ALTA CULTURA - GRANDES NOMES DA MÚSICA CLÁSSICA BRASILEIRA

Radamés Gnattali e o Choro Carioca

Por Maestro Roberto de Souza Barros Kalili 06/02/2022 - 19:39 hs


Radamés (1906 – 1988) fazia música do Rio de Janeiro, foi sobrinho de um dos melhores pintores do Brasil, Pedro Weingartner (vale á pena conhecer), frequentava tanto a música carioca (sem deixar de ser clássico), quanto á música clássica (sem deixar de ser um chorão), é um dos mais ricos em repertório e talvez aquele que mais agrade ao grande público quando sua música realmente for conhecida. A razão para isto é interessante, tinha muitos amigos e escrevia concertos e música de câmara para eles, Jacob do Bandolim, Chiquinho do Acordeon E Rafael Rabelo foram alguns. Em suas composições tem espaço para bandolim, pandeiro, acordeão, cavaquinho, violão de sete cordas, harpa, ao lado de orquestras ou em pequenas formações. Viveu o mundo do chorinho, do cinema, das salas de concerto. Escreveu mais de 300 partituras de grande qualidade, sempre valorizando a melodia e nunca descuidando do arranjo. Vivia no meio dos chorões da velha guarda, mas não se deixe enganar, teve formação completa, tocou viola clássica no Quarteto Henrique Oswald, realmente dominava a técnica e a expressão, além do contraponto, o que o levou a valorizar as vozes do meio em suas composições. A grande contribuição do quarteto de cordas na vida de um músico é levar o ensaio até as últimas consequências, saber ensaiar é uma arte antiga, transmite ao concerto uma falsa sensação de conforto e simplicidade, pois todas as dificuldades da partitura já estão resolvidas.

Um lado cruel da privação cultural esta em ignorar por completo que esta sendo privado de algo, que possui direito sobre aquilo que desconhece e não sabe que tem valor. Alguns dias atrás, para exemplificar melhor, um australiano foi cavar um buraco na frente de casa para consertar o cano da fossa e encontrou uma pedra preciosa de um metro de diâmetro, ficou rico. A pedra estava lá o tempo todo e lhe pertencia. Por trinta anos ele passou de carro por sobre a pedra, indo e voltando do trabalho, para pagar boleto e se manter vivo. Este é o preço de não saber. Privação cultural é o cão que gosta de roer osso porque

não lhe dão filé.

Restauração do universo imaginário, um conceito neurocientífico que lhe é ocultado dia após dia, para que continue deixando outras pessoas dizerem o que é bom para você. Aqueles que descobriram este funcionamento da mente poderiam ter ajudado a humanidade, mas optaram por ficarem ricos vendendo sabão em pó. Novidade não é uma qualidade artística. A música não evolui da forma que estão lhe vendendo, é apenas um argumento de marketing. Existe uma decadência programada em seus processos cognitivos. Alguém pensou nisso, te deixar mais burro para ganhar dinheiro vendendo sabão em pó. É triste, é cruel, é insensato, mas é verdadeiro. Permita-se reaprender a escutar música, a ler poesia, a conhecer nossos bons pintores. O resultado leva um tempo para aparecer, aos poucos você vai tirando uma porcaria da galeria de ideias e substituindo por uma coisa de valor, um dia você acorda e percebe que seu mundo ficou mais belo. Escute este concerto para viola e mergulhe fundo na boa música brasileira.