ALTA CULTURA - GRANDES NOMES DA MÚSICA CLÁSSICA BRASILEIRA

Guerra Peixe e o Movimento Armorial

Por Maestro Roberto de Souza Barros Kalili 27/03/2022 - 18:20 hs


O movimento armorial foi uma ideia genial de Ariano Suassuna, com o objetivo de promover uma alta cultura nordestina aproveitando motivos folclóricos. Atuaram em diversas frentes de forma organizada. Gravuras, composições, porcelanas, dramaturgia, dança, cinema e muita literatura regional, inspirada pelas manifestações típicas da arte popular, mas bem representada através autores cultos. Armorial significa “brasão de armas”, estandarte, coisa emblemática, criada para figurar como bandeira nordestina no universo imaginário da humanidade. Quando nos lembramos de um povo, é através de sua arte. Deixemos de lado aquele papo furado de antropólogo que valoriza qualquer primitivismo manifestando um amor incondicional pela falta de perspectiva. Não é disso que se trata aqui, mas de uma verdadeira arte erudita, que deve se tornar capaz de transmitir para a mente o retrato daquelas vidas, mas visto através de um prisma mais profundo.

Bem fácil aqui ser mal-entendido, vivemos em uma ótica desfavorável à compreensão; nossa língua está amarrada por palavras caídas e nossa mente poluída. Convém reestruturar a mente, transcender o óbvio e se reinventar com boa arte e boas leituras. Ariano Suassuna entendeu isto e exemplificou com o “Auto da Compadecida”, e Cézar Guerra-Peixe fez o mesmo com sua “Orquestra Armorial”. Mais um compositor que desceu ao inferno dodecafônico, para ressuscitar sua arte em 1975, gravando este belo trabalho modal que junta viola nordestina, rabeca, marimbau, caixa-clara e pífanos, com a orquestra de câmara.

Os movimentos culturais com raízes folclóricas e mentes cultas são o cimento de uma cultura, “música das esferas”, a expressão da harmonia matemática servindo de ponte entre o mundo inferior e o mundo superior. Isto se opõe firmemente ao artista pop, que tenta agradar e mudar o mundo ao mesmo tempo, percebe a falsidade? Para agradar, o artista nada a favor da correnteza, mas para mudar o mundo ele tem de nadar rio acima. Mais uma falácia da vida moderna que a mídia enseba nas mentes inocentes. Criaram o rebelde proforma, que finge rebeldia enquanto segue todas as regrinhas hipócritas do politicamente-correto. O rebelde laranja, o rebelde bunda-mole que serve de pelego ao politiqueiro banana. O rebelde que usa máscara e toma vacina. Não caia nessa!        

A bagunça está instaurada; vivemos a visão de Santo Antão do Deserto: “Virá o tempo em que os homens vão enlouquecer, e quando virem alguém que não é louco vão atacá-lo e dizer: Tu és louco, tu não és como nós!”. A pop arte é o avesso da arte. Guerra-Peixe também enlouqueceu, cometeu aquela barulheira no disco Tropicália. Tem gente zurrando que o disco é um clássico. Não é. Clássico é esse aqui. “A diferença não está no que você faz com a arte, mas naquilo que a arte faz com você.” (Olavo de Carvalho). Num mundo dominado pela cultura de massa, o conservadorismo é a resposta da inteligência contra a degradação da arte e a deturpação da cultura.