BELIEVER

A desintegração da autoridade significa o colapso da justiça.

Por DÉBORA BALZAN 23/06/2020 - 22:50 hs

Em uma das mais profundas reflexões sobre a relação entre a vida pública e a privada, Shakespeare escreveu o seguinte:

Tire um só grau, desafine aquela corda, e, ouça, que discórdia! As coisas se opõem em pura opugnação: as águas confinadas ergueriam seus seios mais alto que as costas e fariam sopa deste sólido globo; a força bruta se assessoraria e o filho rude mataria o pai. Força seria direito; ou, antes, certo e errado – entre cuja contenda jaz a justiça – perderiam seus nomes, como também  calharia à justiça. E então tudo no poder se encerraria, o poder na vontade, a vontade no apetite. (Troilo e Créssida, 1, lll).

Roger Scruton (em ‘O que é Conservadorismo’, É Realizações, 2ª Ed. p. 280) transcreve essa passagem, salientando que o mundo moderno e suas estruturas sociais não compreendem as complexas estruturas de precedência que Shakespeare viu como moralmente indispensáveis, mas que contém um insight: A desintegração da autoridade significa o colapso da justiça.

Esse insight me remete imediatamente à necessidade de  manipularem-se  pessoas por engenharia social através da Nova Ordem Mundial (leitura indispensável:  Introdução à Nova Ordem Mundial, do Alexandre Costa) e todo o progressismo incrustado no establishment político, baseado em palavras que perderam seu significado, como amor, democracia, igualdade, em uma busca doentia/maldosa por igualdade entre desiguais. Penso que o que ocorre é justamente o desamor ao conhecimento e à verdade. A ausência real de vontade na maioria das pessoas em buscar a sua melhora,  por si mesmas; ao contrário, na  prática, ocorre “a fome com a vontade de comer”, ou seja, as pessoas querem e se permitem serem infladas  de que tudo é direito, mas sempre com as marcas indeléveis da inveja, da preguiça, do poder e da busca desenfreada do não-sofrimento e dos prazeres sensitivos. Há uma enorme confusão entre desejo e autorrealização. Como será possível restaurar a autoridade legítima e a justiça em meio aos globalistas e aos infantilizados?

A verdade foi transmutada e determinada por desejos de grupos; mas a verdade é objetiva e sempre uma só. Há muita confusão entre desejo, cegueira, preguiça, manipulação léxica, eufemismos; por isso a dor e ataques a quem obstinadamente a busca e por vezes consegue desvelá-la. Há que se superar a maledicência, o medo, a solidão e os tombos pelo amor à busca da verdade.

Isso atinge toda a sociedade e ramificações. Por que autoridade, justiça e verdade são interligadas? Antes de mais nada, apenas acredito e confio plenamente na Justiça Divina e no Direito Natural. E a justiça humana? Precisamos lutar por ela também; para atingirmos o divino, comecemos pelo mundano, lutando contra a mentira e contra injustiças que saltam aos olhos de, nesse caso, qualquer que queria ver: todos provemos de sentidos, aí esta nossa igualdade ontológica. No entanto, somos muito, mas muito desiguais, inclusive perante o Divino, moralmente.

Assim, autoridade não é só poder constituído, mas poder constituído COM LEGITIMIDADE intrínseca, ou seja, com a anuência dos que trabalham para um mundo um pouco melhor daquele que recebemos.

Sinceramente, acreditar que isso seja possível, acredito. Não pela maioria dos homens, não pelas instituições, Deus me livre. Não é possível mais ser ingênuo nesse país, mas é necessária cautela para não sermos abatidos. 

E nas execuções penais, óbvio, essa é a realidade. Com a Covid-19, veio muito mais do que a real preocupação dos ativistas com a saúde das pessoas. Veio o pretexto para soltar, aquele desejo inominável desses ativistas. Os mesmos que usam e abusam da farsa do superencarceramento, quando se tem em verdade, super impunidade e um índice baixíssimo de presos contaminados, sendo o risco extremamente maior de contrair a doença daqueles que não estão presos. Não tenho notícia de uma morte sequer no sistema penitenciário gaúcho. Tudo isso sem contar a total ausência de fiscalização de que não irão aglomerarem-se; ao contrário, veja-se o episódio da festa de traficante no RJ em tempo da epidemia e da proibição da polícia entrar nas favelas.

Antes da Covid-19, todos institutos, todas as interpretações (tá bom, quase que imensamente todas)- muitas extremamente forçadas -, já eram em favor do criminoso e em desfavor à sociedade. O ativismo, afastando a autoridade legítima da vontade do povo expressa na lei, somado à apatia de muitos atomizados e infantilizados, inverte a lógica do moralmente aceito pelas pessoas comuns, Brasil a dentro, e não daquelas que fazem parte do eixo capitais globalistas. A luta está praticamente perdida, ao menos judicialmente não há como vencer a linha industrial, nem sequer juridicamente. A questão sempre é política. Mas se meus dramas profissionais, desejos e postulações junto a quem poderia ajudar de alguma forma fossem atendidos? Absolutamente de tudo fosse possível recorrer? Força-tarefa nessa ferida aberta (acho bem difícil, pra não dizer impossível), haveria justiça?

A resposta é fácil: se acontece de cima para baixo, do grande para o pequeno, seria diferente? Pensemos se vige o princípio da legalidade, ou se é crime tentar combater o crime?

Como ser honesto, como lutar pela verdade em meio à ausência de autoridade da lei e onde, não raro, o prejudicado ajuda o algoz com sua incapacidade moral de querer ver e por sofrer as mutações globalistas. As ovelhas estão ajudando quando afiam os dentes dos lobos e querem exterminar com os pastores.

Em execução penal, onde cada processo tem por trás a dor de uma vítima e de uma família inteira, e, para todo o sempre, há a maior desigualdade, a dor do tratamento desigual entre ela e o criminoso. A luta está cada vez mais assimétrica. Onde está a autoridade legítima da lei? A questão é como se concebe a violação às leis aqui em terra brasilis? A punição existe para apaziguar a indignação geral, dá a descrição de referência  ao mal feito.  Mais uma vez, Sir. Scruton (ob. cit.) “...tampouco esse tipo de absurdo é o único defeito na abordagem progressista da instituição da punição (...) retira da descrição da punição qualquer referência ao mal feito, apresentando o crime em termos neutros, como uma espécie de acidente biológico gerado por um organismo desordenado; e nossa única preocupação seria “curá-lo”. Isso é desumano, distante da esfera do entendimento comum, sem motivação, sem objetivo, sem valor. Isso significa abandonar o conceito indispensável de liberdade a um equívoco vulgar, sob o disfarce de uma visão “objetiva” e “científica” do homem. À medida em que o poder estabelecido foi adulterado pelo especialista e pelo carreirista, o humanitarismo vago começou a substituir as sanções naturais, separando a lei do seu fundamento moral.

Não temos a menor chance de vencer essa assimetria imposta pelo desonesto. Não existem meios jurídicos para isso, onde o adversário é desonesto. Não há outro caminho senão o de correr para a vida real. A prudência me chama a parar por aqui; o Direito Penal do inimigo, também.

Se eu acredito na justiça? Tenho muito medo e a vida como está me atormenta demais; socorro-me do Santo Padre Pio de Pietrelcina:

“Procure não inquietar sua alma diante do triste espetáculo da injustiça humana. Sobre esta injustiça você verá, um dia, o triunfo definitivo da justiça de Deus.”