A VÍRGULA E O TEXTO

Última flor do Lácio, Romana de Castro ensina a língua portuguesa

Por Romana de Castro 23/05/2021 - 08:04 hs

A coerência é algo muito bom, mas nem sempre é fácil de alcançar. Nossas mentes às vezes nos pregam peças e nos deixam incoerentes sobre diversos assuntos. Falamos, falamos, fazemos vários discursos, com bons posicionamentos e bons argumentos, mas às vezes descobrimos, lá pelas tantas, a danadinha incoerência a zombar de nossas palavras. Logo destas, tão escolhidas a dedo, com tanto esmero. Poxa vida!

 

Sim! É mesmo triste. Porém, não é sem solução. Vejamos: é muito difícil ser coerente o tempo todo, mesmo que se busque isso com afinco. Como eu disse: nosso próprio raciocínio pode ser o responsável por nos pregar uma peça. O que nos resta fazer, então? Bem, eu acredito que, se agirmos com honestidade e humildade, podemos contornar esse problema e aprender com ele. A incoerência não fica muito tempo escondida. Haverá o momento em que ela vai aparecer, e é aí que se mostra a nossa chance de nos redimir e refazer o nosso caminho.

 


Em se tratando de texto, a coerência depende de muita coisa. Uma delas é a própria coerência do autor em seus atos na vida. Afinal, muito do que ele passa para o papel são seus pensamentos, suas experiências, seu modo de raciocinar, sua visão. Portanto, nada mais sensato do que esperar que sua coerência esteja presente também em seus textos. Porém, não é somente isso que devemos considerar. Há várias ferramentas que auxiliam o escritor em sua tarefa. A vírgula, por exemplo, na lógica do texto, pode ser uma grande aliada ou uma inimiga mortal.

 

Para começo de conversa, o escritor deve estar atento ao fato de que a vírgula é um recurso da escrita. Os pensamentos podem ser expressos pela fala, pelos gestos, por outras formas, mas aí entram em cena outros recursos inerentes a cada um desses canais de comunicação. Então, a atenção para o uso da vírgula deve estar focada no texto escrito. Assim, paradas respiratórias ou de outra natureza que encontramos na fala não serão obrigatoriamente escritas como vírgulas. Por exemplo: “Eu, andei, pensei e decidi não voltar atrás”. Essa primeira vírgula está separando o sujeito do verbo, o que não é um bom negócio. Como também não o é separar o verbo de seu completo. Eles são radicais, não gostam disso. Portanto, que tal mudar a vírgula por reticências, assim: “Eu... andei, pensei... e decidi não voltar atrás”. É só uma dica.

 

Retornando à nossa amiga coerência, devemos sempre buscá-la para pertinho de nós, em nossos atos, nossos pensamentos, nossas vidas, pois ela, pessoal, faz parte do clube das virtudes, como a sensatez, a racionalidade, a bondade, a sabedoria, a humildade, a paciência etc. Não pode nem deve ser despreza, mesmo que atualmente, com a famosa inversão de valores, a moda seja ser incoerente e se orgulhar disso. Não, senhor! Nós que amamos a nossa racionalidade e tudo de precioso que ela nos proporciona vamos continuar seguindo o nosso caminho, na busca incansável pela retidão. Aos que não querem isso, que também tenham a liberdade de seguir por onde lhes aprouver, não me meto a ser o juiz das ruas nem a ensinar quem não quer aprender ou se acha superior ao aprendizado. Como me disseram uma vez: tentar enfiar sensatez em cabeça dura é o mesmo que tentar ensinar física quântica a um bêbado caído na sarjeta.


 O mito da vírgula antes do “e”. | Nexo - Soluções Linguísticas

 

EXPLICAÇÃO E RESTRIÇÃO: Vírgula nos casos de explicação e sem vírgula para os casos de restrição. Assim: “As crianças, que representam o futuro da humanidade, deveriam ser defendidas, sem exceção, de todo e qualquer mal” (explicação, entre vírgulas); “Aqueles que desejam levar uma vida de virtudes devem buscar coerência em seus atos” (restrição, sem vírgula).


   ROMANA DE CASTRO PARA O TRIBUNA DIÁRIA

Germinal, de Émile Zola, é a minha dica de leitura de hoje.