ALTA CULTURA - GRANDES NOMES DA MÚSICA CLÁSSICA BRASILEIRA

Heckel Tavares e a Era do Rádio

Por Sileno 11/01/2022 - 01:48 hs

Alagoano, tocava cavaquinho, compôs “Chove...Chuva” e “Casa de Cabôclo”. Cavaquinho é a chave para se viver a música brasileira, nele moram os ritmos, as batidas. Heckel foi importante no princípio do Séc. XX, compondo para Lamartine Babo, Inezita Barroso e Francisco Alves; mas depois foi esquecido, como todos os bons, para dar espaço em nossas imaginações para quem?

A falta de ensino musical estragou a imaginação do brasileiro, aculturação! Houve o rompimento da transmissão cultural, geração após geração, fomos privados de nosso passado para crescermos consumindo o lixo. Não tem outro nome. Elvis? Beatles? Beegees? Police? Madona? Britney? Feri teus sentimentos atacando teus ídolos de barro?

Privação cultural é um longo caminho para baixo, embrutecimento. Gringo toca, índio escuta. Ah-é-éh? Esta na hora de conhecer sua própria cultura. Vale á pena, tivemos grandes compositores; já chega de repetir que música clássica brasileira é somente Heitor Villa-Lobos, e se for para continuar repetindo isto feito um papagaio, pelo menos escute as obras dele, porque eu sei que as pessoas dizem admirar a música sem jamais terem escutado.

Voltemos ao Heckel Tavares, além da música de rádio também escreveu música clássica de excelente qualidade. A suíte orquestral “André Leão e o Demônio de Cabelo Encarnado” é um exemplo maravilhoso. Também os concertos para violino, e o Concerto para Piano e Orquestra em Formas Brasileiras. Vamos nos conduzir para além do “lugar comum” da apreciação musical.

Talvez pareça que escrevo em círculos, mas a cada domingo estou apresentando um autor perdido de nossa música, estamos mergulhando juntos no universo da “Alta-Cultura”, que possui suas próprias leis, leis que iremos redescobrindo na medida em que ordenamos nossa sinapse e restauramos o complexo cognitivo com arte verdadeira. Não pense que isto basta, é apenas um ponto de partida. Este trabalho resta por fazer, em todas as áreas de nossa cultura. Esquecemos nossos grandes poetas, nossos maiores escritores.

Precisamos redescobrir o Brasil. Quantos aqui leram a ”Carta do Achamento”, escrita por Pero Vaz de Caminha, ponto de partida de toda nossa cultura?




Cuidado com o conhecimento pronto, você é o seu melhor professor, eu estarei aqui apenas para dizer o que merece sua atenção, para te ajudar a não perder tempo procurando valor em obras que partem do princípio de que “tanto faz ter valor ou não”. O desencanto é o veneno da cultura.


 de cabelo encaracolado que sempre assistia, ele dizia que gostava do som, mas bom mesmo era o avô dele. Quando a gente perguntava o nome do avô, ele respondia: Mozart! Claro que a gente achava que ele estava gozando com nossa cara e chutava o moleque para a rua! Mas eu fiquei curioso e uma noite de setembro fui conhecer o trabalho deste avô no auditório da faculdade de arquitetura da USP.

Havia uma orquestra de cordas realizando os ponteios do Maestro, fiquei impressionadíssimo e ao final do espetáculo fui cumprimentá-lo e perguntei qual era o segredo daquela música com várias melodias interagindo ao mesmo tempo. Contraponto, ele me respondeu com o dedo em riste apontando para o céu. Estava decidido, dia seguinte fui estudar violino e contraponto. Passei a acompanhar com entusiasmo os ensaios do grupo e me apaixonei pela música clássica.

Guarnieri foi um compositor extremamente competente na arte contrapontística e inspirado pela música regional.     

A sensação que ele passava nos ensaios era de uma longa relação de mestre-discípulo com os membros da orquestra. Havia uma áurea mística em seus gestos e expressões e pouco importava que o mundo fora daquela sala estivesse focado em outras coisas, estávamos no centro, que o mundo girasse em torno.

Mas assim é o Brasil, o povo inculto desconhece completamente a boa música, despreza os valores mais altos e aprende a chamar de gênios aos queridinhos da mídia; não me refiro aqui ao povão que come frango com farofa na Praia Grande, mas aos estudantes de medicina, odontologia, engenharia, filosofia e arquitetura na faculdade que presumiam lhes traria alguma formação acadêmica. Alunos não conheciam o maestro, não escutavam a orquestra, não sabiam o que acontecia. Posso culpar os professores, quase todos tão ou mais incultos que seus alunos, aferrados às balelas popularescas da velha escola de Frankfurt.

A ignorância do povo brasileiro não é um acaso, é um descaso. Não compreendem que o que importa não é o que você faz com a arte, mas o que a arte faz com você. Boa música te torna mais inteligente, estabelece relações neurais sutis, ativa o hipocampo, o núcleo accumbens, o sistema linfático e (quando você assiste um concerto ao vivo) o pré-frontal; fazendo os neurônios dançarem como num sonho. Vamos escutar esta bela suíte orquestral e refletir sobre as coisas boas que o Brasil está deixando de lado, enquanto perde tanto tempo, esforço, dinheiro e trabalho cultivando obras absolutamente desprezíveis.

 Ignoremos a mídia que nos oblitera e o MEC cujo compromisso com a educação é uma nulidade. Aprendamos com os mestres. Suíte Vila Rica - Mozart Camargo Guarnieri:




  *****************

Se você gosta de uma mídia honesta, que traz a opinião de colunistas sensatos e sem “rabo preso”, saiba que nós também!

Por isso precisamos do seu apoio. Com menos de R$0,35 centavos por dia, você estará nos ajudando a informá-lo com imparcialidade e transparência, todos os dias!

Basta clicar no link abaixo:

https://apoia.se/tribunadiaria

Logo do APOIA.se