CIÚME

Última flor do Lácio, Romana de Castro ensina a língua portuguesa

Por Romana de Castro 08/08/2021 - 14:55 hs


 

Meu pai me ensinou, em várias oportunidades, que o ciúme é um dos grandes males da humanidade. Não falava do ciúme de amantes, de cônjuges, de namorados... Não, não... Apesar de ser este também um grande mal, ele se referia a outro tipo de ciúme, um tipo que, infelizmente, algumas pessoas desenvolvem ao ver o sucesso alheio.

 

Alguns podem dizer: “Ah! Mas isso é inveja!”. Tudo bem! Talvez possa ser chamado assim, mas o meu pai preferia a palavra “ciúme”. E ele escolhia bem as palavras para se expressar. Ele era um excelente professor de Português e também sabia bem o Latim, que aprendeu ainda nos tempos do seminário. Então, tudo me leva a crer que ele considerava o vocábulo “ciúme” mais esclarecedor desse sentimento do que “inveja”. O Michaelis On-line traz uma definição que me dá até arrepios: “Sentimento negativo em que se mesclam ódio e desgosto, provocado pela felicidade ou situação favorável de outrem”. Não é algo horrível de se sentir?

 

Por isso meu pai tinha tanta preocupação em nos alertar para o mal que esse sentimento pode causar. Ele não prejudica somente aquele que o detém, também pode causar muito sofrimento aos que estão por perto, principalmente àquele que, mesmo sem nem saber, despertou tal ciúme. 

 

Imaginem: uma pessoa está em seu canto, concentrada, fazendo o seu melhor para obter um trabalho bem-feito, um bom resultado, muitas vezes, nem se importando com louros, mas querendo ver florescer o que plantou; e, ao mesmo tempo, esse seu ato nobre provocar a ira de outra pessoa, simplesmente porque ela não suporta ver o sucesso alheio. Eu fico até sem muito jeito para escrever sobre isso, porque o meu sentimento de indignação me trava, deixa um imenso nó na minha garganta.



Como é que querer fazer um bom trabalho pode gerar discórdia, ira de outros? Como pode isso? Se tais pessoas, os ciumentos, admiram tanto assim o sucesso alheio, por que não procuram obter o seu próprio sucesso? Por que não se esforçam também? O tempo e a energia tentando atrapalhar o outro seriam aproveitados para isso. Não consigo entender, mas consigo não querer esse sentimento para mim. Primeiramente, porque sempre ouvirei as palavras de meu pai, ele não me ensinou em vão. Depois, porque não creio que haja neste mundo alguém em sã consciência que queira levar a vida dessa maneira.

 

Quando isso ocorre no trabalho, atrapalha todos os envolvidos, destrói possibilidades de bons resultados, causa prejuízos, nada constrói. Quando isso ocorre dentro das famílias, é algo extremamente triste: entre irmãos, que deveriam ser companheiros e amigos; entre pais e filhos, que naturalmente são detentores do amor incondicional; entre marido e esposa, que deveriam pensar apenas em união e não, em competição.

 

É um assunto muito triste, desolador até. E ainda não consigo entender por quê. Por que o ciumento não percebe que deve lutar contra isso, procurar ajuda se for preciso, mas não se deixar dominar por tal malignidade? Mil vezes me faço essa pergunta e mil vezes me respondo: não sei. O que sei é que não quero isso para mim, não quero para as pessoas que amo, não quero para as pessoas que eu nem conheço. Não quero esse mal perto de mim. Seria muito bom que ele não existisse... Mas isso já é ingênuo demais.

 

     ROMANA DE CASTRO.

 

CIÚME OU CIÚMES: As duas formas são consideradas corretas, porém é necessária a devida atenção à concordância: “Ele tinha muito ciúme de seu violino, ninguém podia tocá-lo. E falo isso em todos os sentidos, se é que me entende.”; “Seus ciúmes eram infundados, ele mesmo sabia disso, mas não conseguia controlá-los”.

 

 

* O idiota, de Fiódor Dostoiévski, tradução de Paulo Bezerra, Editora 34, é a minha dica de leitura de hoje.