A LÓGICA NO TEXTO

Última flor do Lácio, Romana de Castro ensina a língua portuguesa

Por Romana de Castro 18/07/2021 - 18:25 hs

Eu verdadeiramente fico feliz quando alguém me alerta sobre erros ou incongruências em meus textos, porque tenho a consciência de que não sou infalível, pois ninguém o é. Assim, considero muito meu amigo aquele que se predispõe a me orientar no melhor caminho, uma espécie de revisor do revisor. Por que não? Todos nós precisamos de uma revisão, visto que, quando escrevemos, temos preocupações mais urgentes do que a forma, temos a missão primordial de passar a mensagem exatamente como ela foi pensada e com lógica e sensatez.

 

A lógica no texto depende de diversos fatores, como semântica, sintaxe... Não é incomum escrevermos um texto que, em sua forma, não apresenta erros, mas que, se analisado logicamente, não passa a mensagem pretendida, mesmo que muitos leitores o entendam sem dificuldades, por já estarem familiarizados com o assunto.

 

Podemos pegar como exemplo o texto de uma das medidas da campanha 10 Medidas contra a corrupção, de 2014. Esta, apesar de carregar em seus objetivos um propósito extremamente necessário e benéfico a qualquer sociedade, apresentou uma distorção da realidade em seu item 10: “Recuperação do lucro derivado do crime”.

 

Neste momento, alguns podem pensar: “Por que ela está condenando o confisco de um lucro obtido ilicitamente?”. Bom, não estou fazendo isso, estou apenas analisando a lógica do texto, para saber qual mensagem foi pensada e qual mensagem realmente está impressa nesse item.

 

A mensagem pensada foi a de que, se um indivíduo ou grupo comete crimes e, nessas ações, obtém lucro – inclusive, vamos ser realistas, é por conta dele que a bandidagem faz o que faz –, este deve ser confiscado, apreendido pelo Estado, não pode continuar nas mãos dos bandidos. Afinal, o crime não compensa, não é assim?

 

Sim! Parece que as 10 medidas foram pensadas também para isso, para o crime não ser vantajoso. E essa iniciativa, paralelamente, acaba promovendo uma ação preventiva. “Sem lucro nenhum, vou meter o meu nariz onde não fui chamado para quê?”, pensa o pilantra.

 

Assim, até a nona medida, o Estado age para combater os crimes: 1. Prevenção à corrupção, transparência e proteção à fonte de informação; 2. Criminalização do enriquecimento ilícito de agentes públicos; 3. Aumento das penas e crime hediondo para a corrupção de altos valores; 4. Eficiência dos recursos no processo penal; 5. Celeridade nas ações de improbidade administrativa; 6. Reforma no sistema de prescrição penal; 7. Ajustes nas nulidades penais; 8. Responsabilização dos partidos políticos e criminalização do caixa 2; 9. Prisão preventiva para assegurar a devolução do dinheiro desviado.

 


Quando chegamos à décima medida, há uma inversão da lógica. Não sei, talvez para não ofender os criminosos mais sensíveis (brincadeirinha!): 10. Recuperação do lucro derivado do crime. Pois é, mas o Estado não pode recuperar um lucro derivado do crime, visto que o Estado nunca teve esse lucro ilícito para perder e recuperar. Se alguém tem que recuperar lucros provenientes do crime, esse alguém tem necessariamente que ser o criminoso, aquele que cometeu o crime. E este jamais promoverá campanhas anticorrupção. Podem estar certos disso!

 

Então, esse assunto não passa de uma questão de semântica. Recuperar, segundo o dicionário Aulete Digital, significa: “1.Ter ou possuir novamente (o que se tinha perdido); REAVER [td. : Recuperou o anel que se extraviara.];  [....]; 6. Jur. Readquirir a posse de coisa perdida ou roubada”. Portanto, a décima medida contra a corrupção deveria ser “Confisco (apreensão pelo Estado) do lucro comprovadamente derivado do crime”.

 

Vejam bem! Deixo bem claro que a minha intenção aqui não é desmerecer o trabalho de quem estava à frente dessa campanha, que, como já disse, é de extrema necessidade para qualquer sociedade. Em se tratando do nosso país, então, a coisa se agrava, visto os acontecimentos das últimas décadas. Porém, devemos sempre ter em mente que escrever bem um texto, não é somente estar atento à sua forma, mas se deve preocupar também com o seu conteúdo. Nesse sentido, não posso deixar de alertar sobre tais assuntos, o que configura uma crítica construtiva, com o intuito de melhorar os textos, jamais no sentido de desprestigiar alguém ou alguma instituição, mesmo porque eu também cometo tais enganos em meus textos, como já mencionei aqui, e fico muito feliz quando alguém me alerta.

 

INTUITO, FORTUITO, GRATUITO, CIRCUITO, FLUIDO...: Na pronúncia desses vocábulos, a sílaba tônica é o “u”, não, o “i”. No caso de FLUIDO, apenas será pronunciado “fluído” (e escrito com acento), quando se tratar de verbo no particípio passado: “O debate, com outro mediador, poderia ter fluído melhor”.


  ROMANA DE CASTRO.

 

(1)    O velho e o mar, de Ernest Hemingway, é a minha dica de leitura de hoje.


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