NO MUNDO DA TEORIA

Última flor do Lácio, Romana de Castro ensina a língua portuguesa

Por Romana de Castro 10/10/2021 - 19:41 hs

Não sou nenhuma pesquisadora sobre o assunto, mas me parece que a humanidade em geral tem tido mais acesso ao estudo teórico do que há algumas ou muitas décadas atrás. Cursos e mais cursos foram criados; universidades e mais universidades foram construídas; especialidade disto, especialidade daquilo. E o início da servidão à deusa teoria começa mais e mais precocemente: crianças cada vez mais novinhas a caminho da escola, uns bebezinhos que nem sabem falar ainda – fofurinhas dadas em sacrifício. Não que eu não saiba da importância da teoria, que o conhecimento é transmitido principalmente por intermédio dela e tudo de bom que ela pode nos trazer, mas mesmo assim a teoria não substitui o mundo real, como alguns querem impor.

 

Sim, a humanidade evolui sem cessar. É até triste pensar naqueles pobres coitados do passado, que não tinham todo esse aparato de conhecimento à mão. Coitados! Uns coitadinhos como Dostoiévski, Shakespeare, Cervantes, Gógol, Victor Hugo, as irmãs Brontë, Virgina Woolf e outros tantos. Não sabiam nada, mas não era culpa deles, eles não tinham como adquirir teorias e mais teorias que atualmente são abundantemente despejadas pelas instituições de ensino e similares.

 

O negócio é tão exagerado que, a partir de certo ponto para cá, as pessoas estão meio que entrando em um mundo paralelo da teoria e não aceitam sair de lá de jeito nenhum. “Daqui não saio, daqui ninguém me tira”. E, ainda, querem levar todos ao redor e fora do redor para o mesmo buraco psicodélico. E por quê? Porque é um mundo perfeito, em que, ao seguir todas aquelas regras teóricas, o resultado é sempre o previsto por elas. Não é incrível?

 

“Muito melhor, muito mais seguro, muito mais feliz! Compre já a sua passagem apenas de ida para o mundo da teoria. Você não se arrependerá jamais!” Tudo bem! Exagerei agora, mas sinceramente, algumas pessoas faltam falar assim. E ai daquele que discordar! É um terraplanista lunático jupteriano, pois como não entender que o que se aprende nas maravilhosas instituições educacionais e teóricas é tudo que se passa e como se passa em nossas vidas?

 

Igualzinho! Se não está no aprendizado ofertado, simplesmente não existe. Eu não sei, mas, se continuarmos por esse caminho, daqui a pouco, para fazer um simples pedido em um restaurante, o cliente terá que citar pelo menos dois autores de livros culinários. E com a bibliografia completa conforme as normas da ABNT. Ah! E, por favor! Citação indireta, certo?

 

Lá vêm! Acham que estou exagerando novamente. Olhem a sua volta! Não percebem isso?



Não escutam os milhares e milhares de especialistas a afirmar que tal governante está fazendo tudo, tudinho errado, porque ele não está seguindo a maravilhosa, a excepcional, a inigualável teoria? Ela, que a tudo responde? Se seguisse, tudo sairia perfeito, porque é assim no mundo real. Planejamos uma viagem conforme o livro de viagens, e tudo acontece exatamente daquele jeito, sem percalços. Planejamos o orçamento de nossas casas por um semestre, e pimba! Sem tirar nem pôr. Planejamos nossos relacionamentos amorosos conforme o guia de comportamento daquele maravilhoso psicólogo famoso, escritor de best-sellers de autoajuda, e nenhuma desavença sequer acontece. E por aí vai.

 

Mas eu não vou. E é a única coisa que a fenomenal teoria não explica: por que ainda existem uns por aí, assim como eu, que insistem em viver no mundo de verdade, na desprezível realidade? Nem ela, a fantástica fábrica de choc... não... de respostas perfeitas e irrefutáveis conseguiu ainda explicar. E o resultado são indivíduos na mesma dimensão vivendo em mundos paralelos, ou seria no mesmo mundo vivendo em dimensões paralelas? Não sei. O que sei é que, quando um de um mundo se encontra com o outro do outro, há um choque quase mortal. Um quer acreditar em que seus olhos veem, mas o outro nem precisa ter olhos, a não ser que seja para ler a esplendorosa teoria, para que esta lhe diga o que ele está vendo sem olhar.

 

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CONCORDÂNCIA VERBAL COM SUJEITO COMPOSTO LIGADO POR OU/NEM: O verbo vai para o plural se a ideia for de inclusão: “Alberto ou Luíza poderiam lavar a louça do jantar, mas preferiram discutir a noite toda sobre isso”. O verbo fica no singular se ideia for de exclusão: “Júlia ou Carla ganhará o concurso de literatura, mas a disputa será acirrada”.



  ROMANA DE CASTRO

 

* O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, é a minha dica de leitura de hoje.