NÃO PRECISA FALAR

Última flor do Lácio, Romana de Castro ensina a língua portuguesa

Por Romana de Castro 05/09/2021 - 13:05 hs

Há coisas que não precisam ser ditas, não há necessidade. E, quando escrevemos o que não precisava ser escrito, o texto perde um pouco de seu valor. Não que seja um crime, algo terrível! Não é isso, mas podemos ser mais sutis ao escrever e, assim, deixar o texto mais charmoso, mais agradável.

 

Eu vejo muito uma espécie de excesso explicativo em alguns textos, e o hábito de falarmos, no nosso dia a dia, de uma forma automatizada e repetitiva, e sermos compreendidos na maioria das ocasiões, às vezes, nos conduz a esse tipo de distração ao escrever. Por exemplo, o autor começa seu texto com várias informações necessárias aos seus futuros leitores. Lá pelas tantas, ele escreve: “Os interessados deverão fazer suas inscrições em tal lugar”; ou “Os interessados devem encaminhar tal documentação para tal endereço”.

 


Isso é um tipo de desatenção, pois somente “os interessados” vão mandar documentação, fazer inscrição ou qualquer outra atividade relacionada ao assunto em questão, porque quem não tiver interesse jamais se manifestará, não levantará um dedinho sequer. Nesses casos, eu considero que é suficiente avisar quais serão os procedimentos exigidos para a efetivação da matrícula, ou a garantia da participação no evento etc.

 

Em outras circunstâncias, inserimos comandos que, por sua obrigatoriedade natural, é impossível não os realizar, portanto não é imprescindível que eles sejam expostos. Explicando melhor com exemplos: “Depois de escrever seu documento, encaminhe para seção tal.”; ou “Depois de gravar o vídeo, mande por meio do endereço tal.” Vejam bem: antes de escrever o documento ou de gravar o vídeo, é impossível ao leitor encaminhar um ou outro, portanto, somente depois de realizar tais tarefas, o material poderá ser enviado, nada neste mundo altera essa ordem. É uma obviedade que podemos deixar de fora de nossos textos facilmente.

 


Portanto, a minha intenção aqui é mostrar que, na correria de nossas tarefas diárias, podemos cometer descuidos que prejudicam a prudência em nossos escritos, mas vale a pena sempre mencionar que isso não é um bicho de sete cabeças: apenas um pouco de atenção, e a questão é espontaneamente resolvida.

 

E, para finalizar, descrevo uma cena de um filme que retrata com bom humor essas situações. Nela, um dos personagens vai buscar seu amigo no aeroporto. Ao encontrá-lo lá dentro, cumprimenta-o e diz: “Eu vim buscá-lo, o carro está lá fora.” O outro responde com uma pergunta: “Onde mais estaria?”

 

MOR: a palavra MOR significa MAIOR e se liga à palavra anterior por hífen. Plural: MORES. Exemplos: ouvidor-mor, altar-mor, guarda-mor, conselheiro-mor, capitães-mores, altares-mores etc.

 

     ROMANA DE CASTRO

* O capote e outras histórias, de Nikolai Gógol, tradução Paulo Bezerra, Editora 34, é a minha dica de leitura de hoje.