REFLEXÕES SOBRE O CRIMINOSO

a doença não retira a capacidade de fazer escolhas, de distinguir entre o certo e o errado.

Por Ana Solari 04/07/2021 - 18:52 hs

Nossa vida é um aprendizado, internalização e prática de valores morais, virtudes, compreensão e distinção entre o certo e o errado[1]. A meditação sobre os sentimentos deve ser trabalhada diariamente para que se torne um hábito e as virtudes sejam aplicadas com inteligência. Isso é, em síntese, o que nos distingue dos animais. Somos capazes de pensar sobre o que sentimos, sobre as diversas situações do dia a dia, prevendo muitas delas e, assim, somos capazes de controlar nossas condutas[2]. Comportamento é produto do pensamento. Como seres humanos responsáveis, temos – e devemos ter até o nosso último suspiro - medo e culpa. Assim se vive em sociedade.

Por isso a busca pelas causas do crime tem sido, na verdade, um infinito de opções de desculpas para o criminoso frente ao seu próprio ato. Pretextos abstratos que nada dizem e tudo abarcam, resumidos em uma constatação inevitável: a  “injustiça do mundo” (discriminação, pobreza, falta de estudo, violência, entre muitas outras). Insistir nesse argumento é alimentar – de maneira absolutamente leviana e pueril - a própria consciência de irresponsabilidade do criminoso pela conduta praticada[3]. É, em última instância, prejudicar a sociedade responsável – a maioria – e até mesmo o criminoso, que não toma consciência do primeiro passo para mudar: cansar de si mesmo.

Entre 1961 e 1978 o psicólogo norte-americano Stanton E. Samenow e o psiquiatra Dr. Samuel Yochelson realizaram estudos e análises com pequenos ladrões até serial killers para compreender a mente do criminoso, relatado no livro “A mente criminosa”. A premissa básica é de que o comportamento é produto do pensamento. Então, nada mais lógico que compreender como o criminoso pensa.



É importante observar que o psicólogo e o psiquiatra ingressaram nesse projeto com a premissa de que o agressor era vítima de coisas sobre as quais ele não tinha controle (fenômenos biopsicossociais são apresentados como “fatores de risco”: pobreza, pressão de colegas, violência da mídia, doenças mentais, drogas, desorganização social e etc.[4]). Mas logo os pesquisadores perceberam que havia diferença entre o que “cientistas sociais” e “teóricos de poltrona”[5] diziam e o que os indivíduos com quem diariamente interagiam relatavam.

Fica muito clara na leitura a ideia de que o criminoso age para preservar sua autoimagem de poderoso, de “monarca divino”[6]. A prática do crime, conseguir enganar alguém (do agente carcerário ao Juiz, passando pelos seus defensores) fortalece essa visão que tem de si. Ele age em uma explosão de raiva que é incapaz de controlar; medo e culpa são extirpados da mente do agente. As consequências não importam, mas sim a prática do crime que, como um antídoto a todo tédio da vida, traz satisfação e prazer imediato capaz de fazê-lo retomar o controle do seu pensamento, da sua vida (já descontrolada).

Todos vivemos, diariamente, frustrações e decepções, faz parte da vida. Ninguém nunca disse que é ou seria fácil. Acredito que é nesse ponto do cotidiano da existência de todo ser humano que deve se apresentar o homem. Se não o fizer, não passará de um rato. A conhecida Lei de Murphy deve ser introjetada na vida do criminoso: “se algo tiver que dar errado, dará”. O ser humano minimamente responsável pensa nas consequências e tem consciência; o criminoso, por sua vez, não reflete, age porque tem que preservar a autoimagem – irreal - de que tem controle.

Não se trata de distinguir o bem e o mal. Essa distinção todos sabem - e o homem tem, por natureza, o mal tatuado na sua personalidade. Não existe ser humano somente bom, salvo se migrarmos para o plano metafísico. É não agir no mal que importa. Controlando-se o pensamento se controla a conduta. Daí porque a conduta é uma escolha do indivíduo e, de consequência, o criminoso não é uma vítima - de si ou de fatores externos. Ninguém é vítima. Somos todos responsáveis pelas condutas que realizamos e devemos ter controle sobre o que temos condições de ter controle, porque querer controlar o incontrolável é neurose. Ocorre que esse processo leva à verdade sobre si mesmo e isso é muito doloroso. Assumir a responsabilidade, para aquele que tem espírito fraco, é um peso muito grande. Por essa razão o criminoso cria o hábito de culpar os outros ou situações externas para justificar seus atos – como se houvesse justificativa. Ele é governado pelos sentimentos, essa é a grande questão. Ser responsável, para o criminoso, é ser respeitável, influente, adquirir fama e fortuna rápido e a qualquer custo. Não percebe que ser responsável, para o homem forte de espírito[7], é ter domínio sobre si e ditar os rumos da sua vida pelo seu trabalho, esforço e amor. O criminoso tem medo de enfrentar decisões e assumir o comando do seu destino.

Com base nessa compreensão que Stanton E. Somenow destrói falácias clássicas da teoria bandidólatra[8], afirmando que pobreza não é causa do crime[9] (o crime é que causa pobreza), a desorganização social (uma realidade inevitável) não é elemento facilitador do crime, os pais/escola/colegas não têm culpa pelo filho/estudante/colega criminoso (não são os pais/escola/colegas que rejeitam, mas o filho/aluno/colega que os rejeita). Essas relações exigem esforço, perseverança para superar a preguiça. Como não consegue (o criminoso faz somente o que gosta e acha fácil justamente por isso, falta-lhe motivação interna[10] para pautar suas condutas), o filho/aluno/colega – que busca sempre fazer parte do mainstream (pensamento dominante informado pela mídia de massa, ou seja, os “politicamente corretos”)[11] – se frustra. Trabalhar dá trabalho. O criminoso quer emoção, precisa disso para reforçar sua autoimagem. Ela vem quando ele supera o sistema, engana, tem lucro fácil ou vende drogas (“A alta tensão de procurar ‘clientes’ motiva os traficantes de qualquer idade”[12]). Portanto, o traficante é um fracasso pessoal, não social[13].

O criminoso, prossegue o psiquiatra, também não é doente mental, porque a doença não retira a capacidade de fazer escolhas, de distinguir entre o certo e o errado. O infortúnio traz uma reação que depende da personalidade, do caráter[14].

Relatando acerca de uma correspondência que recebeu de um preso de uma penitenciária de Illinois, na qual lamentava que “o criminoso nunca tem uma chance de se explicar. Ele recebe uma variedade de desculpas entre as quais pode escolher”, o psiquiatra Viktor E. Frankl respondeu: “Vocês são seres humanos como eu, e como tais tiveram a liberdade de cometer um crime, de tornar-se culpados. Agora, no entanto, vocês tem a responsabilidade de superar a culpa erguendo-se acima dela, crescendo para além de vocês mesmos e mudando pessoalmente para melhor”. Mudar para melhor e aprender com o sofrimento inevitável é um caminho para o crescimento. Mas, sim, isso dá trabalho.


  Ana Solari.


Assessora do Ministério Público do Rio Grande do Sul, Pós-Graduada em Penal e Processo Penal pela UniRitter. 

[1] Descumprir o que é certo é ser mais estúpido que um jumento, como descreve Anthony Esolen, na história de Balaão e o jumento. ESOLEN, Anthony. Dez Maneira de destruir a imaginação do seu filho. 1ª edição, Campinas – SP: Vide Editorial, 2017, pg. 263.

[2] Isso é liberdade, agir baseado em obediência e virtude. ESOLEN, Anthony. Dez Maneira de destruir a imaginação do seu filho. 1ª edição, Campinas – SP: Vide Editorial, 2017, pg. 265.

[3] “Explicar totalmente o crime de alguém seria o mesmo que eliminar sua culpa e vê-lo não como uma pessoa livre e responsável, mas como uma máquina a ser consertada.” Acerca da culpa coletiva, o neurologista e psiquiatra afirma que “penso pessoalmente que é totalmente injustificado responsabilizar uma pessoa pelo comportamento de outra ou de um grupo de pessoas”. FRANKL, Viktor E. Em busca de sentido. São Leopoldo – RS: Editora Sinodal, 1985, pg 170.

[4] Diziam-se “convertidos relutantes”. SAMENOW, Stanton E. A Mente Criminosa. Campinas: SP, Vide Editorial, 2020, pg 23.

[5] SAMENOW, Stanton E. A Mente Criminosa. Campinas: SP, Vide Editorial, 2020, pg 12.

[6] SAMENOW, Stanton E. A Mente Criminosa. Campinas: SP, Vide Editorial, 2020, pg 316.

[7] “Eis porque o soberano remédio é o trabalho do espírito. Quando o pensamento está fortemente ocupado, as tímidas solicitações da paixão são deixadas, impotentes, na entrada da consciência...Elas só têm chance de entrar quando o espírito está vazio...a ociosidade é a mãe dos vícios”. PAYOT, Jules. A educação da vontade. Campinas: SP, Editora Kirion, 1894, pg 190.

[8] Expressão ressuscitada no livro Bandidolatria e Democídio, de autoria dos Promotores de Justiça do Rio Grande do Sul, Diego Pessi e Leonardo Giardin de Souza. PESSI, Diego; SOUZA, Leonardo Giardin de. Bandidolatria e Democídio. Porto Alegre – RS: Editora SV, 2018, 3.ª Ed.

[9] “Se a pobreza estimula o crime, seria de se esperar um aumento da criminalidade durante a grave recessão econômica que começou em 2008 e durou até 2011. O que aconteceu, na verdade, foi que as taxas de homicídios nos Estados Unidos caíram para o nível mais baixo desde 1964”. SAMENOW, Stanton E. A Mente Criminosa. Campinas: SP, Vide Editorial, 2020, p 32.

[10] “A motivação externa não é sustentável no tempo, porque, no momento em que se retira o fator eterno de motivação a criança oscila entre o estado de aborrecimento e o de ansiedade e sente-se ‘desmotivada...a motivação externa ‘produz’ adolescentes e adultos movidos exclusivamente pelo interesse próprio. Fazem as coisas unicamente porque lhes pedem e apenas na medida em que lhes seja dada alguma coisa em troca (dinheiro, recompensa, um favor, fama etc.). Numa sociedade em que as pessoas se movem por motivações externas, tudo tem um preço e um componente econômico, não há nada gratuito. O ato de dar rege-se por uma lei mínima. Em vez de compaixão, há tolerância. Em vez de generosidade, há cumprimento. A ética reduz-se ao que é legal. A cordialidade é entendida como bajulação.” Catherine L’Ecuyer. Educar na realidade. Pgs 57-58.

[11] O mafioso Henry Hill disse que sua ambição, aos 12 anos, era ser um whiseguy, especialista, um gânsgter, membro da máfia de rua, um sabe-tudo, um espertalhão. SAMENOW, Stanton E. A Mente Criminosa. Campinas: SP, Vide Editorial, 2020, pg 79.

[12] SAMENOW, Stanton E. A Mente Criminosa. Campinas: SP, Vide Editorial, 2020, pg 196.

[13] SAMENOW, Stanton E. A Mente Criminosa. Campinas: SP, Vide Editorial, 2020, pg. 19.

[14] O caráter refere-se a leis naturais (integridade, humildade, fidelidade, temperança, coragem justiça, paciência, diligencia, simplicidade, modéstia e fazer aos outros o que desejamos que nos façam), princípios básicos que criam paradigmas, as lentes pelas quais se vê mundo. A personalidade é o comportamento, que, por sua vez, é determinado pela atitude mental (positiva ou negativa). “Plante um pensamento, colha uma ação; plante uma ação, colha um hábito; plante um hábito, colha um caráter; plante um caráter, colha um destino”. COVEY, Stephen R. Os 7 hábitos das pessoas altamente eficazes. Rio de Janeiro: RJ, Bst Seller, 2020, pg 75-93, 89ª ed.


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