fazer, então, para desfazer tal trabalho? Ele me disse: “Eu vou fazer um trabalho para desfazer o trabalho que ela fez, mas é coisa difícil”. E você não acredita que fiquei curada?

 

– Que ótimo! – Respondi – Então era a Claudinha mesmo. Que danadinha!

 

– Sim! Melhorei, mas aí foi o meu ombro que começou a doer.

 

– Mas que coisa! – Eu disse. E pensei: “Obrigado, Senhor! Daqui a pouco chega à cabeça e termina essa tortura”.

 

E ela continua: – Meu ombro doía, que queimava. Então, o dono da frutaria lá perto de casa... aquele japonês, lembra? Pois é. Ele me indicou acupuntura. Eu fui e ainda estou fazendo as sessões. Agora mesmo estou indo pra lá.

 

– Bem, pelo menos você não foi apanhada pela Covid. Todo mundo anda em alvoroço por causa dela, e muitos já se encontraram com o tal vírus.

 

– Ah, não! Essa eu não peguei mesmo não, mas, se pegar, não vou tomar esses remédios que estão distribuindo por aí, na base da irresponsabilidade, sem nenhuma validação científica. Absurdo! Pensa? Uns remédios que não têm comprovação médica nenhuma? E ainda fazem várias combinações, coquetéis. Esse povo é louco! Eu? Nunquinha! Não me pegam, pois eu leio jornais e revistas, estou bem informada. Esse povo fora da ciência não me pega, não.

 

– Opa! É meu ônibus! Que pena! Tenho que ir, mas vamos combinar qualquer coisa, um café, um chá, não é mesmo? Liga e combinamos! – Mal acabei de falar e pulei dentro do ônibus, e eu nem vi para onde era, mas sabia que me salvaria daquele tormento. Que me leve para qualquer lugar, mas me leve. Ouvi ainda uma voz ao longe:

 

– Mas eu não tenho seu telefone!!!!

 

  ROMANA DE CASTRO PARA O TRIBUNA DIÁRIA

 

HÍFEN E CHAVE: Na composição, chave se escreve com hífen. Exemplo: palavra-chave, peça-chave, testemunha-chave, momento-chave, conceito-chave etc. São possíveis duas formas de plural: flexão do primeiro elemento ou flexão dos dois. Assim: palavras-chave ou palavras-chaves; testemunhas-chave ou testemunhas-chaves.

 

 

Teatro completo, de Nikolai Gógol, da Editora 34, é a minha dica de leitura de hoje.