ALTA CULTURA - GRANDES NOMES DA MÚSICA CLÁSSICA BRASILEIRA

Claudio Santoro e a Guerra fria

Por Maestro Roberto de Souza Barros Kalili 23/01/2022 - 17:40 hs


Quem estragou a música brasileira foi o Koellreutter, assim escutei mais uma vez da grande pianista Eudóxia de Barros, mas já tinha ouvido antes do maestro Cláudio Santoro, com quem estudei nos idos de 1985. A segunda guerra mundial trouxe ao nosso país este alemão, que foi perseguido pela gestapo, mas tinha o germe do dodecafonismo na alma. Ensinou em nossas terras e fez com que muitos compositores se desviassem do caminho e ficassem vários anos perdidos em melodias estéreis e harmonias que jamais se resolviam. Cadências perdidas. A destruição artificial da forma em nome da forma. Santoro foi um desses. Quando estudamos seu trabalho encontramos um bocado de peças sem sentido, mas como todo grande compositor, algum dia ele reencontraria a sua alma.

 

Foi exilado como comunista, ele me contou, mas não o era de forma alguma. Conheceu os países por trás da “cortina de ferro”, admirava os músicos (sobretudo os Búlgaros), mas sempre acreditou em hierarquia. Os homens são todos diferentes. Acima o compositor, depois o maestro, em seguida o solista, depois o primeiro violino, os chefes de naipe, a orquestra, abaixo aqueles que montam as estantes, os que varrem o teatro, o porteiro. Cada qual com seus méritos e sua contribuição para o trabalho, mas não é justo pagar a todos da mesma forma, quanto maior a responsabilidade, maior o salário. De outra forma vale mais a pena ser o homem que abre a cortina, do que aquele que passa noites em claro estudando a partitura.

 

Santoro conheceu todas as faces da guerra fria, quando jovem participou do partido comunista, por quê? Num tempo em que as moças não davam para qualquer um, as comunistas davam; desta forma atraiam jovens para usarem como sequestradores, assaltantes de banco, traficantes e contrabandistas de armas para a guerra contra a família brasileira, ou simplesmente para serem usados como massa de manobra, escudo humano ou bode expiatório. Santoro conheceu o comunismo, viu as filas intermináveis por um pedaço de pão, a miséria, a degradação incutida pela total falta de perspectiva de crescimento pessoal. Santoro foi recebido como herói quando recebeu anistia, comemorado pelos companheiros com pompas em Brasília onde apresentou sua Sinfonia Brasiliana, deu nome para teatro. Ele trouxe a planta acústica do melhor teatro do mundo, em Bremen, Alemanha. Niemeyer, metido a esperto, jogou a planta fora e fez um teatro democrático, com a orquestra no meio e o público em volta. Acústica zero, sem retorno, ninguém se escutava, os músicos eram obrigados a ficarem berrando para se entender. Num destes ensaios o maestro teve uma parada cardíaca e morreu. Mais uma vítima do comunismo.