A ARTE DO BELO

Última flor do Lácio, Romana de Castro ensina a língua portuguesa

Por Romana de Castro 07/06/2021 - 17:25 hs

 

Quando vejo as obras de Caravaggio (Michelangelo Merisi da Caravaggio), ou ouço as músicas de Ludwig van Beethoven, ou leio um livro de Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, ou tantas outras artes ou atividades humanas que encantam e nos ajudam a viver melhor, com mais alegria, mais conforto, mais saúde, eu reafirmo a minha convicção de que o capricho em se fazer qualquer coisa, juntamente com a capacidade da sensibilidade – e incluo aqui a capacidade do amor – é o que fará diferença em nossa passagem cá na Terra.

 

Nessa charada, para todos os lados que olho, de todas as formas que examino, eu vejo a mesma resposta. O belo, o agradável, o trabalho bem-feito são os responsáveis por nosso estado de espírito e nosso desenvolvimento intelectual e sensitivo. E com efeito contrário, de forma negativa, o feio, o degradante.

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Variando de intensidade entre o pouco prejudicial até o muito prejudicial, a ação malfeita pode ter consequências que, em alguns casos, resultam em vítimas fatais. Uma comunidade médica e científica, por exemplo, que exalta o desleixo em detrimento da eficácia pode levar muitas pessoas a óbito. Da mesma forma, uma equipe de engenheiros que calculam mal a construção de um prédio. São apenas exemplos de simples compreensão. O fato é que nossas vidas estão repletas de amostras de coisas bem-feitas e malfeitas, e, entre elas, encontra-se o mediano, comumente chamado de medíocre.

 

É fato também que a escolha entre um e outro depende, quase em sua totalidade, da preferência de cada um. Eu sei que oportunidades como uma boa educação, um produtivo mercado de trabalho, a disseminação da alta cultura em todas as classes sociais etc podem também ter influência. Contudo, se o próprio indivíduo não quer ser cuidadoso com suas atividades, nada neste mundo o fará ser. Portanto, vemos surgir novamente a velha encruzilhada conhecida por todos: a opção de cada um pelo bem ou pelo mal.

 

Conforme muito bem colocado por Carlos Nougué, logo no início de seu livro Da arte do belo (1) – e que, de tão bem escrito, vou copiar aqui como uma citação direta –, “O homem é um animal de contemplação, de ação e de produção. Mas, das obras que produz, umas são para uso ou benefício do corpo – são as das artes chamadas servis –, enquanto outras são para uso ou benefício de seu espírito – são as das artes chamadas liberais. Entre estas, há aquelas que, mediante o belo, se ordenam a fazer o homem propender ao bom e ao verdadeiro, e, mediante o horrendo, a fazê-lo afastar-se do mau e do falso: a Literatura, o Teatro, o Cinema, a Música, a Dança, a Pintura, a Escultura e, por certo ângulo, a Arquitetura, as quais são justamente espécies da arte do belo”.

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Esse pensamento eu trago para toda e qualquer atividade que nos propomos a desenvolver. O zelo em fazer, em produzir algo, é fundamental mesmo nas atividades mais simples e cotidianas. Portanto, a valorização deve ser para todas as realizações, sem veneração por esta ou por aquela, sem desprezo por esta ou por aquela.

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E, chegando a este ponto, eu faço questão de lembrar que a vaidade em se destacar alguns profissionais em prejuízo de outros é uma das coisas mais estúpidas que uma sociedade pode fazer. Toda habilidade tem seu mérito e sua importância dentro da coletividade, e cada indivíduo possui as suas capacidades específicas, e estas devem ser estimuladas ao máximo, e assim teremos como resultado, pessoas felizes, realizadas com os seus afazeres e, portanto, agindo com mais esmero: todos ganham.

 

Alguns podem alegar que fazer bem algum serviço pode acarretar muito tempo, dinheiro, energia, e o produto final não ter muita importância para ninguém. Porém, quando estamos falando de formação e de desenvolvimento pessoal, estamos falando da criação de uma cultura em que sejam predominantes a consciência e a responsabilidade de se fazer bem, dar o melhor de si – como dizem por aí –, independentemente de mais ou menos utilidade do que foi feito, pois florescer nas pessoas esse modo de ser e de agir é o que realmente importa em toda esta questão.

 


 

BEM FEITO, BEM-FEITO, BENFEITO: é um assunto polêmico, e há variações entre dicionários, gramáticas e o VOLP (Vocabulário da Língua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras). A minha dica é analisar cada situação. BEM-FEITO é usado como adjetivo (vale observar que o VOLP não o registra com hífen, mas também havemos de ter em mente que lá não encontramos todos os registros possíveis): “O trabalho bem-feito deve ser valorizado por todos”. BENFEITO é usado como substantivo, no sentido de benfeitoria, benefício: “O benfeito valorizará a fachada do prédio”. BEM FEITO é usado quando se quer expressar satisfação por uma justa consequência sofrida por alguém que tenha cometido algum ato ruim: “Bem feito para ele! Não deveria ter escolhido o lado do mal!”. Também nos casos em que BEM possa ser retirado sem causar nenhum prejuízo ao entendimento principal da mensagem: “O vestido foi bem feito pela costureira”; “O vestido foi feito muito bem pela costureira”; “O vestido foi feito pela costureira”; “O vestido foi bem produzido pela costureira”.

 

O novo acordo ortográfico determina que, nas palavras compostas com os advérbios bem e mal, o hífen seja usado quando a segunda palavra começar por vogal ou h. Exemplos: bem-estar, mal-estar, bem-humorado, mal-humorado. Porém, ainda conforme o acordo, “o advérbio bem, ao contrário do mal, pode não se aglutinar com palavras começadas por consoante”, portanto, o BEM pode ter a companhia do hífen quando formar uma unidade semântica, mesmo que a segunda palavra comece com outras consoantes: bem-criado, bem-disposto.


  ROMANA DE CASTRO PARA O TRIBUNA DIÁRIA


Assim, como sempre indico, para toda sinuca de bico, são necessárias muita pesquisa, muita análise e muita paciência.

 

(1)Da arte do belo, de Carlos Nougué, Edições Santo Tomás, é a minha dica de leitura de hoje.